EU NÃO QUERO UMA FILHA PARALISADA… — disse a nora e foi-se embora… Mas ela nem imaginava o que…

Não quero uma filha paralítica… disse a nora e virou costas. Mal ela sabia o que estava prestes a acontecer.

Numa aldeia tranquila do interior, vivia um velho como tantos outros, que de vez em quando tomava um copito de vinho branco ao fim de semana. Tinha um sonho: queria ter um cão, mas não um qualquer fazia questão de ser um puro Cão da Serra da Estrela. Por isso, estava disposto a ir ao coração da Serra da Estrela para lá comprar o animal e trazê-lo para sua casa.

Chamavam lhe António Velho. Uns diziam que era pelo nome, outros pelo apelido, ninguém tinha a certeza. Velho António ou só António, era como o tratavam, e ele nunca corrigia ninguém. Sentava-se à porta, depois de tratar da horta, e ia recordando os tempos antigos. A juventude vinha muitas vezes ouvir as histórias de outros tempos; gostavam de escutar como era a aldeia antes.

A mulher de António, Maria da Assunção, já tinha partido há muito tempo. Tinha o coração fraco e os médicos proibiram-na de ter filhos. Mas o seu desejo de ser mãe era mais forte. Teve um filho com António e adoecera de vez. Ele amava Maria, fazia tudo por ela, não a deixava sequer trazer o leite do mercado. “Não podes!”, dizia, “O médico proibiu!”

O cuidado com o pequeno ficou todo para ele, a comida também. Dizia-lhe Maria, preocupada:
Não me faças vergonha! Olha, as mulheres daqui vão gozar comigo, tudo em casa é feito pelo homem!…
Mas as outras mulheres invejavam-na:
Ó Mariazinha, se nos emprestasses o teu António para cuidar de nós, nem que fosse só um dia!
Ela sorria e assim, com esse mesmo sorriso, partiu da vida. António encontrou-a já fria de manhã. Chorou como nunca, três dias seguidos, depois ocupou-se do filho.

O rapaz estava na idade difícil dos 14 anos. Depois do serviço militar, casou-se cedo e ficou a viver lá onde serviu. Foi assim que António ficou sozinho, mas nunca desanimou gostava dos serões na porta com os jovens da terra.

O filho teve uma filha e António esperava pela família em casa, mas nunca vinham. Ora era trabalho, ora falta de tempo, ora outra coisa qualquer. Viu a neta apenas em fotografias.

De repente, notou-se na aldeia que António andava mais cabisbaixo e nunca sorria como antes. Nem se via à porta. Começaram a perguntar e souberam que tinha recebido um telegrama. A nora informou que num acidente de carro a família sofreu imenso: a neta estava em estado crítico, no hospital. O filho de António falecera.

“Que desgraça!”, diziam todos, mas não havia palavras que pudessem aliviar tanta dor. António recebia condolências, mas continuava desolado. O filho já não voltaria, mas pior ainda era pensar na neta, tão jovem, de quinze anos, e a lutar pela vida na cama de um hospital.

E da nora, nada mais. Não escrevia, não respondia aos telefonemas, nunca dava notícias. Como saber da neta? Nunca a tinha visto, mas amava-a do fundo do coração. Pelas fotografias, era parecida com Maria dos tempos de juventude.

António preparava-se para viajar até à cidade do filho quando, na véspera, uma carrinha parou à porta. Entrou uma mulher sem grande cerimónia era a nora. Trouxeram uma maca, e nela a neta, deixada no sofá e abandonada de imediato.
Ela está paralisada dos pés à cabeça. Não quero uma filha assim! Ainda posso casar outra vez e ter um filho saudável. disse a nora.
Mas eu não sou médico! ainda respondeu António.
Médico não vai mudar nada. Ela precisa é de uma cuidadora. Se não quiser tratar dela, enterre-a viva, eu não vou estragar a minha vida. Isso não é para mim! largou a mulher e foi embora, batendo com a porta.
Nem mãe és tu! gritou António.

Agora percebia porque o filho nunca vinha de visita com a família. Com uma mulher assim só havia discussões. Como foi o rapaz cair naquela armadilha? Infelizmente já não poderia perguntar. Se ele soubesse que a mãe da neta ia rejeitá-la, dava voltas no túmulo. Ficaram António e a neta, apenas os dois.

A neta realmente estava totalmente paralisada, mas António já tinha experiência de cuidar de gente doente agora tinha uma razão de viver: acreditar na cura da menina.

Os médicos desistiram e deram-lhe alta, dizendo que não sabiam como ela tinha sobrevivido ao acidente, com feridas quase incompatíveis com a vida. Restavam apenas as mezinhas e as curandeiras. A mais próxima vivia muito longe, e não tinha forças para visitar António. Levar a menina até lá era impossível…

António ia quase todas as semanas à curandeira, trazia ervas, chás e infusões. Tratava assim a neta. Mais de um ano passou, e ela continuava imóvel, sem conseguir mexer mãos nem pés, deitada como um tronco sob o cobertor. Nem falar conseguia, apenas uns gemidos baixinhos.

Por vezes, António via lágrimas a escorrer-lhe pela face. Nessas alturas, o coração do velho partia-se. Pensava que ela sofria de saudades da mãe e do pai. Falava-lhe como podia, lia-lhe livros mas ela não podia responder. Custava a ambos.

Um dia, ao anoitecer, aconteceu o improvável. Antônio estava sentado junto da cama, quando entrou pela casa uma cambada de jovens bêbados. O velho, esquecido, deixara a porta aberta. Tinham regressado de uma festa e viram luz na janela. Sabiam que ali vivia uma rapariga paralítica. Um deles propôs entrarem e se divertirem. “Paralítica não resiste… se puserem mãos, nem sequer pode dizer não.” Empurraram a porta e ela abriu-se.

Anda lá, velho! Tira o cobertor da neta e abre-lhe as pernas! Agora vamos lançar a sorte para ver quem é o primeiro! riu o mais bêbado.
Por amor de Deus, ela só tem quinze anos! reagiu António.
Esperem, só vou lavar os dentes! respondeu António, pela desculpa, e correu até à cozinha, abriu a porta da adega e gritou: “Agarra!”

De súbito, saltou de lá um enorme Cão da Serra, que começou a agarrar os canalhas pelas calças! O líder quase perdia as partes íntimas, e aos outros rasgou-lhes as calças pelo traseiro. Fugiram pela aldeia, de rabo nu, entre risos dos vizinhos, e o cão atrás deles, até aos limites da povoação.

Quando António voltou ao quarto, a neta estava sentada na cama, a gritar à janela:
Estrela! Estrela! Segura o nosso herói, avô! Que ele não fuja!…
O velho chorou de emoção. Desde esse momento, a menina começou a recuperar. Pouco tempo depois, já andava. Talvez fossem as ervas da curandeira, talvez o susto com o cão, mas o certo é que a neta não se calava, como se quisesse compensar o tempo perdido. E de onde vinha o cão? Perguntam vocês…

O Estrela vivia com o filho de António, mas quando a tragédia aconteceu, a nora livrou-se da filha e também do animal. Trouxe ambos juntamente, mas nunca disse nada ao velho. Quando a mulher saiu porta fora, António foi fechar o portão e viu ao lado o cão: magro, sofrido, com olhos tristes como vaca doente, lágrimas verdadeiras a escorrer. António nem sabia que o filho tinha um cão. Não teve coragem de deixá-lo na rua levou-o para casa.

O Estrela tornou-se o fiel amigo do velho e, naquela noite, estava na adega porque o verão era quente demais. Para não sofrer com o calor, António punha-o lá dentro de dia e soltava-o ao entardecer. Naquela noite, não o libertara ainda. Se tivesse sido solto antes, os bandidos nunca teriam entrado.

A neta explicou depois que chorava por saudades do cão. O avô, por costume, deixava o animal no quintal, mas nunca o deixava entrar na casa. A menina sentia a falta, mas não conseguia dizê-lo ao avô.

O Estrela, regressando depois de pôr os bêbados em fuga, lambuzou a cara da pequena dona, assim como ele próprio sentia saudades dela. E assim passaram a viver, os três: António, a neta e o Estrela. Da mãe da menina, nunca mais tiveram notícia.

Hoje, escrevo estas linhas com o coração mais leve, depois de tudo. Aprendi que, mesmo quando a dor parece não ter fim, nunca devemos abandonar quem precisa de nós. O amor, a compaixão e a esperança podem vencer o que parece impossível. E sobretudo, há laços que nenhuma desgraça ou abandono consegue destruir.

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