Olha, deixa-me contar-te o que aconteceu há uns tempos, porque ainda me mexe cá dentro. Um dia decidi ir a um canil, mas com uma ideia fixa: pedi para me mostrarem o gato mais velho que lá tivessem. A funcionária ficou a olhar para mim surpresa, parecia até que pensava que eu estava a gozar ou que não fazia ideia do que estava a pedir.
Tem a certeza de que não prefere um adulto mas ainda com muitos anos pela frente? Temos gatos muito mansos e de colo.
Abanei logo a cabeça.
Não, mostre-me aquele que ninguém escolhe.
Sabes como são estes sítios têm aquele silêncio estranho de fundo, quebrado de vez em quando por um tique-taque de taças a bater, uns arranhões distraídos, algum miado perdido. Mas entre tudo isso, fica no ar um silêncio de espera, de quem já perdeu a esperança.
Com setenta e dois anos calcei uns sapatos vermelhos pela primeira vez, e acredita, parecia que tinha cometido uma heresia. Os olhares que recebi! Até a minha filha só disse uma palavra, mas percebi logo: estava a querer travar-me, não a proteger-me.
Lá no canil, nenhum cão ligava à menina surda que os chamava com gestos. Ela habituou-se ao silêncio que o mundo devolvia à sua linguagem. Só junto à boxe onze, um cão levantou a pata devagar. Eu conhecia-o.
Depois da morte da minha mulher, o silêncio também tomou conta de mim. Ficava ali, sentado na cozinha, no corredor, ao pé da televisão que deixava ligada só para fingir que havia alguém. As coisas dela todas nos mesmos sítios: a caneca, o cachecol pendurado, os remédios no armário. Só ela é que já não estava. Era como se o ar também tivesse ido com ela.
Foram dois anos puxados antes do fim. Hospitais, exames, quimioterapias, a fadiga que não havia piada que ajudasse. Eu nem me despia para dormir, para estar sempre pronto para a levar ao hospital. Levava-lhe comida em caixinhas, na esperança que conseguisse dar umas colheradas. E todas as manhãs acordavam-me paredes brancas e corredores frios de hospital.
Fui aprendendo truques: como fazer as sopas que ela sabia de cor, andar sem fazer barulho, perceber só pelo olhar quando o está tudo bem significava dói e não aguento. Só me repetia uma coisa: eu ia estar ao lado dela, acontecesse o que acontecesse.
Mas chegou o dia em que o meu mundo mudou.
Ela já mal se levantava. Falava pouco, respirava com dificuldade. Dormia ao meu lado no hospital e eu, encolhido numa cadeira, também ali ficava. O espelho do WC devolvia-me olhos encarnados, barba crescida, roupa amachucada. Uma das enfermeiras disse-me: Vá apanhar ar, tome um banho, mude de roupa. Vai cair para o lado.
Eu não queria ir. Algo dizia-me que não devia. Mas ela, baixinho: Vai, querido. Voltas daqui a pouco e ficas comigo melhor.
E até sorriu. Um sorriso pequenino, mas suficiente.
Fui a casa, despachei-me, nem bebi o chá que tinha aquecido. Quando olhei para a cama lá de casa, apertei-me todo. O telefone tocou enquanto abotoava a camisa e percebi logo, antes sequer de atender. No hospital, só me lembro de voar pelo corredor. Quando entrei já estava tudo quieto demais. Aquela quietude de quem daqui já não se move.
Peguei-lhe na mão já não era minha. Já não estava quente, não vivia. Era só a mão da mulher que amei a vida toda e não acompanhei até ao fim, como prometi.
Depois disseram-me que não era culpa minha, que ninguém adivinha o momento, que ela própria me mandou embora. Que fiz tudo o que podia. Mas a culpa não ouve conselhos. Fica em silêncio ao nosso lado. Segue-nos até à cozinha, sussurra quando lavamos a caneca Está lá, sempre: Saíste. Não estavas lá. Faltaste à última hora.
O meu filho quase não aparecia. Não por mal, mas porque a vida dele vai noutro ritmo, com a família dele, outras ocupações. Telefone sempre, diz para me aguentar. Uma vez trouxe compras, ficou pouco tempo e foi-se embora. Não lhe levo a mal e a casa não ficou menos silenciosa por causa disso.
Depois de uns meses, tive medo de uma coisa simples: habituar-me ao vazio. Começar a achar normal acordar, comer sem vontade, dormir sem sonhos, achar que ninguém precisa de mim.
Foi aí que me meti a caminho do canil.
A funcionária olhou-me sempre com aquela reticência preocupada.
Tem noção do que é um gato velho, não tem? Dá trabalho, gasta-se dinheiro, análises, cuidados A vida dele já não será longa. E pode ser difícil de lidar.
Assenti:
Tenho noção.
Mas porquê o gato mais velho?
Não era fácil dizer isto a uma estranha. Mas chegou o momento. Respirei fundo e disse:
Não consegui ficar até ao fim com a minha mulher. Mas a este gato quero dar-lhe isso. Não fui o seu primeiro dono, mas posso ser o último. E garantir que não morre sozinho.
Ela baixou os olhos aos papéis, depois levantou-se:
Aguarde aqui, por favor.
Foi corredor fora, até uma porta mais ao fundo.
Do outro lado estava uma gaiola perto do aquecedor, com um gato tigrado de olhar cansado. Parecia só dormir, mas quando nos aproximámos levantou devagar a cabeça. Os olhos não eram de gato. Ou melhor, não eram só de gato eram de quem já desistiu de esperar.
Chama-se Martim. A idade não sabemos ao certo, talvez treze ou catorze anos. Veio depois de a dona morrer, nenhum familiar o quis. No início até estava bem, mas foi ficando mais fraco, come mal, tem problemas crónicos no estômago e intestinos. Não é fatal, mas exige dieta, medicação e sossego.
Ela falou sem pressões, sem apelo nem recusa. Apenas deixou espaço para eu repensar.
Ajoelhei-me junto à gaiola. Martim olhou-me desconfiado, mas não se escondeu, nem bufou. Só olhava. Depois chegou-se devagar, cheirou-me os dedos e tocou-me a mão.
Naquele instante percebi logo.
Não por ser tocado por milagres, nem por esperar sinais secretos. Mas porque naquele velho gato cansado eu reconheci a minha própria solidão, a minha falta de exigências: ele também já só queria sossego.
É ele, disse eu.
A funcionária hesitou:
Tem a certeza? Ainda pode pensar melhor.
A certeza é só esta: pensei durante meses. Só não sabia por quem esperava.
Enquanto fazíamos a papelada, duas miúdas cochichavam baixinho no corredor:
Sério? O Martim?
Ninguém pega num velho, coitado.
Foi pena, de certeza.
Não levei a mal. A maioria acha que amor deve vir sempre embalado em promessas de futuro. Eu, pela primeira vez em décadas, agia só para não me sentir sozinho, nem ele.
À saída deram-me uma transportadora. Martim entrou, encolhido, a tentar passar despercebido.
Pode demorar a adaptar-se. Podem haver dificuldades.
Eu sei, respondi. Sei bem como é difícil começar de novo.
No carro falava-lhe baixinho, como a uma criança ou alguém muito doente: a voz é que precisa de ser suave nestas horas.
Olha, Martim, não sei o que já passaste nem tu sabes de mim. Vamos devagar. Não te estou a obrigar a nada. Só quero levar-te para casa.
Quando chegámos, abri a transportadora, deixei-o sair ao seu tempo. Ele deu uns passos pelo corredor, parou junto ao aquecedor e enroscou-se ali parecia que já sabia que na velhice, o importante é o quentinho e a paz.
Deixei-lhe duas taças: água e comida especial recomendada pelo veterinário do abrigo. Bebeu, deitou-se. Passei a noite quase sem dormir, a vigiar cada rumor. Ia ver se respirava, se não tinha vomitado, se precisava de água. Quase me ri de mim mesmo: imagina o velho atrás de outro velho, de noite, a andar de mansinho. Mas não era graça. Era medo de perder, antes sequer de ter.
No dia seguinte, levei-o logo ao veterinário. Médico jovem, muito calmo. Passou receitas, explicou-me tudo sobre dieta e medicação, disse para não dar mudanças radicais, nem bocados da nossa comida. Fui escrevendo tudo num caderno, tal como fazia com as recomendações do oncologista da minha mulher. Nessa altura, parecia desesperante como se de cada palavra dependesse uma vida. Agora percebia: cuidar, por mais trabalhoso, salva-nos daquele vazio impotente.
Nos primeiros tempos, Martim quase não confiava. Comia pouco, passava horas só a olhar pela casa, como se à espera de alguém que não sou eu. A senhora a quem pertencia antes. Não tentei forçar nada.
Não queria que ele me amasse ao fim de dias. Não precisava de mostrar a ninguém como batemos logo certo. Só vivi ao lado dele água limpa, comprimidos, sentava-me perto a ler o jornal em voz alta. Talvez para o habituar à minha voz. Ou só porque eu também queria desfazer o silêncio.
Uma noite, pus duas vezes o prato na mesa tinha o gesto colado da rotina de antes, da minha mulher em casa. Fiquei parado com o prato na mão, até finalmente o voltar para o armário. Quando dei por mim, Martim estava à entrada da cozinha a olhar-me.
Vês, rapaz, estou sempre a reaprender a viver
Ele não saiu dali, mas também não fugiu. Nesse dia, comeu melhor.
E assim fomos levando. O nosso convívio estranho, feito de aceitação silenciosa das dores de cada um. Fui percebendo hábitos pequenos: de manhã junto ao aquecedor, água sempre fresca, não gostava de barulho, mas acalmava com a televisão. Dormia num canto do sofá, com sempre um olho na saída. Dava valor a um ratinho de pano sem cauda que encontrei no meio de uns trapos e lhe deixei. Ao início ignorou, depois lá empurrou umas vezes com a pata.
Vês, já falamos a mesma língua.
Não ficou mais novo, nem melhorou de repente. Havia dias maus, idas à clínica, comprimidos escondidos em patê, noites de pânico. Mas a vida foi voltando.
Um mês depois, veio ao meu lado para o sofá. Não aos meus braços, claro, mas suficiente para, por aquela distância, aceitar estar comigo. Não mexi um dedo. Fiquei ali quieto, quase sem respirar. Adormeceu.
E pela primeira vez em muito tempo, senti paz. Não felicidade, nem heroísmo. Paz quase como uma chama pequena, daqueles momentos quando tudo está suspenso.
O meu filho apareceu de surpresa, uma tarde. Trazia fruta, ar atrapalhado de quem sabe que devia vir mais vezes. Parou ao ver o gato.
Quem é este?
É o Martim.
Velhinho, pá.
Pois, foi por isso mesmo.
Calou-se um pouco, depois arriscou:
Não tens medo, pai? De voltas a afeiçoar-te e depois?
Medo? Quem não tem? disse eu. Mas tenho mais medo de voltar ao silêncio. E não quero que ninguém morra só enquanto eu puder evitar.
Olhou para a chávena, traçou-lhe o bordo:
Ainda pensas muito nela? Naquele dia?
Demorei. O Martim levantou a cabeça, parecia também querer saber.
Não passa um dia sem pensar. Sobretudo na hora em que não estava lá, mesmo faltando tão pouco. Mesmo ela tendo querido que eu fosse. Isso não some.
O silêncio demorou-se. Depois o meu filho, baixinho:
Também pensei nisso. E sabes o que acho? Se a mãe pudesse, dava-te um raspanete por continuares a castigar-te.
Sorri, mas doeu. Ele: Não é talvez, era de certeza.
A conversa foi curta, mas mudou qualquer coisa em casa. Não foi a culpa que se foi, mas ficou menos pesada.
O meu filho começou a passar mais vezes traria comida do gato, ia connosco ao veterinário quando eu não me sentia seguro, trouxe um cobertor, dizendo que viu por acaso na loja. Na nossa família, os afectos nunca foram fáceis de dizer.
E o Martim também mudou. Por fora continuava velho e magro, mas voltava a interessar-se, circulava pela casa, investigava o corredor, comia melhor, lavava-se mais. Às vezes brincava com o ratinho de pano até o atirar para debaixo do armário e eu lá ia pescar com uma régua.
Houve noite em que me sentei na poltrona e ele dormiu ao meu lado, encostado ao chinelo. Lá fora chovia, a televisão murmurava, e percebi de repente: já não me assombrava a frase não estiveste lá. Não é que esquecesse, isso nunca. Mas alguém precisava de mim ali não antes, não na última hora impossível, mas agora.
E era isso mesmo que faltava.
Uma madrugada acordei de sentir a patinha dele. Martim veio à beira da cama, tocou-me só leve. Nem pedia comida ou atenção estava ali. Sentei-me, silêncio cinzento do amanhecer, antes pesado, agora mais leve. Passei-lhe a mão pelo lombo.
Disse em voz baixa, sem saber bem para quem:
Falhei da outra vez. Mas estou aqui agora. Só isso consegui aprender.
E foi a primeira vez que tal frase não me rasgou a alma.
Desde aí, algo em mim foi mudando. Não de repente, não de cinema. Só deixei de viver como se tivesse de pagar para sempre por uma ausência. A minha mulher não voltaria. Mas quem vivia ao aquecedor, a empurrar um rato sem cauda, poderia perder casa, conforto, amor se eu não lhe desse.
Agora eu e o Martim temos os nossos rituais. Está deitado à espera quando faço o café. Vai à tigela, dorme ao sol depois de almoço, à noite senta-se ao pé da televisão não sei se pelo barulho, ou pelo consolo de ter companhia.
Às vezes olho para ele e penso: não fui o primeiro na vida dele, e nunca serei o dono de todas as suas memórias. Tinha uma vida antes. Perdas antes de mim. Mas tive o privilégio de ser quem lhe acolheu a velhice, não com pena, mas com respeito.
Talvez seja isso que eu procurava por fim: lugar onde não deixar ninguém sozinho, se podia evitar. Não o perdão, nem a amnésia do que falhei.
Lembro-me muitas vezes da funcionária do canil, o espanto dela. Talvez tenha-lhe parecido estranho. Para mim não era heroicidade nem sacrifício: era só querer aproveitar cada momento, mesmo que não conseguisse agarrar todos.
A minha casa já não está vazia.
Agora há alguém à espera no corredor, alguém que respira na escuridão, que empurra um brinquedo velho à noite e se enrola à beira do aquecedor. E, com isso, nasceu em mim qualquer coisa que a culpa não me deixava ter durante tanto tempo: uma paz tardia, mas verdadeira.
Às vezes penso, para mim: nem salvei o Martim nem ele me salvou a mim. Isso soaria lindo demais. Simplesmente, ambos chegámos tarde ao amor de alguém e demos de caras um com o outro, no tempo certo.







