Fui criada pela minha avó, mas agora os meus pais querem que eu lhes pague pensão de alimentos

Olha, deixa-me contar-te isto porque ainda estou a digerir bem a situação. Fui criada pela minha avó, a Dona Arminda, no Porto. Os meus pais, o Joaquim e a Graça, viviam sempre de um lado para o outro com o grupo coral deles, aquela vida de artistas que nunca pára. Desde miúda, nunca senti que fossem pais presentes, sabes? Quando fiz cinco anos, fui viver com a minha avó porque, basicamente, eles não tinham condições nem paciência, acho eu para cuidar de uma filha.

Ao início, lá vinham cá visitar-me uma ou duas vezes por ano, mas depois foi rareando até deixar mesmo de acontecer. Cheguei a um ponto em que já nem me lembrava deles, e as chamadas também acabaram. Cresci assim, na casa da minha avó, sempre a fazer contas à vida porque a pensão dela mal chegava para as duas. Ela própria dizia muitas vezes que cada tostão tinha de ser bem contado e eu sempre o senti.

Quando estava na faculdade de Medicina Dentária, já no terceiro ano, casei-me com o António. Ele também era estudante comigo. Juntos, trabalhámos imenso às vezes fazia noites no hospital só para conseguir pagar as contas e comprar o que precisava mas a verdade é que conseguimos abrir a nossa própria clínica de dentistas aqui em Lisboa. Graças a Deus, não nos podemos queixar, vai correndo bem.

No ano passado, do nada, os meus pais reapareceram. Nem sequer sabiam o meu número, imagina. Começaram a ligar para a clínica, a contar histórias das dificuldades deles, sempre a choramingar pela vida e pelo azar. Eu ouvia e respondia que cada um faz as suas escolhas, e eles escolheram continuar aquela vida e deixaram-me com a minha avó… pronto, fiquei por ali. De vez em quando, mandavam para a vó Arminda uns cinco ou dez euros, mas era só isso.

Agora, quando perceberam que eu não ia deitar-lhes dinheiro para a mão, atiraram logo: Se não nos ajudas, vamos pedir pensão de alimentos ao tribunal! Fiquei mesmo desiludida. Se ainda pensava em dar-lhes uma ajuda daqui ou dali, depois disto só me apetece cortar completamente com eles. Pergunto-me: estarei a ser demasiado dura? Ou, sinceramente, não lhes devo nada? Olha, era isto que precisava de desabafar contigo às vezes custa-me mas, por outro lado, acho mesmo que cada um segue o seu caminho.

Diz-me tu, achas que estou a ser justa?

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Fui criada pela minha avó, mas agora os meus pais querem que eu lhes pague pensão de alimentos