Ficas em casa o dia todo sem fazer nada – Depois destas palavras, decidi dar-lhe uma lição Antes de…

Hoje escrevo no meu diário com o coração apertado, revendo os últimos anos e as voltas que a minha vida deu. Sempre ouvi das minhas amigas, antes de casar, que quando um homem se casa em Portugal, de repente começa a tratar a mulher como se fosse pertença dele e que revela quem realmente é. Mas, ingénua como qualquer rapariga apaixonada, quis acreditar que o meu marido, Rui Martins, era diferente.

Antes do casamento ele era só meiguice: nunca me falou torto, demonstrava tanto carinho, tinha medo de me magoar, queria-me junto dele a toda a hora. Mas enganei-me. Tal como acontece a tantas mulheres portuguesas, percebi que alguns homens mudam depois de conquistarem o nosso coração.

Meses depois do casamento, o Rui começou a falar mal da minha mãe. Por que é que a tua mãe te liga tanto? ou Ela tem mesmo de vir cá a casa uma vez por semana? eram perguntas que me deixavam desconfortável. Com medo pelo nosso casamento, pedi à minha mãe, Dona Madalena, que não me contactasse tanto. Ligava-lhe em segredo, quando estava sozinha. Julgava eu que isto bastava, mas não. Quando engravidei da nossa filha, Margarida, perdi também o meu trabalho de administrativa. O médico obrigou-me a repouso absoluto, por causa do risco de aborto, e não renovaram o meu contrato.

Foi então que os comentários do Rui começaram a piorar. Um dia, ao jantar, disparou: Estás o dia todo em casa sem fazer nada de útil. Fiquei calada, sentindo-me humilhada. Eu só pensava: E se ele me deixa agora, grávida e sem trabalho?

Quando a Margarida tinha um ano e meio, o Rui passou a agir como se eu tivesse a obrigação divina de o servir. Queria chegar a casa e encontrar-me logo à porta, de pantufas na mão para ele, a mesa posta com comida quente cozido, arroz de pato, bacalhau a cheirar a casa portuguesa acolhedora. Cuidar da filha era comigo, claro. Ele entendia que o papel do homem era sair, trabalhar, e da mulher era estar ali, pronta para tudo. Comecei a definhar por dentro e por fora.

Num dia de coragem, fiz as malas, peguei na Margarida e fui para a casa da minha mãe, em Coimbra. Não troquei uma única palavra com o Rui durante dois meses. Voltei a trabalhar numa pastelaria, lentamente fui recuperando ânimo, sentia-me mais forte e até a minha aparência mudou até os colegas repararam.

Certa tarde, o Rui apareceu lá em casa, magro, barba por fazer, com o olhar cansado e um casaco velho aos ombros. Caiu de joelhos e pediu-me perdão, a voz embargada. Foi então que lhe disse: Ou fazes um curso de culinária e aprendes a cuidar da casa e da Margarida, ou não voltas a entrar nesta porta. Ele aceitou sem hesitar. Vamos ver se cumpre, pensei eu, porque agora sei o valor que tenho, o valor que todas nós temos. E assim, fecho este capítulo com esperança que, tal como o fado, não há tristeza que dure para sempre.

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Ficas em casa o dia todo sem fazer nada – Depois destas palavras, decidi dar-lhe uma lição Antes de…