Eu tinha ido entregar uma simples encomenda quando, atrás de uma velha vedação, ouvi um cavalo relinchar, como se me chamasse.
Chamo-me Tomás. Tenho quarenta e seis anos e trabalho a entregar encomendas pelas aldeias da Beira Interior, entre casas de granito, caminhos estreitos e quintas onde os cães ladram antes mesmo de desligar o motor.
Nesse dia só me faltava uma entrega.
Uma pequena quinta no fim de uma estrada sem saída. Um portão enferrujado. O terreiro coberto de terra batida. Um velho atrelado de transportar cavalos encostado ao celeiro.
Saí da carrinha com a encomenda debaixo do braço.
Foi então que ouvi um barulho seco.
Um estalido.
Depois, um grito.
Não era o relincho normal de um cavalo. Não parecia impaciência nem teimosia. Era agudo, cortante, quase humano. Daqueles gritos que nos atravessam por dentro antes sequer da cabeça perceber.
Aproximei-me da vedação.
Do outro lado, vi um homem a puxar a corda do cavalo com violência. Devia rondar os sessenta anos, rosto fechado, gestos duros. No fim da corda, estava um cavalo castanho.
Quer dizer, já tinha sido um belo animal.
Agora era só pele e osso, o pelo baço, as costelas marcadas. As ancas salientes quase furando a pele. As pernas tremiam de cansaço, como se já não aguentasse o próprio peso.
E os cascos
Demasiado compridos, deformados, curvados para a frente. Cada passo parecia-lhe um sacrifício.
O homem estava a tentar pô-lo dentro da atrelado.
O cavalo recuava.
Ele puxou com mais força.
O cavalo escorregou e caiu de joelhos.
Deixei cair a encomenda.
Pare já! gritei.
O homem virou-se de repente.
Você, volte para a carrinha. Isto não lhe diz respeito.
Senti as mãos geladas.
Nunca fui pessoa de grandes coragens. Não gosto de confusões. Baixo os olhos quando há discussão. Habituado a fazer o meu trabalho, manter-me discreto, sem incomodar.
Mas o cavalo estava ali, de joelhos no chão.
E ninguém fazia nada.
Às janelas das casas próximas, vi cortinas a mexer. Rostos fugazes, a espreitar e logo a desaparecer.
Toda a gente tinha ouvido.
Ninguém saía.
O homem puxou de novo a corda.
O cavalo levantou a cabeça na minha direção.
Nunca esquecerei aqueles olhos. Não era só medo. Era como se tivesse perdido qualquer esperança nos humanos.
Peguei no telemóvel.
Vou ligar à GNR disse.
O homem bufou.
Vai é arranjar sarilhos para si.
Talvez.
Talvez telefonasse ao meu patrão. Talvez os vizinhos dissessem que exagerei. Que era assunto da quinta, de dono, de animal velho.
Mas fiquei ali, junto à vedação, e liguei.
Expliquei, com calma, o que via. O cavalo magro. Os cascos. O atrelado. Os gritos.
Pediram-me para manter a distância.
Cumpri.
Mantive o telemóvel bem visível, não entrei no pátio. Não gritei mais. Apenas filmei alguns segundos do caminho, para mostrar o estado do cavalo e como era tratado.
A espera pareceu eterna.
O homem ia e vinha no terreiro, lançando-me olhares ameaçadores. Uma vizinha idosa abriu a porta, mas tornou a fechar assim que ele olhou para ela.
Depois disse-me baixinho:
Já o víamos emagrecer há meses mas aqui, evita-se confusão.
Não soube responder-lhe.
Quando a GNR chegou, o homem mudou logo de tom.
Tornou-se simpático, quase cordial.
Foi tudo um mal-entendido disse. O cavalo está velho. Ia levá-lo ao veterinário.
Fez-me sinal com o queixo.
Este senhor é que se alarmou sem motivo.
Não argumentei.
Limitei-me a mostrar o vídeo.
Mais tarde chegou a veterinária responsável. Chamava-se Madalena Ferreira. Mulher simples, cabelo preso, voz baixa. Nem precisava levantar o tom para ser ouvida.
Entrou no terreiro com os guardas.
O cavalo continuava a tremer.
Ela agachou-se junto dele. Tocou-lhe nas pernas, no dorso, nos cascos. O animal sobressaltava-se mesmo com os gestos mais suaves.
O rosto dela endureceu.
Este cavalo sofre há muito tempo disse.
Ninguém respondeu.
Depois, tudo aconteceu devagar, com cuidado, sem violência. Chamaram pessoas que sabiam transportá-lo sem causar mais dor. Trouxeram-lhe algum alívio antes de o movimentarem.
O homem ficou junto ao celeiro, braços caídos.
O cavalo, esse, estava cansado de mais para perceber que já não lhe queriam mal.
Foi entregue a um pequeno abrigo de cavalos nas redondezas.
Três semanas depois liguei para lá.
Disseram-me que se chamava agora Gaspar.
No sábado seguinte fui visitá-lo.
Pensei que me sentiria aliviado ao vê-lo. Senti-me, um pouco. Mas a recuperação não era bonita de ver.
Gaspar tinha comida, água limpa, solo macio. Mesmo assim, quando alguém se aproximava, afastava-se. Se via uma corda, começava a tremer.
Perguntei se podia ajudar.
Passei a ir lá todos os fins de semana: limpar, encher baldes, arrumar a palha. Não tentei tocar no Gaspar. Não lhe estendi as mãos. Não lhe pedi nada.
Sentava-me perto do cercado, numa velha cadeira de ferro, e lia em voz baixa.
Ao princípio ele ficava longe.
Depois, um dia, não se afastou.
Mais tarde ainda, continuou a comer enquanto eu lia.
E num sábado, enquanto lia, senti a respiração quente dele mesmo ao lado.
Fiquei quieto.
Gaspar estava ali.
Cheirou-me a manga, o ombro, o cabelo.
Depois baixou a cabeça imensa e pousou o queixo, muito devagar, sobre o meu ombro.
O peso era real. Quente. Forte.
Chorei em silêncio.
Gaspar não podia agradecer-me.
Mas tinha-me dado o que tinha de mais frágil: confiança.
Desde esse dia, sempre que passo por uma quinta, uma vedação ou uma janela de cortinas corridas, lembro-me dele.
Sei que muita gente não se cala por mal. Calam-se pelo medo, por quererem evitar chatices, por pensarem que uma voz nada muda.
Mas às vezes basta uma voz para travar o sofrimento.
Não precisamos de ser heróis.
Só é preciso parar, uma vez, no momento certo.







