Eu não sou nenhum restaurante grátis! disse a mãe, recebendo os filhos à porta.
Dona Graça Almeida estava entusiasmada porque naquele sábado ia finalmente fazer uma excursão depois de dois anos sem sair para lado nenhum.
A amiga, Dona Teresa Morais, tinha descoberto uma excursão de autocarro para Évora, compraram logo bilhetes, e a Graça até investiu numa boina nova azul, com um pompom, que segundo o espelho do corredor, lhe assentava às mil maravilhas.
Às oito da manhã, estava Graça a saborear um chá quando tocaram à campainha.
Ficou estática com a chávena na mão.
“Ah, não, logo hoje”, pensou. Voltaram a tocar.
Mais uma vez. Depois ouviu-se uma voz:
Mãe, abre, estamos carregados!
À porta estava o filho Carlos, a mulher Regina, dois filhos pequenos, de sete e nove anos, e quatro sacos de viagem como se viessem passar o inverno, não apenas “uns dias”.
Mãe, cortaram-nos a água disse o Carlos, com uma solenidade de quem anuncia um assunto nacional. Só vamos ficar umas noites, não te importas?
Graça olhou para os sacos. Depois para os netos.
Entrem disse ela.
Que mais podia ela dizer?
Enquanto os miúdos largavam casacos pelo chão e ligavam logo a televisão no máximo, a Graça foi até à cozinha. As mãos abriram o frigorífico por reflexo. Tiraram ovos, natas, cebolas. A cabeça só pensava no autocarro que partia às dez e na boina azul com pompom, que agora já não ia sair do cabide.
Às dez e um quarto, ligou-lhe a Dona Teresa:
Graça, onde te meteste? O autocarro sai em cinco minutos!
Teresa, não vou poder… os filhos invadiram-me a casa.
Silêncio.
Outra vez?
Outra vez…
O suspiro de Teresa ecoou pelos campos de Évora.
Às dez e meia, a campainha: desta vez era a filha, Alexandrina. Trinta e sete anos, divorciada, mala de viagem ao ombro, e cara de quem precisava tanto de prato quente como de um conselho de mãe, mas só vinha “de fugida.”
Entra disse Graça.
E foi pôr croquetes a fritar.
Diga-se que isto não era nada de novo. Nem era a segunda, nem sequer a quinta vez.
O Carlos e família apareciam sempre que lhes cortavam alguma coisa lá no prédio, ou se havia crise matrimonial. A Alexandrina vinha só porque sim. Pegava no metro e vinha.
Graça bem sabia disso. E, mesmo assim, ia sempre para a cozinha.
Há pessoas que não conseguem ver um fogão desligado. A Graça era desse tipo. Quarenta anos de cantina de escola dão outro vício. Se há gente, há comida a fazer. Se não há, vai haver.
À hora de almoço já fumegavam três panelas e uma frigideira.
Batatas. Croquetes. E uma sopa feita do que se arranjou pelo frigorífico.
Os netos estavam no tapete, a esvaziar a caixa de Legos pelo chão. Carlos passava a vida ao telemóvel, de divisão em divisão, com um ar de ministro em reuniões importantes. A Regina, a nora, estendida na cama com um livro. A Alexandrina à mesa da cozinha, a desabafar com a mãe sobre o ex-marido, aquele que foi tema de conversa em todas as visitas nos últimos dois anos.
Mãe, imagina que ontem ele escreveu-me. Diz que tem saudades. Que é que faço? Respondo ou ignoro?
Não sei, Filha.
Ai mãe, contigo é sempre o mesmo! Nunca sabes!
Graça não respondeu. Saltava a espuma da sopa com toda a concentração do mundo.
Às três, o Carlos lá parou as chamadas e espreitou à cozinha:
Mãe, os croquetes já estão?
Já estão quase.
É que não tocámos em nada desde manhã, só café pelo caminho…
Graça fez que sim.
O almoço foi um festival: os miúdos recusaram a sopa, queriam apenas croquetes. Sem cebola. A Alexandrina queria sem pão, que voltou à dieta. O Carlos pediu mais uma volta. Regina saiu do quarto, olhou e disse que mal tinha fome, mas que provava só um.
Depois, o Carlos foi estender-se no sofá. A Alexandrina na casa de banho para lavar o cabelo. Os netos a espalhar Legos, agora pelo quarto.
Graça ficou com a loiça e os olhos perdidos na janela. Lá fora, a vizinha, D. Laura, sentada no banco do jardim, a apanhar sol, sem pratos sujos nem fritos para fazer.
Graça suspirou fundo e pegou na panela seguinte.
Ao final da tarde, já o jantar tinha sido despachado, a casa limpa das tropelias dos miúdos e Graça sentada um pouco no banco da cozinha, o Carlos surgiu à porta, de t-shirt amarrotada e ar satisfeito.
Mãe, ainda há croquetes? Marchava mais uns.
Graça olhou para ele.
Havia. Três para ser exata, que reservou para si nem almoço teve como deve ser, sempre na lida.
Mas o filho olhava, e foi aí que qualquer coisa mudou.
Pensou na boina azul com pompom, que não saiu do cabide. Em Évora, que não conheceu. No autocarro que partiu às dez sem ela. Na Teresa, que agora devia estar pelo centro histórico a petiscar qualquer coisa.
Pensou nisto… e nos croquetes.
Mãe? disse o Carlos. Ouviste?
A Graça pousou a caneca.
Despiu o avental.
Dobrando-o com toda a paciência, pousou-o no encosto da cadeira.
A Alexandrina estava colada ao telemóvel. Da sala vinha a gritaria dos desenhos animados vilões de televisão a ecoar pela casa. A Regina, a nora, passou para a casa de banho, atirando a toalha para o chão sem se dar ao trabalho de apanhar.
A toalha ficou ali.
Mãe? repetiu o Carlos, já desconfiado.
Foi aí que a Graça disse, de tom seguro, de quem já pensou muito mas só agora resolveu falar:
Eu não sou restaurante grátis. Nem pensão.
Instalou-se um silêncio. Até os desenhos animados abrandaram.
A Alexandrina levantou os olhos.
O Carlos ficou de boca aberta.
Hoje, de manhã começou Graça , ia a uma excursão a Évora, com a Teresa Morais e a Vera Covas. Bilhetes comprados em fevereiro. Comprei chapéu novo. Azul. Está ali para quem quiser ver. O autocarro partia às dez. Às oito e meia bateste à porta com a família. Às onze, a Alexandrina.
Ninguém reagiu.
Não fui a lado nenhum continuou Graça. Fiquei aos tachos. Porque é sempre assim. Porque os netos querem croquetes. Porque a Regina só aceita coisas light, que está a controlar peso. Porque vocês vêm sempre comer.
Pausa.
Mas eu também tenho vida terminou Graça. Ninguém pensa nisso. Não vos culpo. Também habituei mal. Mas hoje chega.
Chega de quê? perguntou baixinho Alexandrina.
De cozinhar. De servir.
O Carlos olhava para a mãe como alguém que vê o chão fugir debaixo dos pés. Era a lenta reconstrução do mundo de cabeça para baixo, como móvel velho a arrastar no soalho antigo.
Ó mãe, nós nem fazemos por mal
Eu sei, Carlos. Mas isso ainda é pior. Se fosse de propósito, ainda pensavam. Isto é só porque sim. Como quem vai ao frigorífico: abre, tira, fecha, segue.
Os netos ainda viam televisão, mas a casa sentiu-se diferente.
Graça pegou na sua sacola, aquela com que ia sair de manhã, vestiu o casaco, pôs a boina com pompom.
Vais para onde? perguntou o Carlos, parado à porta.
À Teresa Morais. Ligou-me. Já voltaram, estão em casa dela, a beber chá e a ver fotos. Chamaram-me.
E o jantar? escapou-se ao Carlos. E, pelo olhar, percebeu logo que não devia ter dito aquilo.
Graça olhou-lhe nos olhos. Olhar de mãe, daquele que faz homens feitos sentirem-se crianças.
Tens ovos, massa, queijo. O pão está na arca. Tens mãos, a placa do fogão não é nenhum vaivém espacial. Desenrasca-te.
Vestiu o casaco. Pôs a boina, ajeitou o pompom. E saiu.
Ficaram quatro adultos, dois miúdos, uma frigideira intacta e três croquetes guardados, deixados para si ao almoço.
A toalha, aquela, ficou ali no chão.
O Carlos olhou para ela um bocado.
Acabou por apanhá-la.
A Graça voltou antes das onze.
Na casa da Teresa Morais foi tudo ótimo. Chá de cidreira, as bolachas compradas em Évora numa saca de papel, fotos no telemóvel a catedral, as lojinhas, a Vera a comer pastel de toucinho e a fingir que era uma infusão saudável. Graça prometeu a si mesma que ainda irá Teresa já tinha informações de outra excursão.
A boina azul ficou ali ao lado dela no sofá. Não foi a Évora, foi ali ao bairro, mas serviu.
A chave rodou fácil na porta.
O hall estava limpo. As botas dos netos, que antes jaziam espalhadas, estavam direitas junto à parede. A toalha desapareceu.
Graça pendurou o casaco, atravessou o corredor.
Luz acesa na cozinha.
Parou à porta: o Carlos estava à banca, lavado de concentração, a esfregar a panela. Fingia que era a primeira vez, mas dava tudo para ficar bem feito. Na placa, uma panela depois viu que tinham cozido massa, um bocadinho demasiado, mas cozida. À mesa, pratos. Lavados e empilhados.
A Alexandrina estava ali sentada.
Os miúdos, claro, já roncavam.
O Carlos ouviu-lhe os passos e virou-se.
Hesitou.
Mãe, nunca pensámos que isto te fosse tão pesado disse.
Ela olhou para a panela nas mãos dele. E para os pratos. E para a Alexandrina.
Nada de outro mundo.
Mas uma mulher, que andou quarenta anos a dar de comer a todos sem nunca esperar um obrigado, sentiu de repente os olhos húmidos. Tão parvo… só por causa de uma panela.
Senta-te, mãe pediu a Alexandrina. Guardámos para ti.
No canto da mesa, uma travessa tapada. Só para ela.
Graça sentou-se.
Tirou a tampa. Massa com queijo. Um pouco colada, já fria. O queijo ralado, às três pancadas mas estava lá.
Pegou no garfo.
E honestamente… foi das massas mais saborosas que comeu em muitos anos. Vá-se lá saber porquê.







