Saí à varanda para recolher a roupa estendida quando ouvi a vizinha do andar de baixo a chamar o nome da minha mulher na entrada. Era sábado à tarde. O sol batia diretamente no estendal com os lençóis e o ar cheirava a pó e a asfalto quente. Inclinei-me sobre o gradeamento e vi o João encostado ao carro, com a minha sogra ao lado. Foi isso que achei estranho. Ela mora noutro bairro e nunca aparece sem avisar.
Recolhi depressa as molas e entrei em casa. Ainda nem tinha chegado ao corredor e já ouvia a chave a rodar na fechadura. A porta abriu-se e os dois entraram. A minha sogra trazia um grande saco de pano. O João parecia tenso, como quem desejava que tudo passasse rapidamente.
Não estava à espera de visitas murmurei.
Não vamos demorar respondeu ela, tirando os sapatos devagar enquanto olhava em volta pelo corredor.
Pousei as molas ainda húmidas em cima do armário e vi-os entrar na sala.
O que se passa?
O João nem me olhou. Limitou-se a sentar-se na beira do sofá.
A sogra pousou o saco na mesa.
Trouxe algumas coisas que estavam na arrecadação explicou.
Que coisas?
Abriu o saco e foi tirando objetos um a um. Um álbum antigo. Dois cadernos amarelados. E, por fim, uma pequena caixa de madeira.
O coração apertou-se-me ao reconhecê-la. Era a caixa da minha avó. Anos a fio esteve guardada no nosso móvel.
Onde a foste buscar? perguntei.
À arrecadação.
Mas ela estava aqui.
Ela encolheu os ombros.
O João já a levara há uns tempos.
Olhei para ele.
Porquê?
Ele passou a mão pelo cabelo.
Achei que não fazia diferença.
Não fazia diferença? Aquela é a caixa da minha avó.
A sogra abriu a tampa. Dentro estava um relógio antigo, dois alfinetes de peito e um bilhete dobrado.
São coisas de família disse ela, tranquila. Deve ficar com a família.
Eu sou da família.
Ela olhou para mim como se tivesse dito algo disparatado.
Tu és marido.
Fez-se silêncio na sala. Da rua, ouviu-se o estrondo de uma porta de carro a fechar com força.
O que queres dizer com isso? perguntei.
O João levantou finalmente os olhos.
A mãe acha que algumas destas coisas deviam ir para a minha irmã.
A tua irmã nunca conheceu a minha avó.
Mas faz parte da família.
A sogra assentiu devagar.
É o que faz sentido declarou.
Olhei para o relógio dentro da caixa. Lembrei-me de vê-la usar aquele relógio todos os dias. E de uma noite, na cozinha, em que ela mo entregou enquanto descascava maçãs.
Disse-me apenas uma frase:
Guarda isto, porque as pessoas às vezes esquecem do que é delas.
Fechei a caixa.
Não.
A sogra franziu o sobrolho.
Como assim, não?
Quer dizer que estas coisas ficam aqui.
O João suspirou.
Não faças uma cena.
Eu? Estou a fazer uma cena?
A voz tremeu-me, mas não recuei.
Tu levas coisas daqui sem dizer nada e a cena faço eu?
Ela ergueu-se.
Só estamos a conversar.
Não. Vocês já decidiram.
Pôs a mão em cima da caixa.
Vou levá-la. Depois conversamos com calma.
Nesse instante qualquer coisa se virou cá dentro. Agarrei a caixa e segurei-a atrás das costas.
Ninguém tira nada desta casa.
O João levantou-se, brusco.
Matilde, chega.
Não. Chega tu.
Fixei-o nos olhos.
Foste tu que a levaste para a arrecadação?
Ele ficou em silêncio. E aquele silêncio bastava.
A sogra abanou a cabeça.
Incrível como as pessoas se tornam ingratas.
Guardei a caixa de novo no armário e fechei a porta devagar. Às vezes, percebemos o nosso próprio limite não quando alguém o ultrapassa, mas quando outro fica calado e deixa que isso aconteça.
Fiquei ali na sala a olhar para os dois.
Digam-me sinceramente: fui eu que exagerei, ou eles tentaram mesmo levar daqui o que não era deles?






