Eu e a minha família moramos cada um num canto de Portugal. Já lá vão mais de vinte anos que não nos vemos cara a cara. Eles vivem como artistas itinerantes, cantam num coro e a vida deles é uma eterna tournée nem o comboio Alfa Pendular apanha tanta estrada!
Quando fiz cinco anos, fui morar com a minha avó Bernardete. Ela achou que seria mais fácil lidar com uma neta do que com a decoração antiga do apartamento, e por isso ainda fomos bater à porta das tias lá para Santarém.
No início, a minha mãe, Lourdes, e o meu pai, Joaquim, vinham visitar-nos duas ou até três vezes por ano. Depois, começaram a aparecer cada vez mais raro eu ainda aprendi o calendário com as visitas deles, mas acho que perdi o jeito. Chegou uma altura em que nem pensava neles, e pronto, foi assim que o contato se perdeu.
Quando estava no curso de Medicina Dentária na Universidade de Lisboa, casei-me com o Nuno no terceiro ano coisas que acontecem quando se é jovem e não tem juízo!
Hoje, eu e o Nuno temos a nossa própria clínica dentária no Porto, e ganhamos bem, não é por falta de clientes com cáries. Há cerca de um ano, apareceram o meu pai e a minha mãe a tentarem contacto telefonaram para a clínica porque nem tinham o meu número, veja lá o grau de proximidade! As chamadas basicamente serviam para me contar como a vida deles era uma desgraça, com direito a queixas e resmungos dignos de novela da TVI.
Ouvia tudo, respondia com pragmatismo: lembrava-lhes que foram eles que escolheram seguir o fado das estradas e deixaram a filha aos cuidados da avó. Raramente mandavam uns trocos à avó Bernardete meia dúzia de euros quando havia espetáculo que rendia bem, mas na maior parte das vezes vivíamos das pensões dela. Ouvi isso vezes sem conta, e sabia que tudo contava. Ela e eu poupávamos em tudo até na luz, se o sol estivesse a brilhar.
Na escola portei-me muito bem, e para pagar a roupa e uns pãezinhos com chouriço, trabalhava no hospital como assistente noturna. Agora olho para trás e vejo que cada um fez o seu caminho: eu faço a minha vida, eles continuam a papar estradas como se fossem rally à portuguesa.
Eis senão quando, percebe-se que não vou abrir os cordões à bolsa, os papás começam a ameaçar pedir pensão de alimentos! Olhem, essas palavras foram a cereja no topo do pastel de nata… Se ainda tinha aquela dúvida de filha boazinha, e equacionava ajudar, agora só quero distância e sossego. Acham que estou a ser justa ou devia virar mecenas dos meus pais artistas de meia-tigela?







