O expresso nocturno
As portas do eléctrico dobraram-se como um acordeão, deixando escapar um bafo quente que se dissipou na frescura surreal da madrugada lisboeta. Um grupo de cinco amigos tresandando a cerveja entrou a correr sapatos sujos de lama batendo nos degraus, nos tubos de metal e até nas pernas de quem estivesse pelo caminho, entre risadas sacudidas como guizos.
Os outros passageiros uns poucos solitários presos ao último transporte nocturno preferiram não contrariar aquele bando animado, cuja conversa fervia à volta do poder das suas virilhas e onde cada um tentava ser mais barulhento do que os restantes, enquanto brindavam com garrafas de Super Bock a cada gargalhada. No fundo do eléctrico, o grupo organizou um improvisado barulho, erguendo as bebidas e batendo-lhes no fundo.
Num arrancar inesperado, como se abandonasse uma doca flutuante num Tejo de neblina, a máquina rangeu, as portas chiaram e o eléctrico avançou pelas ruas de Lisboa adormecida. Entre os presentes, sem contar com os recém-chegados, não estaria mais do que uma dúzia de almas, incluindo a revisora, D. Efigénia, mulher de óculos grossos e cabelos presos em caracol, que podia bem ser avó de qualquer um daqueles rapazes. Ela aproximou-se dos jovens, segurando firmemente um rolo de bilhetes na mão nodosa.
Meus senhores, é favor validar os bilhetes, suspirou D. Efigénia, a voz cansada e ecoante como um sino velho na Sé.
Tenho passe, arrotou um, abanando o corpo para a frente.
Eu também!
Aqui igual!
O rapaz mais novo, com penugem casta sombreando-lhe o lábio, tentava assim demonstrar alguma bravura, gritando mais alto, ainda que os olhos lhe fugissem ao chão.
Mostrem lá então, respondeu a revisora, seca, habituada a encenações.
Mostre a senhora o seu primeiro! resmungou o de ombros largos, dedo apontado e saliva a esvoaçar no ar.
Eu sou revisora, declarou Efigénia, imóvel como uma estátua, voz arrastada, como se as palavras viessem de longe.
E eu sou eletricista! E por isso não pago conta da luz? respondeu o outro, uma cascata de cerveja a escorrer-lhe pela camisola, o odor ácido a espalhar-se no ar do eléctrico.
Ou validam, ou descem.
Quase em resposta automática, o eléctrico parou, e os poucos passageiros que restavam desapareceram para o silêncio das ruas.
Já disse: temos passes, grasnou o miúdo, peito magro empinado.
Ó Valter, siga para a estação! ordenou Efigénia ao motorista.
Siga à base, Valter! ecoou o grupo, chorando lágrimas imaginárias e limpando os olhos com as costas das mãos.
As portas fecharam-se, o eléctrico fez uma curva impossivelmente brusca para quem segue os cabos e arrancou rumo a lugar incerto. Dez segundos de risos eufóricos, até o mais sóbrio perguntar, num tom de verdadeira surpresa:
Ó pessoal, como é que o eléctrico deu a volta no meio da avenida, se anda preso aos fios?
Um encolher de ombros coletivo, ninguém preocupado com a ilógica.
Mas o eléctrico acelerava, zunindo alto e começando a ultrapassar carros fantasmas, as luzes no tecto a tremular antes de apagarem por completo. Agora só as lâmpadas dos candeeiros da rua e uns letreiros luminosos piscando acompanhavam as sombras dentro do veículo. Efigénia sentou-se de novo, postura firme, olhar fixo no nada e sem dizer palavra. Já não havia paragens.
Ó chefe, para onde nos levas? gritou finalmente um deles, a voz a tremer nas notas da sobriedade a despertar.
Nenhuma resposta.
Óiça lá! Queremos sair! gritaram mais, vozes já partidas.
A revisora não se moveu um centímetro.
Lisboa ficou para trás, rendida à madrugada. Lá fora só estrada negra, e no interior, a penumbra apenas iluminada pelo piscar longínquo de luzinhas no painel do condutor. Os rapazes puxaram dos telemóveis, mas tudo fama de sonho: sem rede, pediam infinitamente para actualizar páginas que nunca carregavam.
Quando o eléctrico entrou em campo aberto, um deles avançou, ameaçador, para Efigénia:
Sabe onde trabalho? Se amanhã não aparecer no escritório, fica já sem reforma!
No mesmo instante, apagaram-se as luzes junto ao condutor.
Por amor de Deus, deixe-nos sair, tenho de estudar para os exames nacionais! implorou o mais novo.
O veículo disparava no escuro, ecoando o seu próprio zunido nos ouvidos dos rapazes agora demasiado lúcidos. Eles tentaram partir o vidro com garrafas vazias, cravar as unhas nos vincos da porta como se fosse possível rasgar a noite, mas nada mudava.
Foi então que um deles tirou a carteira:
Tome aqui, fique com o troco, mas leve-nos de volta! Por favor!
Efigénia manteve o olhar ausente, como se já não fosse deste mundo. Enquanto as súplicas ecoavam, lágrimas gordas corriam, mas o eléctrico seguia, teimoso, até chegar a um lago impossível, largo como a imaginação de um sonhador inconstante.
Onde estamos? murmuravam entre dentes, mãos geladas.
Vamos ser afundados, soluçou o mais novo, abraçando-se aos joelhos.
Ó Simão, sabes conduzir o eléctrico? Tentamos render a condutora ou quê? tentou outro, já sem esperança.
Mas Simão apenas abanou a cabeça, perdido.
De repente, a porta da frente abriu-se num ranger que parecia vir do fundo do poço. Efigénia saiu, com a lua cheia a iluminar-lhe a silhueta no capot do eléctrico, um objeto comprido a brilhar-lhe na mão.
Pronto… Vamos ser despachados, e afundados… murmurava o eletricista, limpando lágrimas.
Então acenderam-se as luzes e Efigénia, a pisar firme, reapareceu no salão. O objeto misterioso era apenas um balde e duas esfregonas. Pousou tudo no chão aos pés dos rapazes e sorriu, num rosto subitamente maternal:
Quando terminarem de lavar os vidros, venho buscar os panos para os bancos; limpem o chão e depois podem ir para casa. Objeções?
Cinco cabeças abanaram ao mesmo ritmo.
A noite desenrolou-se, elástica, grotesca na sua duração. Os jovens dividiram tarefas: dois traziam água, um mudava panos, outros despejavam baldes numa cisterna surgida do nada, uma barriga de ferro cheia de águas escuras, como se o eléctrico ali fosse cliente antigo.
Ao nascer do sol, tudo brilhava com um esplendor anormal até os vidros tinham alma nova. O grupo, já sóbrio, trabalhava em silêncio, como parte de uma coreografia do impossível. Quando terminaram, Efigénia picou-lhes bilhetes com um sorriso e o eléctrico seguiu para a cidade, largando os rapazes, um por um, nas paragens desertas, até retomar o seu trilho para receber, de novo, o dia e mais passageiros errantes.







