Eu nunca quis ter um filho! grita Alexandre à mulher no meio de uma discussão acesa, sem saber que o filho deles, Miguel, está encostado à porta, escutando tudo.
A porta de entrada bate com força. Catarina reconhece o som e percebe de imediato que, desta vez, não há como evitar o confronto. De pé na cozinha, mexe numa panela de sopa já fria, naquela hora perdida da noite em que o relógio marca quase uma da manhã. Não faz sentido voltar a aquecê-la.
Ainda acordada? Alexandre entra abrupto, voz carregada de irritação, como se a culpa de mais uma chegada tardia fosse dela.
Ela vira-se. Ele está à entrada da cozinha, camisa desapertada, cheiro a perfume que não é dele e a tabaco.
O Miguel perguntou por ti. Não soube o que lhe dizer.
Então não dizias nada Alexandre dirige-se ao frigorífico, tira uma garrafa de água das Pedras e bebe diretamente do gargalo. Estive a trabalhar até tarde.
Até à uma da manhã, numa sexta-feira? Catarina surpreende-se com a coragem da pergunta. Nunca costuma questionar os regressos cada vez mais tardios e as mentiras mal disfarçadas.
Por favor, Catarina, não comeces… desabafa, limpando a boca com as costas da mão. O projeto está complicado, tenho andado a mil.
Que projeto, Alexandre? O teu pai disse-me que não pões os pés no escritório há uma semana…
Alexandre fica parado. Lento, pousa a garrafa e encara-a como se a visse pela primeira vez.
Foste falar com o meu pai? Queixaste-te?
Não me queixei. O senhor Joaquim ligou a perguntar se estava tudo bem. Nem soube o que responder.
Ótimo, magnífico Alexandre passa a mão pelos cabelos com irritação. Agora até os meus pais estão envolvidos.
Ninguém está contra ti! Só quero perceber o que se passa connosco. Já fomos felizes. Lembras-te?
Sem responder, ele passa por Catarina a caminho da saída, deixando um vazio de mágoa e impotência atrás de si.
Espera, Alexandre! Vamos falar calmamente. Sem gritos, sem acusações. Eu amo-te. Quero que tudo fique bem, por nós, pelo Miguel.
Agora não, Catarina. Estou cansado.
E quando é que podemos falar? Passam-se meses assim. Chegas tarde, sais cedo. Nem no aniversário do Miguel, na próxima semana, perguntaste o que ele queria de prenda!
Alexandre volta-se, momentaneamente tocado pela culpa, mas o momento dissipa-se logo.
Eu compro-lhe um presente. Qualquer coisa boa.
Ele não quer um presente. Precisa de um pai.
Tem pai. E um que trata de tudo nesta casa! Tens três quartos, não te falta nada. O que é que queres mais?
Catarina recorda-se de quem ele já foi. Quando se conheceram no secundário, Alexandre era tímido, atencioso, bom ouvinte. Passavam horas no banco do jardim à porta da escola a conversar sobre tudo e nada sonhos, o futuro. Ele sonhava ser arquiteto, ela preparava-se para entrar no Instituto Politécnico, queria organizar festas infantis, dar aulas.
Tudo avançou depressa demais: fim do liceu, gravidez, casamento apressado por pressão dos pais dele. O senhor Joaquim insistiu: Na nossa família faz-se o que é certo. Assumes, és homem.
O casamento foi simples, só os mais chegados. Catarina ainda recorda as lágrimas da mãe, a arrumá-la para o registo civil. “Foste tão boa aluna, filha. Podias ter um diploma, ser alguém”, lamentou. Mas ela achava que o amor bastava, que juntos superariam tudo.
O sogro ofereceu-lhes aquele apartamento grande, luminoso, num bairro sossegado de Braga. Alexandre entrou na empresa do pai, começando de baixo. Como eu fiz, dizia o senhor Joaquim. Catarina foi a nora dedicada. Tratava da casa, tentava manter tudo em ordem. Quando nasceu Miguel, o mundo resumia-se àquele bebé.
Os primeiros anos foram felizes. Não havia muito dinheiro, mas davam-se bem. Alexandre subia devagarinho na empresa, o sogro dava apoio, mas pouco mimo: Homem tem de conquistar as coisas. Às vezes Alexandre revoltava-se, mas pareciam pormenores.
Tudo mudou há dois anos. O senhor Joaquim expandiu o negócio, abriu novos ramos. Alexandre foi promovido, bom salário, carro de empresa. Catarina ficou contente. Mas, com o cargo, vieram jantares, viagens de trabalho, longas ausências. Alexandre mudou. Tenso, apático, distante do pequeno mundo que tinham construído.
Catarina, não vou discutir isto contigo agora. Vai dormir.
E tu?
Vou trabalhar um pouco.
Ele sai da cozinha. Catarina ouve-lhe o trinco do escritório. Fica sozinha na cozinha luminosa, com a sopa fria e a garganta fechada pelo desgosto.
Na manhã seguinte, Alexandre sai cedo, sem sequer tomar pequeno-almoço. Catarina acorda com Miguel a enroscar-se a ela na cama.
Mãe, porquê que o pai não se despediu?
O pai teve de sair apressado, querido. Para o trabalho.
Ele está sempre com pressa Miguel suspira. Hoje vamos ao parque?
Claro. Onde preferes?
Ao novo parque! As baloiças novas chegaram!
Miguel tem sete anos: cabelos loiros como o pai, olhos cinzentos como Catarina. É um menino atencioso e doce. Ela vê tanto do velho Alexandre nele.
Lá vão, naquele sábado de primavera, para o parque em Braga. Está cheio de crianças. Miguel corre para as baloiças; Catarina senta-se no banco ao lado das outras mães. Falam animadas, riem-se.
O teu marido também sempre a trabalhar? pergunta Dona Teresa, senhora robusta e simpática, frequentadora habitual do parque.
Sim, sempre ocupado responde Catarina, sorrindo por cortesia.
Os homens agora são todos iguais. Trabalho, trabalho. Depois estranham que a gente lhes vire a cara desabafa Teresa. Uma das mães novas também concorda:
Digo ao meu para levar o pequeno ao parque, mas acha que só por trazer dinheiro já faz muito.
Catarina sente-se exposta, não querendo discutir a vida privada. Mas há um desalento comum nas palavras delas, uma história partilhada de milhares.
Mãe! Olha! Consegui sozinho! grita Miguel da escorrega.
Muito bem, campeão! diz ela, sorrindo. Sente lágrimas surgir, limpa-as depressa.
À noite, quando Miguel dorme, Catarina percorre velhas fotografias. O casamento ela num vestido simples, ele num fato, ambos felizes, a olharem-se como se nada mais importasse. Ela, recém-mãe, no hospital. Alexandre segura o bebé, assustado e emocionado. Férias no Algarve constroem castelos de areia juntos.
Quando é que tudo se perdeu? Em que momento deixaram de ser família, tornando-se apenas pessoas a partilhar teto?
Alexandre regressa tarde, Catarina ouve o duche, o trinco do escritório, e nenhum gesto de ternura.
No domingo Catarina decide. Liga ao senhor Joaquim, pede para se encontrarem. Ele aceita logo, vai a casa perto do almoço.
O sogro, homem alto, já de cabelos grisalhos, sempre teve trato franco com Catarina. Quando soube da gravidez, não fez escândalo, apenas aceitou: Se é este o caminho, criamos o neto.
Olá, Catarina cumprimenta-a, dando-lhe um abraço paternal. Onde está o meu Miguelito?
Foi passar o dia aos meus pais. Queria mesmo falar consigo.
Na cozinha, Catarina serve-lhe bolo, senta-se à frente dele e hesita:
Senhor Joaquim, é difícil dizer isto…
Eu já sei o que se passa. O Alexandre perdeu-se, certo?
Catarina acena, lágrimas correm-lhe silenciosas pelas faces.
Ele já não vive aqui. Não está connosco. Só aparece tarde, sai cedo. O Miguel pergunta por ele. E eu já nem sei o que responder.
Há quanto tempo isto dura?
Há mais de um ano… mas piorou muito nos últimos meses.
O senhor Joaquim suspira, toma um gole de chá.
Catarina, a culpa é minha. Mimo a mais. Quis que ele começasse de baixo, mas depois dei-lhe o lugar, o carro, um bom salário. Mas ele nunca esteve preparado. Não amadureceu.
Não tem culpa diz ela baixinho. Fez o que achava melhor.
Isso não chega, Catarina. O resultado importa abana a cabeça. Ele mudou. Sente-se acima dos outros, falha no trabalho, não cumpre compromissos… e quando é confrontado, inventa desculpas.
Diz que trabalha imenso.
Trabalha pouco. O subchefe é que faz tudo. O Alexandre mal aparece. Eu ainda não intervim, mas se continuar assim
O silêncio pesa. Catarina envergonha-se do marido, sente-se humilhada.
Há mais, Catarina… Fui sabendo. O Alexandre anda envolvido com uma colega, a Cláudia, a secretária.
Catarina sente um nó no estômago. Suspeitava o cheiro, o distanciamento, os horários. Mas ouvir é diferente.
Não sei o que fazer murmura. Amo-o, ou amava. Mas temos um filho. Não consigo simplesmente ir-me embora.
Nem tens de ser tu a sair diz o sogro. O apartamento está no teu nome, presente meu. Quem está errado é ele.
Não quero que o Miguel cresça sem pai.
Cresce sem pai na mesma. Um pai ausente e irresponsável faz pior. Aprende maus exemplos.
Catarina percebe a razão. Faltam-lhe forças, sente-se bloqueada.
És nova, Catarina. Inteligente, bonita. Não te enterres só no papel de mártir. Ainda podes seguir o teu sonho. O Miguel já vai à escola, tens tempo. Se precisares de ajuda, eu apoio.
Ela olha-o incrédula.
A sério?
A sério. Paga-se a propina, apoia-se o que for preciso.
Nessa altura, a porta de entrada escancara-se: Alexandre entra na cozinha e vê o pai.
Pai? Que fazes aqui?
Vim ver o meu neto. E a nora. E tu, onde estavas?
A trabalhar.
Num domingo? o senhor Joaquim sorri ironicamente.
O projeto está atrasado.
Senta-te. Temos de falar.
Alexandre reluta mas senta-se, desviando o olhar de Catarina.
Se é sobre as papeladas do escritório, já tratei de tudo…
Não venho falar disso interrompe o pai. Venho falar da tua família.
Que família? Alexandre ergue-se, defensivo.
Da tua mulher. Do teu filho, que te espera todos os dias. E tu, andas por onde?
Pai, não te metas.
Meto sim! O Miguel é meu neto, e a Catarina é como uma filha. Não aceito que destrates a tua família.
Não faço mal a ninguém! Dou tudo a esta casa!
Ser homem não é só pagar contas o pai retruca. És um vazio para o teu filho.
Alexandre ergue-se de rompante, a face vermelha.
Como te atreves!
Então explica: onde estavas até à uma da manhã ontem? Esta semana? Tudo mentira, nunca pões os pés na empresa!
Alexandre embaraça-se, lança a Catarina um olhar furioso.
Foste chibar-te?
Só queria conversar.
Pois, vieste pôr os meus pais contra mim. Bravo.
Chega, Alexandre o pai interrompe. Ou mudas de atitude ou acabas sozinho. Eu corto o apoio, a posição, a empresa, o carro. Se ela quiser avançar para o divórcio, eu ajudo. O apartamento é dela está em nome da Catarina, dado por mim. Se continuas neste caminho, ficas sem nada.
Alexandre fica branco, olha aturdido para ambos.
Traíram-me. Querem chantagear-me.
Ninguém te está a ameaçar suspira Catarina. Queremos apenas que escolhas, se voltas à família ou segues pela tua vida.
Alexandre olha para ela com raiva fria:
Agora nem o meu pai me apoia…
Não te abandonou. Está a tentar salvar-te.
Salvar? De quê? De uma vida confortável?
Via confortável, Alexandre? Olha para ti. És irreconhecível!
Gosto de como sou!
A sério? Então porque não és feliz?
Que faísca? Deixas-te de parvoíces!
Sabes como eras? Sonhavas ser arquiteto, projectavas casas Agora só vives para o nome do teu pai e as noites fora?
Eu não ando perdido!
Não mintas. Sei da Cláudia.
Ele paralisa.
E então?
Então traíste-me.
Não é traição. Foi uma coisa que aconteceu.
Que aconteceu? Trocaste a família por uma colega!
Estou farto! Farto de tudo isto! Da rotina! Sinto-me preso! Fecharam-me numa jaula!
Ninguém te prendeu! És homem feito. Escolheste esta vida.
Fui forçado. Era só um miúdo, não queria um filho!
Catarina empalidece, agarra-se à cadeira.
Não… querias?
Catarina, não quis dizer
Não querias o Miguel?
Não era disso… mas eu também era ainda uma criança.
E por isso achas justo traíres-nos?
Não é isso. Foi só
Dormes com outra, não estás em casa, e agora dizes que não querias o teu próprio filho. Sai, Alexandre! Se é assim que te sentes, vai. A porta está ali.
Encaram-se. O coração de Catarina bate descontrolado. Não acredita que está a dizer aquelas palavras, mas não pode travar-se. Demasiada dor acumulada.
Mas se saíres, é definitivo. Não quero o teu desrespeito, nem vou justificar ao Miguel porque o pai trocou a família por uma secretária qualquer!
A Cláudia não é qualquer uma!
Para mim é apenas a mulher por quem destróis tudo o que construímos.
Nós nunca construímos nada! Só existimos debaixo do mesmo teto.
Nesse instante, ouve-se um soluço. Miguel está à porta, de pijama, de pés descalços. Catarina nem viu os pais a regressar mais cedo da casa dela.
Vocês estão a discutir… Vocês discutem sempre sussurra Miguel, os olhos inundados de lágrimas. O pai vai-se embora?
Alexandre ajoelha-se diante do filho.
Miguel, não me entendeste. Eu e a mãe
Não me quiseste, pai! Eu ouvi. Disseste que não querias um filho.
Filho, não era isso… só não estava preparado.
Se gostasses mesmo de mim brincavas comigo. Mas nunca tens tempo, só te vais embora.
O pai gosta muito de ti Catarina tenta abraçá-lo, mas Miguel foge.
Não! Se gostasses, nunca nos deixavas! Só pensas na Cláudia!
O rosto de Alexandre perde a cor.
Como sabes tu…?
Eu ouvi! Ouvi tudo! Miguel grita e corre para o quarto, batendo a porta com força.
Catarina e Alexandre ficam parados no corredor. O rosto dele transfigura-se de culpa e raiva, mas recupera logo.
Estás a ver o que fizeste?! Agora ele sabe de tudo!
Fui eu? Só mentiste, traíste a nossa família!
Chega! Alexandre pega na casaco.
Vais sair agora? O Miguel precisa de ti!
Para quê? O filho nem gosta de mim!
Ele adora-te! Só está magoado!
Já Alexandre fecha a porta atrás de si. Catarina cai de joelhos no corredor, a chorar, os ombros a tremer de dor.
Vai até Miguel. Deitado na cama, o rapazinho treme, rosto escondido na almofada.
Meu amor… deita-se ao lado dele, abraça-o. Desculpa. Nunca devias ter ouvido aquilo.
Mãe, é verdade que o pai não me quis?
Não, querido. O pai só era muito novo e assustou-se. Mas quando te viu, ficou a amar-te mais do que tudo.
Então porque não está connosco? Porque nunca brinca comigo?
Está confuso. Mas ele ama-te, acredita.
Miguel olha para ela, tão magoado, que Catarina quase se desfaz em lágrimas.
Mãe, vão-se divorciar?
Não sei, querido. Não sei.
Não quero. Quero o pai connosco.
Eu também queria, amor. Mas não sei se é possível.
Ficam abraçados. Catarina pensa no caminho difícil que tem pela frente. Percebe que Alexandre não está pronto a mudar. Culpava tudo menos a si. Talvez o divórcio seja o melhor. Libertá-lo da tal “prisão”. Com o apoio do senhor Joaquim, pode seguir o sonho antigo, voltar a estudar, reconstruir.
Mas a ideia de viver sem Alexandre aperta-lhe o peito. Ainda sente amor. Mas será que aquele homem ainda existe?
Dias passam sem sinal de Alexandre. Miguel pergunta todos os dias pelo pai. Catarina mente: Está no trabalho, está ocupado. Mas fica cada vez mais difícil esconder-lhe a verdade.
Na quinta-feira ao fim do dia, Alexandre reaparece. Cansado, olhos vermelhos. Mal entra em casa, afunda-se no sofá, murmurando acerca da Cláudia, dizendo que ela o largou e agora está sozinho.
Vais tomar banho diz Catarina. E beber um café.
Não preciso de nada! ele levanta-se, cambaleia, senta-se outra vez. Cansei-me de tudo.
O Miguel pode aparecer a qualquer momento. Não pode ver-te assim.
Que importa? Não gosta de mim.
Ama-te. Sente a tua falta.
Alexandre ergue o olhar turvo.
A sério?
A sério. Vai tomar banho. Depois falamos.
Obedece, arrastando-se até à casa de banho. Catarina prepara-lhe café, um pequeno gesto de cuidado. Sabe: chegaram ao fundo. Agora Alexandre tem de levantar-se ou tudo termina de vez.
Vem da casa de banho, mais calmo, senta-se à mesa e segura a caneca.
Desculpa diz baixinho. Não queria que me visses assim.
E como gostavas de ser visto?
Forte, com sucesso, confiante.
Foste, quando eras tu próprio.
Ele ri, amargo.
Quem sou eu, Catarina? Sou só o menino mimado do papá, sempre à espera que lhe deem tudo feito.
Não. És um homem com uma família e um filho que te vê como herói ela mantém o olhar. Mas tens de decidir quem queres ser.
Quero ser alguém normal. Um bom pai, um marido. Mas tenho medo de falhar.
Todos temos medo. Mas tens de mudar. De verdade.
Ele acena. Acaba o café e levanta-se.
Vou pedir desculpa ao Miguel.
Espera. Já deve estar a dormir.
Então, amanhã de manhã. Prometo.
Mas de manhã já não está. Sai cedo, sem se despedir. Miguel acorda e volta a perguntar pelo pai. Catarina chora. O filho abraça-a e diz baixinho:
Não chores, mãe. Vamos conseguir, só nós dois.
Palavras de um menino de sete anos rasgam-lhe o coração. Ele nunca devia ter de as dizer.
Nesse dia, Catarina volta a ligar ao sogro. Encontram-se num café de Braga. O senhor Joaquim está cansado, envelhecido.
Sei tudo diz ele, antes de qualquer pergunta. O Alexandre foi ter comigo ontem. Pediu dinheiro.
E deu-lho?
Não. Já chega. Tem de se fazer à vida.
E agora? O que é que eu faço?
Divorcia-te diz, sereno. Peças a pensão, ficas com a casa. Eu ajudo-te com o que for preciso.
E o Miguel?
Fica melhor sem um pai assim, acredita.
Catarina percebe que ele tem razão, mas não quer aceitar o fim de uma história de família. Pede só mais tempo, uma última esperança.
Envia a Alexandre uma mensagem: Vem no domingo. Precisamos conversar. Sem acusações. Decidimos juntos.
Demora um dia a responder: Vou.
Domingo chega depressa. De manhã, Catarina arruma a casa, deixa Miguel com os avós. Alexandre chega sem cheiro a álcool, mas com o rosto magro, cansado.
Pronto, estou cá. Diz.
Temos de decidir. Ou tentamos de novo, ou cada um vai à sua vida. Assim não pode ser.
Sei disso.
O que queres?
Fica em silêncio, olha a janela.
Quero… Não sei. Achei que sabia, mas já não sei de nada.
Queres estar comigo e com o Miguel?
Quero. Mas tenho medo de falhar.
Mas se não tentares, vais sempre falhar.
Olha-a, olhos inundados de sofrimento. Talvez só agora perceba a extensão das suas escolhas.
Fui um idiota. Perdi tudo. Por orgulho, vaidade.
Eu sei.
E tu odeias-me.
Não. Só não sei se te amo ainda. O perdão não é um conto de fadas onde tudo fica perfeito com um pedido.
E então?
Ganha-me de volta com ações, não com palavras.
Vais-me dar tempo?
Tens tempo. Mas vais sair de casa. O Miguel não precisa de assistir a estas dúvidas. Podes visitá-lo, passear, mas agora, moras noutro lado.
Isto é uma expulsão?
É um tempo para pensar. Para que ambos descubramos o que queremos.
Alexandre levanta-se, a caminho da porta. Antes de sair, diz baixinho:
Eu amo-te. E amo o Miguel. Fui burro, não vi isso antes.
Mostra-o, então.
Quando ele parte, Catarina sente um alívio estranho, libertador. Pela primeira vez, decide por si. Deixa atrás a espera, a resignação, o conformismo.
Nas semanas seguintes, Alexandre cumpre: liga a Miguel todos os dias, pergunta pela escola, pelas pequenas novidades. Aos fins de semana, vão passear juntos. Catarina vê a felicidade do filho, nota uma nova postura em Alexandre menos arrogante, mais humilde.
Um dia, ele conta que foi despedido, sem indemnização, sem recomendações. O meu pai disse para me fazer à vida e aprender valor. Arranjou trabalho como ajudante de construção, em Guimarães. O salário é pouco, o trabalho duro, mas não se queixa.
Quando chego ao fim do dia, só penso em dormir diz-lhe ele. E só agora percebo, o que o meu pai passou para criar tudo do zero. Eu achava que era natural ter tudo dado
Catarina começa de novo. Inscreve-se finalmente no Politécnico do Porto, no curso de Animação Sociocultural. É aceite, o sogro paga as propinas, como prometido. Aos poucos, organiza festas infantis, primeiro para conhecidos, depois através de indicações. Descobre talento, paixão e alguma independência financeira.
O Miguel sente o entusiasmo da mãe, ajuda-a com ideias para festas. Tornam-se um equipa. Catarina percebe que ser família não é apenas um nome, mas a verdadeira entreajuda, respeito, partilha.
Três meses depois, Alexandre mantém-se presente, mas respeita a distância. Já não são marido e mulher, mas algo próximo de amizade.
Até ao dia em que tudo muda. Alexandre chega mais cedo ao sábado, convida-os para um passeio ao parque no Bom Jesus. No banco à sombra, observam Miguel a correr.
Como vai a obra? pergunta Catarina.
Cansativo, mas sinto-me vivo. E tu, animadora?
Bem. Exame na próxima semana, nervosa, mas entusiasmada.
Tenho orgulho em ti diz Alexandre, surpreendendo-a.
Ficam calados, a ver o filho brincar.
Posso dizer-te algo? pergunta ele.
Podes.
Aprendi o que é ser feliz. Não é status. É isto aponta Miguel. Estar contigo, ver o nosso filho crescer.
As palavras emocionam Catarina.
Fui um burro continua ele. Podias ter-me deixado. Mas deste-me a oportunidade.
Não sei se consigo confiar de novo.
Não peço resposta já. Espera por mim. Vou provar-te que mudei.
Miguel volta para perto deles, pede para subirem juntos à montanha-russa. Vão os três. Voltam para casa ao fim do dia, de mãos dadas, a rir. Alexandre despede-se à porta, e Catarina, espontaneamente, convida-o a jantar.
Durante o jantar, fala com Miguel sobre a escola, ouve-o com atenção. Miguel brilha de felicidade. A noite termina com Alexandre a ler-lhe uma história. Quando está de saída, troca um beijo na face de Catarina. Aquele gesto simples, sem pressa nem paixão diz mais do que o passado inteiro.
Dias depois, Catarina encontra-se com o senhor Joaquim num café no centro do Porto.
Já decidiste? pergunta o sogro.
Quase. Vejo mudança verdadeira.
E acreditas?
Quero acreditar. Mas estou cautelosa.
Bem. O Alexandre que prove diariamente que merece. E se falhar, segues com o Miguel na mesma.
Ao regressar a casa, Catarina percebe: o perdão não é coisa simples nem de palavras. É uma estrada roubusta, de mil passos. E só ela pode decidir se vai ou não trilhá-la até ao fim.
Chega o inverno. Miguel apanha uma constipação forte. Alexandre vem, prepara-lhe chá e limpa-lhe o suor. Fica a noite, dorme no sofá, sem pedir nada. Na manhã seguinte, prepara o pequeno-almoço ao filho. Catarina sente finalmente o regresso daquele Alexandre original mas, agora, mais adulto.
Certa tarde, enquanto Miguel brinca no parque, Catarina e Alexandre conversam. Falam dos projetos, dos sonhos, do futuro. Revêem conversas de outros tempos, agora com maturidade. Ela vê nele alguém diferente, alguém que sofreu, mas resistiu.
Seis meses volvidos desde o primeiro afastamento, Catarina decide dar-lhe o segundo, verdadeiro, e último, voto de confiança.
Numa tarde soalheira, regressam ao parque onde tudo recomeçou. Sentam-se num banco, enquanto Miguel brinca.
Sabes diz Catarina , mereces um novo começo. Verdadeiro. Sem voltarmos ao passado. Seremos companheiros, iguais.
É tudo o que mais quero.
Ela sorri, ainda com algum medo no peito. Mas decide arriscar.
Então, bem-vindo de volta a casa.
Alexandre abraça-a. Forte. E aqueles meses de frio interior desfazem-se. Apoiam-se um ao outro, de novo.
Pai! Mãe! chama Miguel do baloiço. Olhem como vou alto!
De mãos dadas, Catarina e Alexandre sorriem.
Quero que todos os domingos sejam assim diz ele. No parque, só os três, a ver o nosso filho crescer. Que esta seja a nossa história.
Está combinado responde ela. Cada domingo, em família.







