Fazem já muitos anos que embarquei numa excursão pelo norte de Portugal com um grupo de reformados. Não esperava nada de grandiosoa não ser alguns dias de visitas, umas fotografias para o álbum lá de casa, recordações para os netos. Só queria fugir ao peso dos dias iguais, à solidão que, com o passar dos anos, se tornara uma companheira demasiado presente.
Pensava eu que o Porto, Braga ou Guimarães seriam meros pontos num itinerário turístico comum. Contudo, foi à sombra da Sé do Porto que conheci um homem que me fez sentir de novo jovem.
Lembro-me bemestava debaixo dos arcos imponentes da catedral, comovida com a grandiosidade daquele lugar, enquanto o guia falava algo sobre os tempos antigos. Em vez de o ouvir, perdi-me em pensamentos. De repente, alguém ao meu lado gracejou: Gostava de ver se no tempo dos monges também se queixavam tanto do calor como nós.
Virei-me e dei de caras com elealto, cabelo grisalho, o sorriso carregado de algo familiar e, em simultâneo, misterioso. Vestia uma simples camisa e um chapéu leve, mas fitou-me como se fôssemos só nós dois ali.
A conversa começou naturalmente. Chamava-se Tomás, viúvo e reformado como eu, e viera sozinho porque, segundo disse, nunca se deve adiar uma viagem assim com esperança de melhores dias.
Falar com ele era fácil, solto, repleto de risos, como se já nos conhecêssemos há muito. À sombra da Sé, bebemos juntos um caféeu reparei, sem quase dar por isso, que há muito ninguém me escutava com tamanho interesse.
Os dias seguintes ganharam outra cor. Sentávamo-nos lado a lado no autocarro, almoçávamos juntos, perdiam-nos na multidão de turistas só para nos encontrarmos com um olhar. Havia nisso uma inocência e, ao mesmo tempo, uma emoção nova.
À noite, depois dos passeios, enquanto o grupo se entretinha com cartas na sala do hotel ou via televisão, saíamos para a varanda, contemplávamos as luzes da cidade e falávamos sobre tudofilhos, memórias, esse sentimento estranho e bom de sentir o coração a bater mais depressa.
Sentia-me menina de novo. Apetecia-me arranjar, pôr um perfume, pintar os lábios, rir mais alto. As amigas do grupo olhavam-me ora com simpatia, ora com um toque de inveja saudável. Sentia que me reencontrava, que voltava a ser aquela parte de mim que se perdera no hábito e nos silêncios do dia a dia.
Mas, quanto mais se aproximava o fim da viagem, mais crescia dentro de mim a dúvida: e agora? Ele vivia longe, para lá de Lisboa, eu no Minho. Cada um com a sua vida. Unia-nos aquela semana breve e quase mágica, que parecia existir suspensa do mundo. Seria isso suficiente para pensar em mais alguma coisa?
No último dia, saímos só nós a passear pelo Porto, longe do grupo. Sentados nos degraus dos Clérigos, saboreámos gelados, quase sem palavras. Foi aí que ele disse: Sabes… Já nem lembrava de me sentir assim tão bem. Mas tenho medo que, ao regressar, isto tudo desapareça. Tu em tua casa, eu na minha. Será só uma ilusão de férias?
E eu calada, dividida entre o desejo de acreditar num novo começo, e o medo de que fosse só uma chama breve, apagada no regresso.
No aeroporto, despedimo-nos com um abraço demorado, daqueles que dizem mais do que a boca ousa. Trocámos números de telemóvel, mas nenhum de nós disse: Vamos voltar a ver-nos.
Hoje, cada vez que recordo aquela viagem, não sei bem o que pensar. Pareceu-me um sonhointenso, bonito, mas efémero. Talvez Tomás tivesse razão: foi só uma miragem. Ou talvez tenha sido covardia não tentar saber se a vida nos dava mesmo uma segunda oportunidade.
Ainda hoje me perguntovaleria a pena trocar a segurança da rotina por um carinho inesperado? Ou guardar aquela semana como uma doce lembrança, intacta no tempo? Porque só de me lembrar dele, o coração ainda dança, mesmo que a razão tente travá-lo.
Talvez conte esta história para perguntar aos outros: depois dos cinquenta, dos sessenta, ou ainda mais, será que alguém tem direito de recomeçar? Ou será melhor guardar o passado como uma joia rara, ou arriscar e descobrir até onde nos leva esta emoção?







