Fui passar um fim de semana na casa de campo de um senhor de 62 anos. A filha dele, de 37, mostrou-me o seu quarto — e fui-me embora nesse mesmo dia. Eis o que vi lá.

«Fui passar um fim de semana na casa de campo de um homem de 62 anos. A filha dele, de 37 anos, mostrou-me o seu quarto e fui-me embora nesse mesmo dia». Eis o que vi

Diário de Sofia

Quando um homem de 62 anos te convida para a sua casa de campo, não é um passo qualquer. Ainda mais quando já andámos juntos há seis meses e tudo tem corrido bem. O Manuel é viúvo, culto, lê imenso, tem maneiras impecáveis. Eu tenho quarenta e três. Depois do meu divórcio, não encontrava ninguém que me parecesse realmente certo.

Ele dizia as coisas certas. Falava de respeito, de verdadeira parceria, de como, aos sessenta anos, já não há espaço para jogos. Eu acreditei.

A casa de campo dele fica a quarenta quilómetros de Lisboa. Lindíssima, cuidada ao detalhe, relvado sem uma erva fora do sítio, roseiras floridas junto às janelas. Tudo no ponto. Demasiado perfeito, até.

Fomos recebidas pela filha dele, Leonor. Tem trinta e sete anos, solteira, vive com o pai e ajuda a gerir a casa. O Manuel apresentou-a com orgulho:

É a minha mão direita. Nem sei o que seria de mim sem ela.
Leonor sorriu. Mas na expressão dela não havia calor. Apenas um polido é como deve ser.

O jantar: aquela sensação de desconforto sem saber bem porquê
Jantámos na varanda. O Manuel contava histórias, ria-se, eu ia atrás, mas a Leonor mantinha-se calada. Servia ao pai mais chá, punha comida no prato dele, certificava-se de que nada lhe faltava.

Teria sido tocante, não tivesse tudo aquilo um ar automático. Como se estivesse a seguir uma lista de tarefas.

Tentei puxar conversa:

Leonor, trabalha em alguma área em especial?
Agora ajudo o meu pai, disse, breve.
Mas e antes?
Antes trabalhava, sim. Mas depois a minha mãe morreu, e o meu pai precisou de mim.
Manuel interveio, com doçura:

A Leonor é o meu anjo. Não me largou quando mais precisei.
Senti-me um bocado invasora. Aquele tom era íntimo, como se estivesse a presenciar algo a que não tinha direito.

Fomos cedo para os quartos. O Manuel mostrou-me o de hóspedes acolhedor, limpo, com fronhas de linho bordadas. Fiquei a pensar. Senti inquietação, sem saber bem porquê.

Manhã: visita guiada pela casa
O Manuel saiu cedo, disse que ia buscar pão fresco e compras. Fiquei com a Leonor.

Quando entrei na cozinha, ela terminava o pequeno-almoço. Não falámos. O silêncio era pesado.

De repente, pergunta-me:

Quer ver o resto da casa?
Aceitei. Passámos pelas divisões. O escritório do Manuel prateleiras de livros, secretária antiga, cheiro a couro e tabaco. A sala, com móveis clássicos, quadros a óleo. Tudo arrumado e intocável, como num museu.

Chegámos à última porta do corredor. Leonor parou:

Este é o meu quarto.
Quando abriu fiquei imóvel.

O quarto parado no tempo
Ali estava o quarto de uma rapariga de quinze anos. Paredes cor-de-rosa. Pósteres dos DZRT e dos Floribella. Prateleiras recheadas de peluches. Uma cama com folhos. Secretária cheia de cadernos escolares.

Sobre a cómoda, havia perfumes de criança, ganchos com flores, um diário com cadeado.

O quarto parecia parado numa bolha. O tempo não passou ali.

Olhei para Leonor. De pé à porta, olhava-me com serenidade. Como quem espera a reação.

Este é mesmo o seu quarto? perguntei.
Sim. Não mudámos nada desde que a minha mãe morreu. O meu pai acha que assim fica tudo como antes.
Mas já tem trinta e sete anos.
Ela encolheu os ombros:

Ao meu pai acalma-o. Ele diz que só assim sente que os tempos bons ainda estão por perto.
Fitei-a melhor: o rosto sem um fio de maquilhagem, o corte de cabelo prático, o vestido discreto, como usaria alguém bem mais velho.

De repente, entendi: a Leonor não vive. Está presa. Presa naquela casa, naquela idade

O que percebi
De repente, tudo fez sentido.

O Manuel não é apenas um viúvo nostálgico. Ele congelou o passado e não permite que a filha avance.

A Leonor devia ter saído dali há anos, feito a sua vida, apaixonado-se. Mas ficou. Não por vontade própria, mas porque o pai não a deixa partir.

Aquele quarto cor-de-rosa não é só memória, é prisão. O Manuel quer que a filha seja, para sempre, a menina que fica. Que nunca o abandona.

E veio o pensamento assustador: E se eu ficasse com ele? Ia tentar congelar-me também. Atribuir-me um papel na sua casa perfeita, sem espaço para mudança. Não seria parceira, seria figurante.

A mulher que encaixa no sistema dele. Sem exigir, sem perturbar, sempre conveniente.

Conversa com Manuel
Quando o Manuel veio da vila, disse-lhe que precisava de ir embora. Ficou chocado:

Mas combinámos ficar até domingo!
Surgiu uma coisa, desculpa.
Mas disseste que estavas livre!
Olhei para ele o rosto surpreendido, as mãos tremiam na pega do saco das compras.

E percebi: ele não vê.

Para o Manuel, tudo é normal. Filha adulta que vive com ele, dá-lhe todo o apoio, dorme num quarto cor-de-rosa normal. Porque a lógica é a dele, o conforto é só dele.

Manuel, a tua filha tem trinta e sete anos, arrisquei. Não achas estranho viver num quarto de adolescente?
Franziu o sobrolho:

O quê? Ela está bem. Eu também. Porque mudar alguma coisa?
Não aguentei e levantei a voz:

Porque ela é uma mulher feita!
E então? É livre de fazer o que quer.
A sério? Quando foi a última vez que ela saiu com alguém?
Calou-se. Depois murmurou:

Não percebo o teu ponto.
E aí percebi: não quer perceber. Prefere viver na bolha onde a filha é eternamente menina e as mulheres são visitas passageiras que não podem mexer em nada.

Fui-me embora nesse mesmo dia.

Sobre mim
Durante uma semana, questionei-me: estarei a exagerar? Seria só uma mania estranha?

Mas depois lembrei-me da expressão da Leonor. Da voz, do modo submisso.

Não são só esquisitices. É uma prisão invisível.

O Manuel mantém a filha refém do seu luto. Não deixa que ela viva. Qualquer mulher que entre no seu mundo acabará por ser subjugada pelas regras dele.

Eu não quero ser boneca de colecção. Não quero viver pelos hábitos de outra pessoa. Não quero tornar-me numa segunda Leonor.

O Manuel ainda telefonou, várias vezes. Não percebeu o que se passou. Pediu que explicasse. Mas como explicar o inexplicável a quem não está disposto a ouvir?

Mulheres, já vos aconteceu conhecer homens que mantêm filhos adultos dependentes emocionalmente?
Homens, acham normal uma filha adulta viver com o pai, num quarto de adolescente?

Sejam honestos: é possível construir uma relação com alguém que está preso ao passado?

Ou será que, de facto, cada um só tem de viver como lhe apetece, sem dar ouvidos a ninguém?

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Fui passar um fim de semana na casa de campo de um senhor de 62 anos. A filha dele, de 37, mostrou-me o seu quarto — e fui-me embora nesse mesmo dia. Eis o que vi lá.