Olha, tenho que te contar o que me aconteceu parecia que estava num episódio surreal, a sério! Sabes que eu sempre fui independente, aos 45 anos, com o meu trabalho, o meu T2 aqui em Lisboa, vida montada e, se chamei o Luís para vir morar comigo há um mês, foi porque queria partilhar a vida com alguém que achava maduro não propriamente para ter mais alguém a ser servido, percebes?
Bom, no sábado de manhã, o Luís abre o frigorífico, tira o tupperware com as sobras do meu estufado de ontem e manda-me: Leonor, já sabes como é, não como comida do dia anterior. Não podes fazer-me algo fresco? e eu de caneca de café na mão, encostada ao balcão, a olhar para ele como se fosse um extraterrestre! Mas não é pedir comida, que às vezes faz parte o problema foi a certeza com que disse aquilo, como se fosse naturalíssimo eu ter que cozinhar sempre, nunca servir-lhe restos, porque para ele a casa só funciona assim: mulher serve, homem usufrui.
Relembro, já trilhei o meu caminho sozinha depois do divórcio; não precisava de mais ninguém para me tratar dos recados. Conheci o Luís no Tinder, ele com 48, também divorciado, condutor de transportes, vivia num T0 ali em Odivelas. Online até era simpático, nos encontros sempre trouxe flores, piadas, nunca perguntou pelo meu ordenado nem se gabava dos dele. Saíamos aos fins de semana, cozinhávamos juntos, víamos filmes, passeávamos pelas ruas de Alfama. Até ajudava a arrumar e era prestável. Pensei: Finalmente, um homem embalado no século XXI.
Mas depois de três meses, ele diz-me assim: Sabes, acho que faz sentido ir morar contigo, estou sempre a pagar renda desnecessária, já que passo aqui a maior parte do tempo e eu, a achar que faz sentido, aceitei.
A primeira semana correu bem. Ele até limpava o que sujava, por vezes até se aventurava aos tachos, não largava a roupa pelo chão. Mas na segunda semana, começou a descambar umas pequenas coisas que tentei não levar a peito.
Só que pequeno não tinha nada.
Deixou de lavar a sua chávena de chá. Eu perguntei: Luís, não vai lavar?; ele responde: Tu acabas por lavar à noite, não faz sentido estarmos os dois a meter as mãos à água. De repente, apareceu uma coleção de meias sujas ao lado do sofá. Pedi-lhe para pôr no cesto e ele, todo na descontra: Ó Leonor, não stresses com isso, são pormenores. E depois era só pedidos: Léo, passa-me o comando, Léo, traz-me água, Léo, vês se a minha bateria está no quarto?, sempre isto e eu ainda a trabalhar full-time em casa! Parecia que passei a ser criada na minha própria casa.
Até que chegou o tal sábado do estufado. E no domingo, ele senta-se à frente, pega no telemóvel, muito sério, e diz-me:
Olha, estive a pensar e era bom falarmos da divisão das tarefas da casa. Fiz um apontamento com aquilo que faz sentido distribuir para não haver chatices.
Olha, juro, achei que vinha conversa adulta tipo, discutir o que faz sentido para os dois.
Ele começa a ler do telemóvel…
Primeiro ponto: Cozinha. A mulher deve cozinhar todos os dias, de preferência com variedade. Não como comida de ontem, portanto tem de haver sempre comida fresca. Fiquei de cara à banda, mas ele segue sem parar.
Segundo ponto: Roupa lavar e passar. Isso é coisa de mulher, nós homens não temos jeito. Quero as camisas prontas à segunda-feira. O sangue começou-me a ferver…
Terceiro: Limpezas. Limpeza a fundo uma vez por semana, pó regularmente. Trabalho o dia todo, não posso perder tempo nisto. Ele recitava aquilo como se fosse o contrato da empregada.
Quarto: Intimidade. Pelo menos duas vezes por semana, é importante para o equilíbrio do casal. E eu já a apertar as unhas nas palmas das mãos ele continuava de olhos postos no telemóvel.
Quinto: Finanças. Água, luz e gás dividimos a meias, mas as compras são por tua conta, visto que és tu quem cozinha mais vezes. As despesas pessoais, essas pago eu. No final, ainda sorri: E então, não é justo?
Nem lhe respondi logo. Olhei para ele e disse: Luís e as tuas tarefas estão onde?. Ele ficou admirado: Como assim? Eu levo dinheiro para casa. Não é uma contribuição? digo-lhe: Olha que também trabalho, e não ganho menos que tu. Só que trabalho de casa. Ah, mas isso é diferente, Leonor. Estás confortável no lar, eu ando nas ruas, o stress, o trânsito
Levantei-me e disse frontalmente: Ou seja, queres uma criada, sem salário, não é?. Ficou todo ofendido: Criada? Não, é a divisão normal, o homem trabalha, a mulher trata do resto. Sempre foi assim.
Sim, em mil novecentos e cinquenta isto agora é outra era, Luís. Ele baixa os olhos e responde com aquele velho cliché: Leonor, nós, homens, não fomos feitos para essas tarefas. Somos caçadores, a mulher cuida da casa.
Aquela noite nem peguei no sono. E ele ali, a ressonar no maior à vontade, como se nada fosse. Acordei às cinco, pus as coisas dele em dois sacos junto à porta, deixei um bilhete:
Luís, li o teu ‘manual’:
1) Procura outra guardiã do lar.
2) Os teus sacos estão junto à porta.
3) Deixa as chaves na caixa do correio.
4) Não me ligues. Boa sorte a arranjar quem queira fazer de empregada em troca de harmonia conjugal.
Saí de mansinho, fui ter com a Marta, tomámos um café, contei-lhe tudo. Ela só abanava a cabeça: Leonor, ainda bem que deste por isso a tempo. Já imaginaste aguentar isto um ano?
Três horas depois, recebo mensagem dele: Estás mesmo a fazer esta fita por uma coisa tão pouca? Achava-te uma mulher crescida Nem respondi, bloqueei logo.
Agora, já passaram dois meses, e pensei muito. O Luís não queria uma companheira, queria assistência com extras íntimos. Para ele a mulher depois dos 40 é alguém que tem que agradecer por ainda ter atenção, e servir em silêncio. E ainda há mais homens assim do que parece disfarçados de modernos, começam a mostrar as garras quando já te apanharam.
E sabes o que aprendi? Prefiro estar sozinha e feliz do que acompanhada e presa a uma lista de obrigações inventadas. Aos 45 anos já mereço viver pelas minhas próprias regras. Sem listas, sem mandarina, sem homem que me veja como função.
Se for para ficar sozinha, está-se bem. Antes só, do que com alguém que me trate como empregada.
E tu? Tinhas saído logo ou tentavas negociar? Porque será que tantos homens depois dos 45 só querem uma dona de casa? Notaste como mudam quando vão morar juntos?







