A minha sogra tem uma personalidade tão difícil e teimosa que até parece que veio diretamente das páginas de um romance dramático português. As discussões e a mania de meter o nariz em tudo fizeram com que eu e o meu marido quase nunca tivéssemos sossego. Mesmo com o olhar de desaprovação dela sempre presente, acabámos por morar todos juntos após o casamento, graças a umas situações familiares que são mais complicadas do que resolver um enigma do Fernando Pessoa.
Para animar os nossos dias, embarcávamos em atividades gourmet e tradicionais, como ir apanhar amoras silvestres tudo para fazermos compotas. Só que, misteriosamente, as sobras dessas compotas nunca chegavam ao nosso pequeno agregado. De início, só participava nestas expedições aos fins de semana, pois os compromissos de trabalho em Lisboa não perdoam. Mas, depois do nascimento da minha filha, passei a ser requisitada quase diariamente. A minha sogra tinha a teoria moderna de que é melhor apanhar amoras logo ao nascer do sol. O problema é que, nas matas portuguesas, o calor faz concorrência ao de uma praia algarvia, os mosquitos são de uma dedicação digna de louvor, e proteção era coisa que só se via nas novelas.
Obviamente, ela guardava religiosamente todas as amoras para si, bem acomodadas no seu congelador, que parecia um cofre de banco. A situação começou realmente a ferver quando o meu marido, que já andava a contar os cêntimos, falou finalmente com a mãe sobre as nossas necessidades financeiras (sim, no final do mês, nem os euros do troco das compras escapavam). Isso resultou numa cena digna de telenovela, e a mãe dele, num ato de vingança criativa, serviu-nos uma sopa onde só apareceu um pedacinho de carne do tamanho de uma migalha. Senti-me ofendida e deprimida, fui chorar no único lugar sagrado da casa a casa de banho.
Decidi então alugar um apartamento e mudar-me com o meu marido e a criança. Sentimos logo aquele alívio parecia que regressámos à tranquilidade da aldeia. Visitávamos a sogra de vez em quando, mas recusei-me a aceitar aquele chá aguado que ela servia, como forma de protesto silencioso contra o seu comportamento. Ela deve perceber bem porquê, mas, sinceramente, acho que não se incomoda muito.
E vocês, que acham deste tipo de relação entre nora e sogra? Quem está com razão?







