Falha do Sistema
Mariana, estás em casa?
Rui, sabes bem que aos domingos de manhã estou sempre em casa.
Então abre a porta.
Ela espreitou pelo olho mágico durante uns segundos. O irmão estava no corredor, casaco aberto, duas malas grandes aos pés, com o ar de quem tinha acabado de perder uma aposta importante. Atrás dele, dois vultos, um mais alto, outro mais baixinho. Mariana fechou os olhos, respirou fundo, abriu-os. Os vultos continuavam lá.
Destrancou a porta.
Bom dia, disse Rui, com aquele sorriso que Mariana lhe conhecia desde criança. O sorriso de quem ia pedir um favor.
Não, respondeu ela, séria.
Ainda não disse nada.
Estás a sorrir assim. Significa não.
Afonso esgueirou-se por baixo do braço do pai, encarando a tia de baixo para cima. Seis anos, cabelo despenteado, um cordão pendendo para fora das sapatilhas, a roçar o soalho de madeira. Ao lado, Inês, agarrada a um coelho de peluche sem uma orelha, olhava Mariana com a curiosidade tranquila das crianças de quatro anos, sem ponta de medo.
O olhar de Mariana caiu no soalho. Carvalho claro, acabado Nordic da Estel, colocado há três meses pelo mestre de obras que ela esperou mês e meio. O cordão do Afonso estava sujo de qualquer coisa castanha. Não quis saber de quê.
Entrem, suspirou. Mas tirem os sapatos já à entrada.
O apartamento no oitavo andar do novo condomínio Coroa do Norte era a verdadeira conquista de Mariana. Não o cargo de gestora sénior na Interiores & Soluções, não o carro, nem a conta bancária. Era ali, naquele T3 de 104 metros quadrados, tetos de três metros, janelas de vista para o Parque Eduardo VII, que se sentia finalmente em casa. Durante dois anos decorou-o ao pormenor, ajustando candeeiros, trocando cortinas até acertar no azul-pó que ao fim da tarde parecia quase cinzento. O sofá Estel cinzento, largo, costas altas. A mesa de centro em madeira maciça, com uma pequena racha que o vendedor justificou como caráter da madeira; Mariana quis devolvê-la, depois acabou por gostar. Nada fora do lugar. Nas janelas só estavam os livros de design, nada mais. Os produtos de beleza Belles Vies alinhados, toalhas de uma só cor, cabides de madeira iguais no roupeiro.
Esta era a vida que construíra, conscientemente. Silêncio o silêncio citadino de um oitavo andar, onde só se ouviam os eletrodomésticos Livingstone e o ocasional sussurro da chuva no vidro.
Rui pousou as malas no hall. As crianças descalçaram-se. O Afonso foi logo pôr a mão na parede branca.
Afonso, chamou Mariana.
O que foi?
As mãos.
Olhou para a palma suja, para a parede, para a tia.
O que é que têm as minhas mãos?
Mariana inspirou fundo três segundos a inspirar, três a expirar, o exercício de respiração do workshop de gestão de stress.
Rui, disse ela, baixa e clara, diz depressa.
O irmão sentou-se ao balcão da cozinha, mãos pousadas na bancada. Rendeu-se.
Eu e a Ana vamos para o Algarve, para um retiro. Oito dias. Precisamos de falar. Tu entendes, Mariana? Com os miúdos, não é possível.
Não têm alternativa?
A mãe está nas termas até sexta, sabes disso. Os pais da Ana estão na aldeia, em quarentena por causa de um vírus qualquer. Não se pode levar crianças. Mariana, são só oito dias.
Oito dias, ecoou ela.
Ou nove. Voltamos para o próximo domingo.
Da sala ouviu-se um barulho leve. Algo caíra.
Inês, não mexas em nada! gritou Rui, sem olhar, com essa voz de quem já gritou o mesmo cem vezes.
Rui. O tom baixo de Mariana, aprendido nos workshops: voz calma impõe-se melhor. Trabalho em casa. Quarta tenho uma apresentação online para três cidades. Nunca tomei conta de crianças. Não sei o que comem, o que dizer-lhes, como as pôr na cama.
Comem tudo menos cebola. O Afonso não gosta de tomate, mas sopa de tomate nem percebe. Fala com eles, não são de birras. A Inês adormece com o coelho, ao Afonso lê-lhe antes de dormir há um livro na mala.
Rui
Mariana, e olhou com aquela expressão que lhe apertou o peito, não pena, mais cansaço. Se não formos, não sei o que acontece à nossa família. Não sei, mesmo.
Silêncio. Lá fora, uma nuvem avançava vagarosa sobre o parque, branca, calma.
Oito dias, assentiu afinal.
Obrigado.
Não agradeças já. Não prometo não te ligar daqui a três horas.
Atendo sempre. A Ana também.
Rui saiu depressa. Beijou as crianças, disse qualquer coisa sobre a tia Mariana é um espetáculo, deixou um papel de instruções escrito à pressa na bancada e, quinze minutos depois, fechou-se a porta atrás dele.
Mariana ficou de pé no hall.
Afonso e Inês olhavam para ela.
Ela olhava para eles.
Então, conseguiu ela.
Então, repetiu Afonso.
Têm fome?
Quero sumo, respondeu Inês.
Qual?
Laranja.
Sumo de laranja?
Não. Da cor laranja.
Mariana abriu o frigorífico. Lá dentro havia duas águas minerais, tupperwares com legumes, iogurtes naturais da Belles Vies e uma garrafa de verde aberta. Sumo não havia. Nunca tinha pensado nisso nunca tinha havido razão.
Vamos ao supermercado, decidiu.
Fixe! gritou Afonso, tão alto que a acústica do oitavo andar fez eco.
Mariana fez uma careta.
O supermercado ficava no prédio ao lado, cinco minutos a pé. Em cinco minutos, Inês largou o coelho quatro vezes, Afonso carregou todos os botões do elevador, incluindo o alarme, e contou à tia em detalhe a história de um colega, Gonçalo, que conseguia cuspir dois metros com os dentes cerrados. Mariana soube mais do Gonçalo do que desejava.
Comprou quatro tipos de sumo, leite, pão, iogurtes de morango, massa, douradinhos embalados, maçãs, bananas e bolachas coloridas que Afonso enfiou no cesto enquanto ela olha o queijo. Não devolveu as bolachas. Cedeu, um gesto pequeno que não teria tido há uma semana.
O primeiro dia passou surpreendentemente calmo, descontando Inês entornando sumo de laranja para cima da mesa de centro, e Afonso a esbarrar de ombro no batente da porta e a chorar cinco minutos. Mariana não sabia acalmar crianças deu-lhe um copo de água, passa com o tempo, dito igual aos adultos. E funcionou. Ele bebeu, fungou, e foi ver desenhos animados no tablet.
Não quiseram dormir às nove, nem às dez, nem às dez e meia. Mariana acabou a ler ao Afonso o livro do urso que procurava framboesas, duas vezes. Inês já roncava no sofá, aconchegada ao coelho. Mariana ficou uns segundos a olhar. Depois pegou nela com cuidado e levou-a cama. Era leve e quente, como um sol pequenino. Não acordou.
Mariana voltou à cozinha, serviu-se de chá na térmica Livingstone, ligou o portátil. Faltavam três dias para a apresentação, dois slides por terminar, ensaiar a introdução.
Sentada na sua cozinha silenciosa, não conseguia focar-se.
O segundo dia começou às seis e trinta e sete. Lembrava-se bem do número; ia beber água quando ouviu o estrondo na sala.
Afonso levantou-se cedo e decidiu construir um forte com as almofadas do sofá Estel. Quatro no chão, a manta também, ele no centro do trono, a comer bolachas tiradas, de modo misterioso, da segunda prateleira do armário. Migalhas por todo o lado.
Bom dia, disse ele, animado.
Bom dia.
Sabes fazer panquecas?
Fritas?
Daquelas redondas com xarope de ácer.
Não tenho xarope de ácer.
Que pena.
Cozinhou papas de aveia. O Afonso comeu sem reclamações. Inês apareceu às oito, com o coelho, subiu para o banco e disse:
Quero igual ao Afonso.
Tudo ia bem.
O desastre de água veio na terça-feira, pelas duas da tarde.
Estava a rever slides à secretária, as crianças brincavam na casa de banho com barquinhos de papel feitos de contas antigas que o Afonso achou na mesa de cabeceira armada naval e tudo. Parecia seguro. Água, crianças, silêncio.
Vinte minutos depois, o silêncio acabou.
Só reparou porque ia beber água, e notou um brilho escorrer sob a porta do corredor.
Oh não, murmurou aquele tom de quem já chegou tarde.
Na casa de banho, a torneira jorrava a toda. Os barcos entupiram o ralo, e o couraçado bloqueou a saída de água. O chão era um lago já com uns bons dez minutos de excesso.
Fechou a torneira. Olhou o chão. Fechou os olhos.
A campainha tocou vinte minutos depois. Ainda de esfregona na mão, a pensar que as suas pantufas de lã da Belles Vies estavam condenadas.
Quem é?
Vizinho de baixo. Sétimo esquerdo.
Abriu. Um homem de uns quarenta, alto, cabelo desgrenhado, fato de treino e camisola azul-escura. Tranquilo. Mostrou-lhe o telemóvel uma foto do teto húmido com uma mancha a crescer desde o candeeiro.
Sou o Pedro, apartamento setenta e dois.
Mariana. Oitenta e quatro. Suspirou. Já sei o que foi. Os miúdos.
Percebo. Guardou o telemóvel. Precisa de ajuda?
Ficou a olhar para ele, à espera do discurso. Geralmente, é o puxão de orelhas, ameaças de condomínio, de ter de pagar estragos. Estava pronta, era boa a resolver conflitos.
Disse ajuda? só para confirmar.
Parece que ainda há muita água. Tenho um secador industrial e uma esfregona decente.
Afonso espreitou por detrás.
És o vizinho de baixo? Foste tu que molhámos?
Fui, assentiu Pedro. Mariana crispou-se. Mas ele não acrescentou nada de azedo. Só perguntou, com simpatia: E os barcos, flutuaram bem?
Flutuaram, sim! respondeu entusiástico. Até tinha um porta-aviões!
Bom navio, sim senhor.
Entre, cedeu Mariana, sem motivos para o deixar ao frio.
A próxima hora não seria recordada em pormenor. Pedro trouxe a esfregona e ajudou mesmo a apanhar a água, sem comentários, pacientemente, deixando o Afonso dar uma ajuda, o que o fez sentir-se importante. Inês vigiava de longe, indicando os cantos molhados e acertava sempre.
O seu teto ficou muito danificado? perguntou Mariana após o serviço.
Pouco. Era cal velha, já não se segurava. Logo seca.
Pago-lhe o arranjo.
Logo se vê. Encolheu os ombros, aquilo soou a filosófico, não ameaça. Já toma conta deles há muito?
É o segundo dia.
São seus filhos?
Sobrinhos. Eu… não. Não tenho filhos.
Ele assentiu. Espiou o Afonso, já entretido a carregar no comando da televisão.
Então, um conselho: na banheira, nunca deixar o ralo destapado. Arranja-se no AKI. E fechar a torneira, sempre no mínimo.
Vou recordar isso.
Boa sorte. Pegou na esfregona. Já quase à porta, virou-se. Se precisar, estou no sétimo. Não hesite.
Como é tão calmo? saiu-lhe a pergunta sem querer.
Pedro pensou um segundo.
Adiantava stressar? O teto não seca mais depressa por eu ralhar.
Foi-se embora. Mariana fechou-se e encostou-se à porta. O sol já descia. Na cozinha, Inês exigia ao Afonso metade das bolachas restantes. Ele protestava.
Mariana entrou e dividiu as bolachas, sem palavra.
Os dois olharam para ela com respeito.
Na quarta de manhã, Mariana preparava-se para a apresentação. As crianças viam desenhos na sala, tablet carregado, pratos de maçã fatiada e crackers na mesa. Tudo controlado.
A reunião começou às onze. Mariana sentada ao desktop do escritório, webcam, blazer por cima do pijama. De Lisboa, Porto e Coimbra, sete participantes: três diretores, quatro parceiros.
O início correu bem. Mariana apresentou a coleção da Estel, explicou preços, respondeu a perguntas.
À décima sexta minuto, abriu-se a porta do escritório.
Tia Mariana! gritou Inês, capaz de ecoar até ao sétimo andar. O Afonso roubou-me o coelho!
Inês, sussurrou Mariana, de olhos duros, estou a trabalhar.
Ele diz que o coelho é feio!
É feio! veio ecoar da sala.
Desculpem, só um instante, disse Mariana com um sorriso à câmara, fingindo controlo.
Pausou, levantou-se, foi à sala. Afonso e Inês puxavam cada um por uma parte do pobre coelho.
Larguem o coelho. Os dois.
Deixaram cair. Inês aninhou-se ao bicho.
Afonso, podes ver o tablet em silêncio?
Acabou o episódio.
Põe outro.
Qual?
O próximo que aparecer.
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Olharam-se. Mariana pegou no comando, pôs num canal infantil cheio de animais falantes, voltou ao escritório.
Oito minutos de paz. Depois, bate à porta o Afonso, sem a irmã, ficou junto à secretária. Emudecido.
Preciso ir à casa de banho, informou diretamente para o microfone.
Um dos diretores riu, os outros atrás. Mariana sentiu o rosto corar não se lembrava da última vez.
Sabes onde é.
Sei. Só queria avisar-te.
Saiu. Mariana voltou à apresentação. O ambiente profissional já ia perdido, mas a verdade chegava: o parceiro do Porto também tinha três filhos e entendia. O representante de Coimbra interessou-se pela coleção. Marcaram nova reunião.
Mariana fechou o portátil, ficou sentada uns minutos.
Depois percebeu que não estava chateada. Estranhou. Achava que ia estar.
Foi preparar sandes de queijo. O Afonso disse que estavam boas. Inês comeu metade, de conversa com o coelho.
A campainha às quatro da tarde.
Trouxe a tampa para o ralo, disse Pedro. Exibia um saco com uma rolha de borracha.
Foi de propósito à loja?
Ia comprar pão.
Entre.
Não planeava convidá-lo. Disse, entrou. Tirou os sapatos no hall, e Afonso avistou-o:
És aquele senhor que nos ajudou!
O mesmo.
O teto já secou?
Quase. Mais uns dias.
Fixe. Os olhos do miúdo brilharam. Sabes jogar Jenga? O pai pôs na mala.
Sei.
Vai buscar, então!
Pedro sentou-se à mesa de centro com a torre de blocos, Afonso de um lado, Inês do outro que não sabia jogar, ficou a apoiar com o coelho. Pedro jogava sério, como quem respeita o jogo, e as crianças entendiam isso.
Mariana simulava cozinhar. Observava.
Com cuidado, Pedro ao Afonso, esta peça sai melhor se empurrares de lado.
Como sabes?
As torres têm sempre um ponto fraco. O truque é encontrar.
E na vida também?
Pedro hesitou.
É parecido, sorriu.
Jantaram juntos. Pedro ficou sem ser solicitado, ajudou a fritar douradinhos, cortou pão viu que ela o cortaria mal, e ele fazia pequenos pães alinhados.
Mora há muito aqui?
Três anos. Vi quando se mudaram a mobília a subir.
Atento.
Pura coincidência. Ia sair para o trabalho.
Trabalha onde?
Gabinete de arquitetura. Faço estruturas. Não é bonito, mas segura.
Isso é que interessa, Mariana respondeu.
Ele olhou-a de lado; não era a resposta mais óbvia.
Talvez seja, sim.
As crianças adormeceram cedo. Pedro terminou o chá e levantou-se.
Boa noite.
Obrigada. Pela tampa.
Não custa.
Não me refiro só a isso. Por terça-feira, por não zangar-se.
Olhou-a mais demoradamente.
Está a portar-se bem. Para primeira vez.
Como sabe que é a primeira vez?
Porque se não fosse, não olhava para as crianças como quem leva uma travessa de cristal e teme deixar cair.
Ela riu. Sincera, pela primeira vez há muito.
Ele saiu. Mariana encostou-se à porta, como na primeira noite. Só que desta vez silêncio outro. Quente, não vazio.
Nos dias seguintes, Mariana já não se assustava com cada som. O ritual matinal da papa e sumo tornou-se quase natural. Inês gostava de desenhar ao lado dela enquanto Mariana trabalhava, preenchendo o bloco com famílias de coelhos, todos com nome.
Aqui é a mãe coelha, explicava Inês, e o pai coelho, e este é o pequenino, chama-se Botão.
Porquê Botão?
Porque é redondo e pequenino.
Justo, Mariana sorria.
Sexta à noite, Pedro trouxe um jogo antigo de Cidades do Mundo. Dizia ter vindo da sua infância, levado nas mudanças sem saber porquê.
Ainda bem que trouxe.
Sentaram-se todos no chão, porque a mesa não chegava. O parquete Estel era fresco e liso. Inês aninhou-se a Marianne sem dar conta, adormeceu no jogo, e Mariana, de repente, viu-se a abraçá-la.
Pedro notou. Não comentou.
No sábado foram ao parque ideia dele, ela não contestou. O mesmo parque da janela. Afonso mergulhou de propósito na maior poça, os ténis molhados voltaram num saco, ele de meias encharcadas e não se importava.
Não ficas triste?
Com quê?
Ténis molhados.
Secam.
Pareces o Pedro.
O Pedro é fixe. Tia Mariana, é teu amigo?
É meu vizinho.
Não é o mesmo?
Não.
Porquê?
Não soube responder. Atrás, Pedro levava Inês às cavalitas, falando de árvores; ela ouvia, atenta, como se ouvisse lições sobre o universo.
Domingo à noite, Rui ligou. A voz era outra: menos cansada, mais leve.
Eles?
Sim, respondeu Mariana. Afonso encharcou-se. Inês desenhou quarenta e sete coelhos.
Rui riu.
Safaste-te.
Parece que sim. E tu e a Ana, como estão?
Pausa.
Muito melhor. Obrigado.
Ainda bem, respondeu. Ainda bem.
A segunda semana foi mais fácil. Mariana já sabia os hábitos: o Afonso não come tomate, mas adora sopa de tomate se ninguém disser o que é. Inês só adormece se deixar a janela um bocadinho aberta. Às sete e meia ficam irrequietos e o melhor é propor logo cama. Pequenos saberes, que surgem sem papel de instruções.
Pedro passava todas as noites. Às vezes só conversava, outras trazia algo falavam sobre trabalho, Lisboa, livros. Ele lia muito surpreendente para alguém das estruturas. Ela também gostava de ler, mas ultimamente só lia trabalho.
Que lês agora? perguntou Pedro uma noite.
Nada. Só material de trabalho.
Isso não vale.
Eu sei.
Queres que te traga um livro?
Traga.
Trouxe um romance japonês de uma mulher a refazer a vida ao esvaziar a casa da mãe. Mariana lia ao deitar as crianças, era o melhor momento do dia.
Na quinta seguinte, Afonso pediu-lhe para ver o trabalho.
Aqui no escritório?
Sim, mostra.
Mostrou-lhe: computador, catálogos da Estel, pequeno cato na janela.
És feliz a trabalhar?
Acho sou, talvez. Gosto.
O pai diz que se deve trabalhar do que nos faz feliz. Senão, não vale a pena.
O teu pai é esperto.
É. Esboçou. Porque moras sozinha?
Foi assim que calhou.
Nunca quiseste viver com alguém?
Habituou-me a estar só, era bom.
Era?
Era, repetiu.
O último dia chegou depressa. Rui apareceu ao domingo com Ana, de rosto descansado. Abraçou as crianças longamente, Inês não a largava.
Mariana Ana emocionada , não sei como agradecer.
Não é preciso.
Portaram-se bem?
Foram crianças, sorriu. Nada de extraordinário.
Ana olhou-a, surpresa com a resposta.
Preparar tudo demorou uma hora. Inês chorou ao despedir-se, Mariana abraçou-a: viriam de novo. Afonso apertou-lhe a mão com formalidade, depois voltou e abraçou-a a sério rápido, forte e correu para o pai.
Fechou a porta.
Mariana ficou no hall.
O casaquinho azul de Inês já não pendia no cabide. Só o seu casaco.
A casa estava silenciosa.
Foi até à sala. Uma almofada desalinhada igual de manhã, do lugar de Afonso. Junto à mesa de centro, um desenho esquecido por Inês: família de coelhos pai, mãe, o Botão. Ao lado, uma figura de cabelo loiro. Letra redonda e incerta: tia mariana.
Mariana pegou no papel e ficou com ele nas mãos.
Foi à cozinha, pôs água a ferver no Livingstone, tirou a sua caneca favorita. Tudo no lugar. Tudo limpo. Tão exato como gostava.
Esperou sentir aquele alívio, o retorno à ordem, ao silêncio após visitas e festas o conforto da rotina recuperada.
Não veio.
Só estava o desenho nas mãos e um silêncio diferente: não paz, mas pausa depois de uma música. Com a música terminada, e ainda sem saber se era bom ou mau, só sentindo a mudança.
Sentou-se, chá quente, olhando o parque pela janela.
Pensou no Afonso a perguntar se ela era feliz. Na Inês que adormecia ao seu colo, na sexta, no chão da sala e Mariana não arredou o braço. Como o escritório ficara diferente desde que Afonso o visitara. Pensou em Pedro.
Na forma como cortava o pão, com calma, na sua serenidade, não indiferença, mas estabilidade, base de todo o edifício. Que ia todos os dias sem pedir nada. Só ia. Permanecia.
Pensou que em nove dias não acordara ansiosa pelo trabalho coisa rara, porque a ansiedade era companhia de cinco anos já.
Às seis da tarde, lavou-se, vestiu a camisola azul-escura que gostava tanto. Pegou no telemóvel, largou-o, pegou de novo.
Não ligou. Desceu o elevador sétimo andar, bateu à porta 72.
Pedro abriu rápido. Não tinha surpresa no rosto, só atenção.
Eles foram-se embora.
Ouvi a porta bater.
Ficou silêncio.
Pois.
Não quer vir tomar um chá? O meu já está quase frio, mas eu ponho de novo.
Hesitou.
Quero.
Subiram no elevador. Mariana pôs novamente água a ferver. Pedro sentou-se no mesmo banco alto onde Rui se sentara no primeiro dia. Outro homem, outra conversa.
Sabe, hoje não tenho obrigações pela primeira vez em nove dias. Não sei o que fazer com isso.
Bom ou mau?
Não sei. Só estranho.
Vai-se habituar ao estranho novo.
O que é isso?
Antes era estranho estar só. Agora estranho, mas é diferente.
Fala como quem já passou por isso.
Levantou os olhos.
Fui casado. Seis anos. Agora não. Três anos sozinho.
Sinto muito.
Não é preciso. Era inevitável. Duas boas pessoas, não um casal. Pausa. O pior não foi o fim. Foi o silêncio. É diferente, o silêncio a dois e sozinho.
Mariana olhou a chávena.
Sempre achei que silêncio era liberdade. Que escolher estar só era força.
Pode ser. Mas às vezes revê-se essa escolha.
Reveram-na?
Estou a rever. Pequeno sorriso. Com ajuda dos filhos dos vizinhos e dos seus dilúvios.
Ela riu. Outra vez, genuinamente.
Pedro.
Sim?
Parou. Ponto de inflexão. Poderia recuar, ser neutra, mudar tema. Sabia fazê-lo. Mas…
Gosto de si. Quero que saiba.
Ele olhou-a.
Ainda bem, disse, calor na voz. Porque eu também gosto de si. Pensei nisso.
Há muito?
Desde o dia em que perguntou porque eu era calmo. Ninguém nunca perguntou.
Estranho motivo.
Os meus motivos são sempre um bocadinho estranhos.
Beberam chá e falaram. Sobre trabalhos, sobre a vista entre o oitavo e o sétimo, sobre crianças, sobre o desenho de coelhos. Ele não tinha pressa, ela não apressou.
Ao sair, apertou-lhe a mão um segundo na sua palma.
Boa noite, Mariana.
Boa noite.
Mariana fechou-se e encostou-se, como da primeira vez. Só que não era igual. O silêncio era outro cheio, acolhedor.
Entrou na sala, apanhou o desenho de Inês, encostou-o à jarra da estante. A família coelhos encarava-a nos traços ingénuos. Ao lado, a figura de cabelo loiro tia mariana.
Passou um ano.
A casa mudou: pouco, mas quem conhecia notava. Na estante, livros em capas coloridas, infantis, sobras das visitas dos sobrinhos. Agora havia três vasos novos ao lado do cato, um deles torto Inês ajudou a regar e exagerou na água. Dois casacos na entrada: o seu, azul; o de Pedro, cinzento.
Na sala, sobre a mesa Estel, um dos catálogos técnicos de Pedro aberto em projetos. Ao lado, uma chávena de café e um romance.
Mariana contemplava o parque outonal, ruivo. Gostava dele assim.
O ventre, já arredondado de cinco meses, acostumava-se ao novo estado como a alguém que entra devagar, um bocadinho mais a cada dia, até ser o centro do mundo.
A porta abriu-se.
Eles estão a chegar disse Pedro, na cozinha. O Rui mandou mensagem.
Então, meia hora cá estarão.
O Afonso ligou-te?
Três vezes. Quer saber se pode ver desenhos ou vamos ao parque.
Pode as duas coisas.
Disse-lhe o mesmo.
Pedro pôs o chá a fazer. Depois, olhou-a.
E tu, como estás?
Bem. Cansada das pernas. Mas bem.
Senta-te.
Estou bem de pé.
Mariana.
Pronto, sento-me. Foi para o sofá. Estava a pensar: faz hoje um ano que eles foram embora. E eu fiquei na cozinha à espera que viesse o alívio do silêncio.
E veio?
Não.
Lembro que vieste cá.
Estavas à espera?
Pensou.
Talvez esperasse.
A campainha tocou insistente, como só crianças sabem.
É o Afonso.
Aposto que sim.
Abre, faz favor, levantar custa-me.
Pedro foi.
Tia Mariana! explodiu a voz de Afonso antes da porta, viemos! O parque está com folhas? O teu bebé cresceu?
Afonso! Rui de fundo, deixa os adultos entrar.
Já entrei.
Inês entrou calada, buscou Mariana com o olhar, foi directa ao sofá, abraçou-a firme. Depois olhou-a muito sério.
Tia Mariana disse. O meu coelho está cá?
Está. Na prateleira do quarto de hóspedes.
Sabia. Aliviada. Eu sabia.
O hall tornou-se barulho: Rui a abraçar Pedro, Ana a falar para Mariana da viagem, o Afonso perdido pelo corredor, localizando-se pelo som. Alguma coisa caiu, nada grave. Voltou com o livro do urso e framboesas na mão.
Tia! Guardaste o nosso livro!
Guardei.
Vais ler ao bebé?
Vou.
Boa. O aceno satisfeito de quem verifica a ordem do mundo. Pedro, vamos ao parque? Há folhas?
Há folhas, sim.
Então vamos.
Primeiro chá interrompeu Mariana. Depois parque.
Disseste sempre o mesmo.
E sempre direi.
Está bem. E encarou-a com aquela franqueza leve de seis anos, talvez para sempre. Tia Mariana, agora és feliz?
A casa ecoava: vozes, risos, Ana a rir, Inês à procura do coelho, o chá na cozinha, Lisboa ao fundo, folhas no parque, e na barriga alguém novo já manifestando-se devagar.
Mariana olhou para Afonso.
Agora sou, sim.







