Gotas
Não tem nada de assustadora! É linda! Tomás, diz-lhes!
Beatriz agarrava ao peito uma gata esquálida e desgrenhada, e chorava tão alto que os vizinhos que a rodeavam tapavam os ouvidos, entredormidos por aquela comoção matinada.
Beatriz, de voz grossa e poderosa, como todos da sua volumosa família lisboeta, fazia-se sempre ouvir se não com jeito, pelo menos com estrondo. Aos cinco anos, ninguém lhe fazia frente no bairro quando o assunto era berrar até fazer tremer os vidros das janelas antigas.
Já todos se tinham acostumado a Beatriz e aos seus múltiplos irmãos seis no total, contando com ela , filhos da infatigável Jacinta. Ninguém ligava às diabruras da criançada, conscientes de que a mãe, entre um turno e outro no hospital de Santa Maria, dificilmente conseguia manter aquela tropa na linha. Jacinta trabalhava horas e horas, um fado de mulher só, de que qualquer outra já teria desistido e pendurado as botas no parapeito do Bairro Alto.
A vedação de ferro forjado, separando o velho palacete convertido há décadas em prédio de famílias, era o orgulho do prédio. Todos os anos, por alturas da Páscoa, Jacinta e os vizinhos pintavam com carinho as grades torcidas, assegurando assim o direito de ali se sentar ao entardecer, de pernas penduradas, aproveitando a brisa do Tejo e o cheiro dos jacarandás.
Mas mesmo deste descanso Jacinta abstinha-se, suspirando filosoficamente:
Somos todos bestas de carga! Lindas, sim, inteligentes, mas de carga. E quem pode fugir? Ninguém te leva a vida às costas, tens de puxar sozinha. Só eu, meninas, sou pônei imortal. Dou voltas e voltas, nem sei para onde nem porquê. Para quê, já entendi. Agora para onde Sigo, tropeçando no rabo do cavalo à frente, sonhando com o fim do dia. Com todos limpinhos e bem alimentados nas camas. E a pia sem um prato sujo, porque alguém já tratou de tudo. Estranho, não? Mas essa pia vazia é que chama felicidade…
Jacinta era mulher de espírito profundo, rosto simpático e bonito embora ninguém reparasse, não com seis crianças de idades a escorrer pelos degraus da vida, sozinha, sem apoio. À vida amorosa já dera o último Fado. Chega de Cupidos: bastava-lhe os filhos, a casa, o trabalho.
Ser mãe de seis em Lisboa não é peras doces!
Mas ninguém se queixava da vida de Jacinta, pois conheciam bem a sua história. Beatriz como outros três dos filhos era adotada.
Mas não, Jacinta não os trouxera de orfanatos ou debaixo do manto de um qualquer projeto de futuro. Seria capaz? Talvez, noutro tempo, com outra sorte. Mas sozinha, não jamais sonhara ser “mãe coragem”.
A vida, no entanto, é astuta e trocista. Lança desafios de fé, coração e juízo, sem pedir licença.
Atira, depois espera: “Pois, e agora? Vais mostrar do que és feita?”
E Jacinta teve de pensar e escolher. Embora, desde logo, soubesse o que faria.
As crianças que criava eram seu legado.
Legado, se aceita ou rejeita. E Jacinta entendeu: recusar não era opção. Afinal, dela nunca desistiram. Por que abandonaria ela filhos que a vida esqueceu? Eram tão seus quanto podiam ser.
Havia motivos na sua cabeça; sólidos ou não, pouco interessava. Bastavam-lhe.
Jacinta era filha dos anos noventa. A mãe, bela como princesa de S. Vicente, fazia inveja às demais raparigas do bairro da Graça. Casou-se mal fez dezoito, num vestido tão celestial que só dava para sonhar, com um marido tão empreendedor que assustava das voltas da vida pouco se dizia.
Dos pais, Jacinta não se lembrava. Os via só ao domingo, com a avó, pelo caminho do cemitério dos Prazeres. Ali ficava uma lápide polida, com fotos que Jacinta pequena passava o dedo, murmurando novidades: sobre o desenho elogiado na escola, sobre o cachecol vermelho e branco que a avó lhe tricotara.
Só soube, aos dezasseis, do que lhes acontecera:
O teu pai era bandido, minha filha. Partiu cedo, levou a minha filha atrás. Mal dele não posso falar mas nunca lhe perdoei levar a minha menina. Chorei tanto, roguei-lhe para não se meter com ele mas, filha, não me quis ouvir. Amava-o. Ele a ela também, pelos vistos Dizem os amigos que se pôs à frente para lhe salvar a vida. Talvez amasse, quem sabe? Deixou-te a ti, pelo menos, a minha alegria.
Nessa altura, Jacinta percebeu aquelas visitas de amigos calados à cozinha, ouvindo a avó contar-lhe vitórias na escola de música, deixando envelopes cheios de notas e partindo, sem explicação.
A avó aceitava os dinheiros, mas guardava-os. Dali a uns anos, comprou um apartamento grande a Jacinta, no coração da cidade.
Pronto, meu bem. É herança dos teus pais. Casa e futuro.
Mas Jacinta não quis morar ali, preferiu ficar em Campo de Ourique com a avó.
Porquê, Jacinta? A casa é tão bonita! Perto do liceu. Dá para ir a pé! O trabalho fica logo ali!
Só vou se fores comigo. Ou então ficamos por aqui!
A avó, teimosa, não queria largar o seu T1 de memórias. Acabou por ceder só quando apareceu a prima Goreti:
Deixa ficarmos na tua casa, Jacinta! Tenho miúdos e a tua está vazia. Pagamos a renda, ajudamos, dá para fazermos a inscrição no infantário, senão não aceitam as crianças!
Goreti era despachada, de trato fácil, e a avó de Jacinta não se iludia:
Ouve o que te digo, menina! Goreti é matreira como raposa, não te metas
Mas avó, ela tem filhos!
Que seja mãe deles! Preocupa-te contigo, Jacinta!
Mas Jacinta, sempre de ouvidos atentos à avó, não conseguia afastar de si os pequenos Tomás e Elisa, tanto precisos de afeto, metidos sempre debaixo da sua asa, fazendo beicinho quando a mãe os buscava.
Jacinta sentia que era injusto ter uma casa vazia quando outros se apertavam. E Goreti não se cansava de repetir: somos família, família não se deixa para trás.
Estes ecos humanos pareciam persegui-la. Desde miúda, a avó dizia que se o pai de Jacinta tivesse vivido como gente, a mãe dela estaria viva. Tocava-lhe ouvir isso.
O maior elogio era ouvir a avó dizer:
Assim é que é, Jacinta! És pessoa de bem. Dou graças por ti.
E acreditava que, com Goreti, devia ser igual até que a avó a surpreendeu:
Isso não! Nada disso!
Porquê? Não é justo Goreti e os filhos andarem de casa em casa, enquanto a minha está vazia?
É, sim senhora! Porque ela não é a Goreti que conheces. E mais: já não te lembras da história da raposa e da cabana de gelo? Pois eu lembro!
Avó
Cala-te, não me repliques! Goreti não entra na tua casa! Vamos nós!
Mas tu não querias mudar!
Pois agora, paciência. Tens razão, família que se preze não deve negar ajuda. Mas dar tudo de bandeja isso é tolice! Goreti é desenrascada, há de se erguer. Precisa é de tempo, de cana de pesca não de peixe! Quando se dá tudo, a pessoa não aprende a lutar. Abres agora porta, nunca mais a fechas. Nem vais querer. Acabas prisioneira. Percebes?
Talvez Mas avó, é assim tão feio pensar isso?
Não sei se é feio, é real. Falamos agora, mas um dia o ressentimento vem. Coisas fáceis não são ditas. Deixa que eu decido. Se alguém se chatear, que seja comigo. Contigo, não. Por eles. Para que tenham uma tia que os ame. Isso é ouro. Não te esqueças, cada gota de amor é tesouro, Jacinta!
A avó tinha razão.
Goreti só suspirou quando ouviu a decisão.
Já sabia que não a deixavam sozinha.
Ias magoá-la?
Nunca! Só vos tenho a vocês!
Pois então, fique conosco, minha filha. Damo-nos bem, ajudamo-nos, sabes disso.
Mudaram-se e a vida seguiu. O tempo esse, nunca para. Jacinta queria que a avó finalmente respirasse, curtisse o fim da vida, mas o destino decidiu ao contrário.
A avó cumpria religiosamente as consultas no centro de saúde do bairro, rindo das receitas como se fossem cartas de baralho.
A saúde, essa, ia envelhecendo rápido.
Jacinta preocupava-se, tentava acompanhar, mas a avó sorria:
Que disparate! São dois passos! Vai cuidar da tua vida, menina. Eu posso cá sozinha.
Ah, como Jacinta se arrependeria depois
Um dia comum, de inverno. Lisboa de frio cortante, vento pelo Rossio, neve que se mistura com a humidade antiga. O gelo, escondido sob o granizo, apanha a avó desprevenida. Cai, bate com a cabeça, apaga-se. Passam pessoas apressadas, pensando nas suas vidas de azulejos e trânsito. Pouco lhes importa a velhota deitada na calçada, encostada ao lancil.
Um taxista, vendo a cena, encontra na bolsa da avó um papel com o contacto de Jacinta. Chama uma ambulância. Mas já é tarde
A avó faleceu no dia seguinte. Jacinta chorou sentada em cadeiras de metal, de mãos dadas com Goreti, que deixara os filhos à vizinha e voara para o hospital.
E agora, Goreti? Como fico sem ela?
Não ficas sem ela, não digas tolices! Espera tentava reconfortar, sabendo, no íntimo, que era inútil.
Nenhum médico servia de consolo.
Jacinta, ela detestava choradeiras! Queria-te forte, como ela.
No dia seguinte, Jacinta percebeu: estava sozinha. E o mundo não lhe poupava novidades.
O Miguel apareceu. Com ele, Jacinta passou quase cinco anos, separando-se sem gritos, ficando com dois filhos e um alívio de consciência. Miguel era direto. Conheceu outro grande amor, não escondeu, disse de caras: Preciso partir, mas ajudarei sempre.
Somos amigos, Jacinta?
Pois Ouve-te a ti próprio, Miguel?
Nem se conseguiu zangar. Pela verdade? Por outra mulher? Assim é a vida! Mais difícil era para as crianças, claro.
Sem mais perguntas, ajudou o marido a fazer as malas. Foi junto às crianças, ligou a Goreti:
Preciso de ti
Goreti, sempre ocupada, preparava-se para resmungar. Mas ao ouvir a voz da prima, largou tudo, maldizendo Miguel com exasperação.
Não chores! Ele que vá. Não merecia as tuas lágrimas! Havia de te abandonar De qualquer maneira! Não agora, depois!
Porquê? O que fiz eu?
Ai santa. Tu não tens culpa. Ei homens assim aos montes. Tu és suficiente para eles. Se não és tu, é outra. E da próxima, do mesmo. Ao menos ele não fugiu dos filhos. Aposto que cumpre. Isso não te alivia, mas é mais do que muitos têm. O Paulo do meu lado nem telefono, só manda para os meninos ninharias.
Goreti, como faço agora?
Não brigas com o Miguel. É tudo. O resto, como o tempo, resolve-se.
Vai dizer que o tempo cura tudo
Mentira. Não cura só troca umas dores por outras.
De onde te vem tanto juízo?
Da tua avó! Ainda hoje a oiço na minha cabeça, como te oiço a ti Enquanto lembrarmos dela, vive connosco. Está a ver?
Jacinta sorri, arrastando uma toalha seca pelo balcão.
Obrigada, avó suspira. Mas porque dói tanto?
É normal, Jacinta. Se não doesse, devias mesmo preocupar-te!
Goreti tinha razão. O tempo, a vida, passavam. Jacinta não tinha vagas para tristeza. Miguel continuava a visitar os filhos, ajudava como prometera.
E depois veio outra notícia.
Goreti! Não pode ser!
Ó Jacinta, tu que és mãe, não sabes como acontece? Queres o manual? brincava, olhos negros de medo.
Muito engraçada. Quem é o pai?
Pouco interessa. Soube que era gémeos, desatou a fugir. Nem tempo de assustá-lo tive.
E agora?
Tenho o Tomás e a Elisa. E mais dois? Nem casa, nem dinheiro
Goreti, nervosa, fugiu para a casa de banho chorar. Jacinta, olhando para Tomás, sentiu dentro de si uma decisão que a maioria teria chamado de loucura.
Estás doida! murmurava Goreti, recusando assinar papéis. Não posso aceitar
Podes sim! Jacinta trocou olhares com o notário. Assim é justo. A avó compreenderia. Os teus filhos merecem casa, Goreti. Que fiquem juntos, sempre.
A velha casa da avó passou para Goreti. Entre sopros e esperança, esperaram os gémeos.
Beatriz e Mariana nasceram pequenas, mas resilientes e donas de uma voz espantosa.
E os nomes, senhora?
Uma pelo nome da mãe, Beatriz. Outra em honra da tia, Mariana.
Pessoa de valor a tia, para dar o nome à filha?
Era extraordinária. Sem ela, estas crianças nem sequer existiam!
À porta da maternidade, Jacinta e os outros miúdos acolheram os recém-nascidos.
Cá estamos, mais um bocadinho de família! sussurrou Jacinta, dando um beijo de boas-vindas.
Ao menos que sejam felizes murmurava Goreti, retendo lágrimas.
Se tivesse ouvido as inquietações, ido ao médico, talvez tudo fosse diferente.
Mas quem tem tempo para si, com bebés nos braços?
Falte-lhe a saúde, e uma semana depois Goreti chama Tomás:
Vigia as gémeas, chamei o INEM, liga à Jacinta. Não cries alarme, avisa devagar Elisa.
Goreti não sobreviveu. O coração falhou de repente.
Jacinta viu-se perante o maior dilema. Entregar Tomás, Elisa e as gémeas ao Estado? Nunca. A responsabilidade era enorme quatro a mais, com os dela já seis mas separado não cresciam.
O Miguel ajudou, arranjou-lhe advogada, ficou a tomar conta das crianças durante as burocracias.
E a tua mulher não se incomoda?
Não, ela é mãe. E já percebeu:
O quê?
Que já não voltarei para ti, Jacinta.
Pois, é isso
Vais conseguir. Se fosse outra, duvidava. Tu consegues.
Oxalá Deus ouça isso Mas a avó está lá, se Ele for surdo, ela fala por mim.
O resto foi confuso.
Jacinta, firme por fora, chorava à noite no travesseiro, de medo, de cansaço, quase sempre murmurando para o vazio:
Avó, e agora? Diz-me como fazer com este batalhão!
Mas a memória, malandra, devolvia-lhe sempre um dito da avó, uma dica, um ciciado antigo. E Jacinta encontrava resposta bastante para seguir, dormir, erguer-se.
Se o caminho era certo? Nunca sabia. Mas as crianças iam crescendo, unidas, certas de que Jacinta era a pessoa a quem recorrer quando tudo corria mal. Ela ouvia, julgava pouco, perdoava sempre, fazia tudo para não doer.
E agora, ali no bairro, Beatriz abraço a gata suja, olhando furibunda para a senhora do segundo esquerdo:
A Jacinta põe-te na rua com esse bicho, Beatriz! Olha lá bem, que ela está cheia de sarna! Deita fora!
Não! Beatriz espreitou para Tomás, depois para a porta do prédio.
Nesse dia, Jacinta planeava levar a prole ao Jardim Zoológico. Levantara-se cedo, fizera torradas, ditara ordens e despachara o grupo em menos de uma hora. Pôs os pequenos sob os cuidados de Tomás.
Vai com eles ao baloiço, Tomás! Dou-te dois minutos! Onde enfiei eu as sapatilhas velhas?
Vê no armário da Elisa! Ela andou a arrumar tudo. Estamos no pátio! Tomás fechou-lhes a porta atrás, garantindo: Jacinta, pinta o outro olho caso contrário, vai parecer uma assombração. Não corras! Eu vigio tudo!
Jacinta, em azáfama, achou as sapatilhas, pintou-se como raramente aos domingos trabalho à parte e, por impulso, pôs um batom novo, pensando: já agora, vida longa a quem se cuida! Não era justo viver assim, desmazelada, só porque tinha seis crianças e muitos problemas. Não, ia mostrar-se decente no zoo, recordar os dias em que a avó lhe dava compota e sandes, sentadas no mesmo banco ao lado dos elefantes. Agora era ela que cozinhava, ela que fazia a merenda, ela que passava os saberes. Era justo.
Abriu a porta bem-disposta, mochila ao ombro. Encontrou-se com a vizinha, que acenava misteriosamente.
Vai, Jacinta! Tens surpresa à espera
Beatriz disparou, gata ao colo:
Jacinta! Jacinta, olha! Não é linda?
E Jacinta, perante aquela gata esquelética e desgrenhada, nada respondeu.
Agarrou-a pelo cachaço, olhou-a bem.
O zoo fica para depois. Agora temos um tigre em casa. Tomás, onde há clínica veterinária por aqui? Anda daí!
Seria um bom dia. Talvez não houvesse Jardim Zoológico nesse domingo, mas isso não importava. A gata suja, tristona, enroscada ao colo da Beatriz, em breve ia transformar-se num animal bonito, forte, ronronante, trazendo mais uma gota de alegria e um oceano de felicidade para aquele lar estranho.
E ninguém se admiraria. Nem Jacinta, nem os filhos. Lá em casa, uma verdade era óbvia: onde há amor, nunca é demais.







