Filho, eu não quero que te separes por minha causa! Leva-me para um lar de idosos!
Há meio ano trouxe a minha mãe para viver cá em casa. Ela já está muito velhinha, com 83 anos, sabes como é. Desde que o meu pai morreu, ficou muito difícil para ela viver sozinha lá na aldeia. Os meus filhos já são adultos, têm as suas vidas e casas. Ficámos eu e a minha mulher sozinhos num T2 aqui em Lisboa, então achei que não ia ser problema nenhum acolher a minha mãe.
No início, a minha mulher não disse nada, mas passados uns dias, a presença da minha mãe começou a incomodá-la.
Olha, era melhor que ela comesse sozinha, depois de nós.
Porquê, Sofia?
É mais prático assim. Eu perco logo o apetite quando a vejo a mastigar sem dentes… Desculpa, mas faz-me confusão.
Oh, deixa-te disso, todos um dia vamos passar por isso.
Isso agora é diferente!
E havia mais coisas que a irritavam: a minha mãe agora tem problemas de intestino, e, por cima disso, ressona imenso à noite. A Sofia começou a proibir a minha mãe de ir à cozinha e, a dada altura, já nem queria que ela saísse do quarto. Um dia, disse-me mesmo:
Olha, eu não imaginei que ela viesse cá para ficar tanto tempo. Já não aguento mais.
Mas queres que faça o quê?
Leva-a de volta para a aldeia!
Mas ela já não se consegue desenrascar sozinha…
Olha, toda a gente vive assim! Nenhum filho anda sempre atrás dos pais! Porque é que tenho de viver na minha própria casa como se fosse uma estranha? Aturar estes barulhos e o cheiro?
Juro-te, não sabia o que pensar. Até que um dia chego a casa e vejo a minha mãe ali sentada ao fundo do corredor, com o casaco vestido e a mala pronta.
Mãe, o que é que estás aqui a fazer?
Filho, leva-me tu ao lar de idosos, por favor!
Porquê, mãe? Para quê isso?
Eu não quero que vocês se separem por minha causa.
E ela continua a pedir-me para ir para lá. Eu fico sem saber o que fazer… Não consigo imaginar a minha mãe sozinha num lar, isso ia-me destruir por dentro. Será que o melhor não era simplesmente largar tudo e ir viver com ela para a aldeia? Digo-te, não sei mesmo o que fazer…







