FELICIDADE RENASCIDA
Senhor, por favor, deixe de me seguir para todo o lado! Já lhe disse que estou de luto pelo meu marido. Não me persiga! Estou a começar a ficar assustada consigo! já me exaltava.
Eu lembro, lembro Mas sinto que está a fazer luto por si mesma. Desculpe insistia o meu admirador.
Estava a passar uns dias num hotel termal em Luso. Procurava apenas sossego e o chilrear dos pássaros, não as investidas de homens chatos. Fazia pouco tempo que o meu marido tinha partido de forma repentina. Precisava de me refazer e digerir aquela dor irreparável.
Eu e o meu marido, o Ernesto, tínhamos começado a remodelar a casa, a juntar euros, a adiar pequenas vontades. E de repente o Ernesto sentiu-se mal, a ambulância não chegou a tempo. Um segundo enfarte. Ao enterrar o meu marido, fiquei sem a minha metade e sem obras feitas. Só me restavam os meus dois filhos adolescentes. As forças abandonaram-me. Como superar tal perda?
No trabalho arranjaram-me uma estadia no tal hotel termal. Não queria aceitar, nem sair de casa, mas as colegas forçaram:
Não és a primeira viúva, nem serás a última. Tens filhos. Tens de viver, Rosa! Vai, distrai-te. Vais ver que te faz bem.
E assim, contrariada, fui.
Tinham-se passado quarenta dias desde a morte do Ernesto. O sofrimento não amainava.
Fiquei instalada num quarto com uma jovem alegre, a Inês.
A Inês era luz e riso. Aquilo até me irritava. Evitava partilhar com ela o meu desgosto. Para quê maçar aquela rapariga? Havia por lá um animador que a queria conquistar. Toda a gente sabe, em hotéis termais muitos são divorciados, solteiros, ou viúvos. Mas eu não sou ingénua Avisava sempre a Inês desse animador. Apostava que já era casado uma, duas vezes.
Ela só ria:
Ai, Rosa, não se preocupe comigo! Eu não sou nenhuma ingénua…
E à noite lá ia ela para os seus encontros. Eu, durante uma semana, mal saí do quarto. Lia sem prestar atenção, via televisão sem ver nada.
Certo dia acordei com ânimo diferente. O dia estava lindo! Pensei em ir caminhar na mata, ouvir os passarinhos, sentir o ar fresco. Foi aí que um desconhecido cruzou o meu caminho.
Já o tinha notado no refeitório. Não simpatizei: baixote, olhar atrevido, uns bons dez centímetros mais baixo do que eu. Enfim não gostei.
No entanto, o homem era impecavelmente vestido, barba bem feita, ar cuidado. Nos jantares, cumprimentava-me sempre com uma vénia. Eu devolvia um aceno, por educação. Até que, uma noite, ele sentou-se à minha mesa.
Está com ar aborrecido, minha senhora disse num tom quente.
Não, respondi secamente.
Não diga isso, menina. Vejo tristeza no seu rosto. Alguma coisa posso eu fazer? continuava o insistente desconhecido.
Acertou. Sofro de luto pelo meu marido. Tem mais perguntas? limpei as mãos ao guardanapo e levantei-me, a querer terminar logo a conversa.
Peço desculpa, não sabia. Os meus sentimentos. Ainda assim, permita-me: sou o Valentim apresentou-se rapidamente.
Via-se que ele temia perder uma oportunidade.
Rosa, disse eu a contragosto, afastando-me.
Daí em diante, o Valentim fazia questão de se sentar comigo ao jantar, oferecendo um raminho de campainhas. Aquelas flores eram abundantes nos jardins do hotel. Confesso, era um gesto simpático. Mas não queria qualquer envolvimento. Não era o momento.
Porém, Valentim não desistia. Já se juntava aos meus passeios ao entardecer. Eu, por vergonha da diferença de altura, preferia sapatilhas a sapatos de salto. O Valentim parecia alheado disso, tal como da calvície luzidia. Percebi que o poder dele estava na voz de veludo. Ainda não tinha ouvido voz masculina assim, tão cativante. Acho mesmo que caí nas redes bem lançadas.
Já íamos juntos aos bailes e até à vila comprar fruta O Valentim tentou, algumas vezes, convidar-me para o seu quarto. Eu, como um soldado, mantinha-me firme.
Até que o Valentim me relembrou:
Rosinha, amanhã vou-me embora. Então, queres vir tomar um chá ao meu quarto esta noite? Aceitas?
Vou pensar, respondi sem dar certeza.
Na última noite, decidi não o desiludir e fui ao quarto dele, sabendo já no que ia dar
A mesa estava posta, cheia de petiscos deliciosos. Deve ter ido buscar talheres e louça à cantina, pensei divertida. O Valentim ofereceu-me o lugar. Tirou uma garrafa de espumante.
Vamos brindar, Rosinha? Isto amanhã vai custar tanto Dás-me o teu endereço? Prometo que venho ver-te, disse o Valentim, com pesar.
Esqueces-me no segundo dia. Conheço bem os homens, Valentim. E brindamos a quê? já me deixava levar.
Não percebeste? Às voltas ao amor, Rosa! disse ele, erguendo o copo.
De manhã acordámos juntos, abraçados. Meu Deus, por que resisti tanto? Porque não aceitei antes? Que tempo perdido! Estava de novo apaixonado, como um rapaz. Mas agora tinha de arrumar as malas e regressar.
Despeço-me da Inês, sentada na cama a chorar.
O que se passa, Inês? perguntei curioso.
Estou grávida, Rosa. Mas não sei de quem soluçava ela.
O animador, foi ele? tentei saber quem era o pai.
Não sei Conheci outro. Ele é do hotel vizinho. Casado. divagava a “papa-léguas”.
Ai Inês… Liga aos teus pais. Eles vêm ajudar-te a esclarecer. Como te deixaram cá vir sozinha? Agora, vamos falar com a directora do hotel. Talvez aja alguma solução, aconselhei.
A Inês saiu, ainda em lágrimas. Pois é, as raparigas pagam caro pelos encantos dos animadores
Preparei as malas para partir. Não queria ir embora. No fim de vinte e quatro dias, tudo se tornava familiar. Especialmente o Valentim
Chegou o autocarro. O Valentim veio despedir-se, com um ramo de campainhas. Abracei-o, com lágrimas nos olhos. Acabava ali um romance fugaz. Senti o coração apertado. Se o Valentim dissesse: Vem comigo, largava tudo
Vivíamos em cidades diferentes. O contacto era apenas por carta. E um dia recebi uma carta. Era da mulher do Valentim. Dizia saber de nós. Que de nada adiantava, porque ela tinha trinta anos e eu quarenta. Não respondi. Para quê?
Seis meses depois, apareceu o Valentim à minha porta. Os meus rapazes estranharam, mas não disseram nada.
Valentim? De passagem ou? arrisquei, esperando ouvir: Vim para ficar.
Ou talvez Aceitas-me cá em casa, Rosinha? hesitou ele.
Os miúdos, envergonhados, foram para o quarto.
Entra. Que te traz aqui? Vieste trazer carta da esposa? sorri com ironia.
Desculpa, Rosa. Escrevi-te, a minha mulher encontrou a carta Reconheço, errei. Mas está tudo acabado. Divorciei-me, justificava-se ele.
Não sabia que eras casado Se soubesse, nada teria acontecido. E agora? não entendi logo ao que ele vinha.
Casa comigo, Rosa propôs o Valentim sem aviso.
Não sei Tenho filhos, como vês. Eles vão aceitar-te? Não se casa assim, por impulso, hesitei, mas fiquei feliz com a proposta.
Ter filhos é óptimo. Eu tenho uma filha de dez anos, surpreendeu-me.
Tens uma filha? E deixaste-a para vir para cá? não captei logo.
Não, Rosa, claro que não! Vou buscar a Leonor. A mãe anda a beber. Vamos ser uma família, disse o meu noivo.
Espera, Valentim. Que família? Nem conheço a tua menina e já sou mãe dela? Isso está a andar depressa demais. Preciso de tempo. Falo com os rapazes. Depois logo se vê. Anda, vou fazer-te o almoço, noivo sorri.
A tal família feliz não foi fácil. Houve discussões, partidas, zangas Cada um com o seu feitio. Nem sempre dá para ceder.
O tempo voa.
O meu filho mais velho, o André, acabou por casar com a Leonor, a filha do Valentim. E depois voltaram-se contra nós, os pais. Relembraram mágoas de infância, trouxeram mil queixas: que não devíamos ter destruído famílias, que o Valentim não devia ter deixado a mulher alcoólica, que uma viúva não devia voltar a casar. André e Leonor foram viver para um apartamento alugado.
Eu e o Valentim encolhíamos os ombros e amávamo-nos cada vez mais.
Passou um ano.
Os filhos nunca mais regressaram. Leonor ligava ao Valentim só no aniversário dele.
Três anos depois, convidaram-nos a ir lá a casa. Fomos, espantados mas curiosos.
Tinha nascido um rapaz, filho deles. Era o nosso neto, meu e do Valentim. Que alegria! À mesa, a Leonor e o André pediram-nos desculpa. Explicaram que a vida é feita de imprevistos, que há que saber perdoar. E honrar os pais, porque deram a vida. Por isso o chamaram de Martim. Que houvesse paz em família.
E foi assim que, com o Valentim, descobri a nossa felicidade renascidaNaquele momento, cruzaram-se os olhares verdadeiros de toda uma vida, misturados de lágrimas, risos e lembranças partilhadas. Senti o braço do Valentim apertar o meu com ternura renovada. Martim, de olhos enormes e curiosos, atirava os brinquedos ao chão, quebrando o silêncio solene, trazendo-nos de volta ao presente. Sorri para o Valentim, ele devolveu-me o sorriso: cúmplices, sobreviventes de tantas voltas da vida.
Ao regressarmos a casa naquela noite, senti que um ciclo se fechava. Os filhos tinham buscado o próprio caminho. Os netos eram promessas de alegria nos domingos de bolo de laranja e chá quente. Já não éramos peças soltas a tentar encaixar: tornáramo-nos um novo quadro, com sulcos de dor e pinceladas inesperadas de felicidade.
Ao deitar-me, com a cabeça repousada no ombro do Valentim, respirei fundo. Senti finalmente o luto repousar, não como uma pedra, mas como um jardim antigo, onde florescem outras cores, outras vidas. Fechei os olhos e agradeci porque, apesar dos tropeços, das mágoas e dos desencontros, o amor tinha encontrado, enfim, onde renascer.







