Eu não convidei ninguém para minha casa! – a voz da nora falhou. – Eu não chamei vocês aqui!

Eu não convidei ninguém para vir cá! a voz da nora, por fim, quebrou-se. Eu não vos chamei!

Miguel estava na cozinha, concentrado a bater o molho para a massa. Numa mão segurava as varas, na outra um livro de receitas aberto, o rosto sério e atento.

O aroma do alho, tomate e manjericão preenchia o apartamento, misturando-se com o perfume subtil das velas acesas que Teresa espalhara pela sala.

Parece-me que está a correr bem ele olhou para a esposa, que cortava queijo para a salada. Ao menos, desta vez, não talhou.

Teresa sorriu-lhe, ternamente. O cabelo castanho preso num coque desfeito, e nos olhos amendoados o reflexo suave da luz do candeeiro da cozinha.

És mesmo habilidoso Teresa envolveu-lhe a cintura num abraço. Cheira como naquele restaurante em Lisboa que adorávamos.

É isso que queria. Imagina só: silêncio, música tranquila, jantar à luz das velas… Sem telefonemas, sem visitas. Só nós dois.

A ideia de celebrar o aniversário dela em casa, a sós, tinha sido dos dois. Após tanta correria e visitas de família, ansiavam desesperadamente por uma noite dedicada um ao outro.

Teresa comprou o vinho do Alentejo preferido, enquanto Miguel saiu do trabalho mais cedo para cozinhar.

Com tudo pronto, levaram as entradas para a sala e ela pôs música suave.

Feliz aniversário, amor Miguel ergueu o copo. Que este ano te traga paz e alegria.

Obrigada, meu querido brindou Teresa.

O sabor do vinho era encorpado e intenso. Teresa fechou os olhos, saboreando o momento. Esperava por esta noite há semanas.

Foi então, no meio daquele sossego, que se ouviu o toque agressivo do videoporteiro. Miguel franziu o sobrolho.

Quem será? Não estamos à espera de ninguém.

Teresa encolheu os ombros, mas um frio percorreu-lhe a pele. Miguel foi atender.

Sim? disse ele ao intercomunicador.

A resposta foi um entusiasmo familiar e alto:

Migui, somos nós! Abre lá, trazemos uns miminhos! Viemos dar os parabéns à Teresa!

O rosto de Miguel perdeu cor. Lançou à mulher um olhar aflito.

Mãe? murmurou. O que é que estás aqui a fazer?

Ora, vim dar os parabéns à minha nora querida! Abre, está um vento lá fora!

Miguel, resignado, abriu a porta do prédio. Ficou no ar um silêncio desconfortável.

A tua mãe? Agora? sussurrou Teresa, a voz tremente.

Desculpa… Ela disse só que podia ligar…

Mal tiveram tempo de reagir e já batiam à porta forte, insistente, de quem se sente em casa.

Miguel respirou fundo e abriu. Na entrada estava Dona Maria das Dores, a mãe: baixa, robusta, cabelo curto e batom vermelho.

Enrolada num xaile colorido, trazia nas mãos um grande recipiente de plástico coberto de condensação.

Finalmente! Quase que ficávamos a morrer de frio, parecia sem-abrigo! entrou disparada, tirando o casaco e ocupando logo metade do cabide.

E só então Teresa e Miguel viram o resto da comitiva familiar. Entraram: o tio Augusto, irmão de Maria, um homem grande de fato de treino com uma caixa de sumo, a mulher, tia Filomena, magra e inquieta, carregando um enorme bolo, protegendo-o como um troféu, e ainda a filha deles, Joana, de vinte anos, colada ao telemóvel, sem esquecer os dois filhos mais novos, que dispararam pela casa aos gritos.

Mãe, o que é isto? conseguiu perguntar Miguel.

O que foi agora? Maria das Dores pendurou o casaco ocupando três ganchos. Somos família! Resolvemos fazer uma surpresa à Teresa! Tudo para ti, querida! estendeu-lhe o recipiente. Toma, é gelatina de carne, o Miguel gosta tanto.

Teresa recebeu, sem saber, o recipiente pesado.

Obrigada, Dona Maria murmurou. Mas… não esperávamos visitas…

Visitas nada! Somos da casa! gargalhou a sogra, caminhando para a sala. Que românticos, hem? Velinhas e tudo!

Tia Filomena já pousava o bolo em cima da mesa, empurrando o jarro de flores e os copos de vinho.

Teresa, feliz aniversário! Fui eu que fiz, Bolo de Chocolate à Moda Antiga. Vais adorar!

As crianças corriam, brincando às apanhadas. Um quase derrubou o candeeiro de chão, Teresa correu a segurá-lo.

O coração dele batia descompassado. Miguel tentou retomar o controlo.

Pronto, já que vieram… Sentem-se, fiquem à vontade. Teresa, podemos pôr tudo na cozinha?

Mas Maria das Dores já decidira.

Para quê na cozinha? Aqui na sala é que é. Augusto, chega a mesa, Filomena, vai buscar pratos. Joana, larga o telemóvel e ajuda, filha!

Joana foi à cozinha, aborrecida, sem tirar os olhos do ecrã. O ambiente acolhedor e intimista desaparecera.

Em poucos minutos, a mesa ficou repleta de iguarias: gelatina de carne, salada russa, conservas, cogumelos em vinagrete e o imponente bolo.

Então, Teresa, conta lá: como vai a vida? Maria das Dores sentou-se no sofá, fitando-a. Continuas naquele escritório? O chefe não te chateia?

Vai tudo bem, obrigada respondeu Teresa, mexendo na salada.

Pois, que a Joana não arranja trabalho, coitada. Bem estudou, agora está parada. Olha, não há aí lugar para ela? A menina é mesmo despachada.

Teresa só conseguiu acenar, sentindo o estômago apertar-se. Miguel estava ao seu lado, encurvado.

Tentava manter conversa, respondendo ao tio Augusto sobre futebol, mas notava-se que estava esgotado e irritado.

O olhar culpado de Miguel para Teresa era cada vez mais frequente, mas nada podia fazer. Os miúdos, já cheios de doces, voltaram às brincadeiras.

O mais novo, Rodrigo, encontrou na estante a colecção de peças de cristal que Teresa coleccionava há anos.

Mãe, olha estes brilhinhos! gritou ele.

Cuidado, Rodrigo, isso parte-se! Teresa saltou, mas já era tarde.

O rapaz puxou um cisne de cristal delicado. Ouviu-se um estalo. O cristal partiu-se em mil pedaços.

Instalou-se um silêncio pesado. Nem música se ouvia, apenas o crepitar das velas na mesa.

Oh, valha-me Deus! exclamou tia Filomena. Rodrigo, não te disse para não mexer?

Ora, não faças caso disse Maria das Dores, fazendo pouco. Uns vidrinhos, qual o problema? Vai tudo para o lixo. Ele não fez de propósito.

Teresa olhou-a devagar.

Era uma prenda da minha avó disse, muito devagar e firme. Ela já cá não está.

Olha, a avó já foi, coitada, mas os vivos é que interessam continuou a sogra. Crianças são assim. Não se deve deixar nada de jeito à mão quando se tem gente em casa.

Foi a gota de água. Teresa levantou-se, a cadeira arrastando-se no chão.

Eu não pedi que viessem cá! explodiu. Não vos convidei! Queríamos só um jantar a dois! É o meu aniversário, não uma reunião de família!

Instalou-se um silêncio sepulcral. Até as crianças pararam, sentindo o ambiente pesado.

O tio Augusto ficou a olhar para o prato, tia Filomena ficou de boca aberta. Maria das Dores corou.

Então, é assim? respondeu num tom gélido. Viemos dar os parabéns, trouxemos prendas e comida, e afinal somos intrusos? Não posso vir à casa do meu próprio filho?

Mãe, basta! Miguel levantou-se, finalmente firme. A Teresa tem razão. Planeámos este momento a dois. Não tinhas o direito de aparecer assim e de trazer metade da família.

Então, sou uma intrusa? Eu que te criei, que te dei tudo, agora já não posso visitar-te porque tens mulher?

Não é a Teresa. É respeito pelos nossos planos e pelo nosso espaço!

Começou uma discussão ruidosa e infrutífera. Maria das Dores falava alto, Miguel tentava acalmá-la, os restantes evitavam olhar.

Teresa já não aguentava. Saiu, em silêncio, para o quarto.

Os gritos ouvia-se, abafados pelas paredes, mas doiam na mesma.

Não sabia quanto tempo passou dez, vinte minutos? A discussão foi esmorecendo e deu lugar a um silêncio pesado.

Depois, passos, vozes baixas, a porta de entrada a fechar-se.

A porta do quarto abriu-se devagar. Era Miguel, destruído.

Foram-se embora disse baixo. Desculpa, devia ter desligado o videoporteiro…

Mas não desligaste respondeu Teresa, sem forças. Devias tê-la travado.

É a minha mãe… Só queria fazer o melhor.

Para quem, Miguel? Para si própria? Para mostrar que é boa dona de casa e mãe presente? Estragou-nos a noite!

E agora? Corria com ela? Fazia uma cena ainda maior?

Acha que isto não foi cena? ela caminhou pela divisão. É sempre assim! Decide por nós. O que comemos, o que fazemos, como vivemos! E tu deixas sempre…

Teresa foi até à janela. Lá em baixo, viu as silhuetas de Maria das Dores e família a entrarem no carro.

Parecia estar resolvido, mas Teresa sabia que não. Era apenas uma pausa.

Não sei como continuar, Miguel murmurou. Não quero viver com medo da próxima invasão da tua mãe e seus bolos.

Vou falar com ela. Seriamente. Explicar que não pode continuar…

Já disseste tantas vezes. Nunca muda.

A noite perfeita ficou arruinada antes de começar.

Desculpa sussurrou Miguel. Feliz aniversário, querida.

Teresa fechou os olhos. Tinha 33 anos, mas sentia-se com sessenta.

Queres ir para a sala? Ainda há comida boa…

Não tenho vontade nenhuma respondeu seca. Só quero dormir.

Saiu do quarto e foi para a casa de banho. Queria lavar tudo aquilo, fechar os olhos e esperar pelo dia seguinte um dia sem sogra a invadir a paz.

Dias depois, Maria das Dores continuava magoada, sem compreender como pôde ter atrapalhado aquela noite. Mas a vida é assim: nem sempre a nossa forma de amar é a que os outros precisam. Respeitar o espaço e os sonhos dos outros é também um acto de amor e talvez o mais difícil de todos.

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Eu não convidei ninguém para minha casa! – a voz da nora falhou. – Eu não chamei vocês aqui!