Essas crianças não são minhas. Se tu quiseres, ajuda a tua irmã, mas não à minha custa. Ela destruiu a própria família e agora quer impingir-nos os filhos para ter tempo livre e organizar a vida como bem entende.
Que casa acolhedora conseguiram, mano. Até tenho inveja, a sério.
Filipa passa os dedos pela toalha de mesa, analisando a cozinha com olhar crítico. Leonor coloca a saladeira na mesa e senta-se de frente para o marido. Rui sorri para a irmã, sem notar a maneira como a mulher aperta o guardanapo, tensa.
Demos o nosso melhor. Andámos meio ano à procura até encontrarmos uma solução decente.
Venderam o apartamento e mudaram-se para Almada para ficarem mais perto da família do Rui. Com terreno e horta, paz e sossego Leonor sonhou com isto durante três anos. Dois meses depois, lá estavam, sonho cumprido.
E eu não consegui segurar a minha família desabafa Filipa, olhando para o prato. Já passaram três meses, mas continuo sem saber o que fazer. Acordo, olho à volta e não tenho ninguém. Os miúdos perguntam pelo pai, e eu nem sei o que lhes dizer.
D. Amélia, matriarca sentada à cabeceira, estica o braço para afagar a filha.
Vai correr tudo bem, minha querida. O mais importante é que os teus filhos estejam saudáveis. E aquele patife, mais tarde, vai arrepender-se de ter ido embora.
Diogo, o sobrinho de quatro anos, escorrega da cadeira e corre para a sala. Um estrondo ecoa logo de seguida alguma coisa caiu da estante.
Dioguinho, cuidado! grita Filipa, sem se levantar.
Marta, quase a fazer três anos, começa a choramingar ao colo da mãe, à procura de atenção. Filipa embala-a, distraída, e continua a conversa:
Ainda bem que agora estão por perto. A mãe, depois da operação, mal se consegue mexer, não tem ninguém que a ajude.
Olha que quase nem cheguei de táxi intromete-se D. Amélia, massajando o joelho. Quarto andar sem elevador, uma tragédia para esta tensão arterial. Até subir, achei logo que ia cair. Não posso cuidar dos netos.
Leonor levanta-se para trazer o prato principal. No parapeito crescem mudas de tomate em pequenos vasos. Se tudo correr bem, daqui a um mês planta-os na horta serão os primeiros tomates colhidos por ela própria.
Espero que não te importes de ficar com os miúdos de vez em quando? a voz de Filipa apanha-a já junto ao fogão. Só quando for mesmo preciso, prometo. Tenho de procurar trabalho, ir aos médicos, tratar do divórcio com o advogado E os miúdos ficam onde?
Leonor vira-se. Filipa olha para o irmão, com aquela expressão vulnerável que Leonor já aprendeu a ler. Vinte e sete anos e ainda faz teatro por tudo.
Rui acena, compreensivo.
Claro, Filipa. Vê lá se não ajudamos. Não é, Leonor?
Todos olham para ela. Três pares de olhos ansiosos, esperando a resposta certa.
Sim, claro diz Leonor. Quando for mesmo preciso.
Filipa sorri, aliviada.
São uns anjos. Não vos incomodo, juro. Só duas horitas no máximo.
Os convidados vão-se embora já depois das onze. Rui chama um táxi para a mãe, ajuda-a a descer as escadas Amélia queixa-se de cada degrau. Filipa encaixa os miúdos já sonolentos no velho Renault e parte, gritando pela janela: Obrigada pelo jantar, vocês são mesmo os melhores!
Enquanto Leonor arruma a loiça, Rui abraça-a por trás, beija-lhe o cabelo.
Está visto, foi um jantar óptimo. A mãe ficou radiante, a Filipa animou-se. Mudarmo-nos para aqui foi mesmo o melhor.
Pois
Estás cansada?
Um bocado.
Não disse o que a incomodava. Só quando for mesmo preciso ecoa-lhe na cabeça. Leonor já sabe como essa promessa se transforma em todos os dias, só porque é mais cómodo.
Uma semana depois, Filipa liga de manhã.
Leonor, dá-me uma mão? Tenho consulta urgentíssima e a mãe não consegue ficar com os miúdos. Só três horas ao almoço já os levas!
Leonor olha o portátil, as tabelas do relatório trimestral em aberto. O cliente espera para sexta.
Filipa, tenho o relatório em cima do prazo
Eles são uns anjinhos, nem os dás por eles! Liga-lhes o Panda, e já está. Ajuda-me, Leonor, a sério, preciso mesmo.
Meia hora depois, os miúdos estão em casa dela. Passa o almoço, Filipa não aparece, e de repente já é quase noite.
Rui chega do trabalho às seis, espreita a sala.
Ainda cá estão?
Sim Prometeu buscá-los ao almoço, depois disse que se atrasava.
Também não é nada de grave encolhe os ombros, tirando uma Super Bock do frigorífico. São família.
Leonor não diz nada. Diogo já tinha entornado sumo no tapete e Marta tinha ficado sem fraldas só uma restava na mochila.
Filipa chega às nove. Revigorada, cheirando a café, sorriso fresco.
Desculpa, perdi a noção das horas. Salvaram-me, obrigada!
Leonor acaba o relatório às três da manhã, a cabeça a latejar, os gritos das crianças a ecoar-lhe nos ouvidos.
Quatro dias depois repetição. Entrevista de emprego, muito importante. Filipa entrega os miúdos às nove, promete vir às três. Rui está em casa, a recuperar de um turno nocturno. Acorda à hora do almoço.
Ainda cá estão?
Pois, como vês.
Está bem, não stress, eu fico por aqui.
Sim, ficava. Vê futebol na sala enquanto Leonor faz malabarismos entre os miúdos e o portátil. Diogo ainda veio duas vezes: Tio Rui, brincas comigo? Mas Rui nem tira os olhos do ecrã: Depois, puto, estou a ver a bola.
Filipa só aparece às oito da noite.
Ao fim de três semanas, tornou-se rotina: três, quatro vezes por semana. Médicos, advogados, entrevistas, amigas. Só umas horas convertem-se sempre no dia todo.
Uma noite, depois de finalmente os miúdos irem embora, Leonor senta-se à frente do marido.
Rui, isto não pode continuar.
O quê?
Três vezes por semana Não estou a dar conta do trabalho.
Ele franze-se.
Leonor, ela está a passar um momento difícil. Foi abandonada, está sozinha com dois filhos. A família é para isto.
Eu entendo. Mas ela diz que vem buscar ao almoço e aparece às dez da noite. Isto não é ajuda, isto é
O quê?
Leonor engole o cara de pau, o andar a aproveitar-se e cala-se.
A mãe ligou há pouco continua Rui. A Filipa precisa de tempo. Ficou a vida virada do avesso. Sou irmão, tenho que ajudar.
E eu?
És minha mulher diz ele como se fosse óbvio. Somos uma família.
Leonor volta-se para a janela. Lá fora escurece, no parapeito as mudas de tomate esperam ser transplantadas. Queria fazê-lo no sábado.
Já nem valia a pena discutir.
Na sexta, Rui chega do trabalho e logo à entrada:
A Filipa ligou, amanhã precisa de entregar os miúdos. Tem duas entrevistas e o carro está a dar problemas, vai à oficina.
Leonor pousa o portátil, fita-o.
Rui, já falámos disto. Não posso todos os fins de semana.
Mas estás a ser egoísta tira o casaco, vai ao frigorífico. Ela é minha irmã. Que custa a ajudar? Estás em casa de qualquer modo.
Trabalhar de casa não é estar parada! Não percebes?
Fazes o que tens a fazer enquanto eles vêem desenhos animados. Que drama.
Leonor tenta argumentar, mas vê-lhe o rosto cansado, irritadiço. Cala-se. Ao menos ao sábado podia, finalmente, plantar os tomates.
Está bem suspira. Que traga os miúdos.
De manhã, Filipa aparece perto das onze. Leonor abre a porta e fica em choque: a cunhada aparece com um vestido novo, cabelo impecável, maquilhada como para um jantar, não para entrevistas de emprego.
Que alma caridosa! Salvas-me mais uma vez! empurra Diogo e Marta para dentro. Ai, o saco ficou no carro! Espera.
Volta, coloca o saco nas mãos de Leonor.
Estão aí fraldas, muda de roupa, está tudo. Vou-me já embora!
A porta bate. Leonor fica com dois miúdos e um saco meio vazio. Rui está na garagem, a mexer no carro, prometeu ajudar o vizinho.
Por volta da uma, Diogo fartou-se dos bonecos e começou a correr pela casa. Marta já ficou rabugenta: ora quer comer, ora quer beber, ora quer colo. Leonor tenta dar resposta, entre a cozinha e os miúdos.
Às duas, Rui espreita:
Como é que estão?
Podes ficar com eles uns minutos? Tenho que plantar a horta, não posso deixar passar mais.
Sim, deixa-me só lavar as mãos.
Leonor sai, pega nos vasos com tomates, prepara-se para o trabalho na terra. Não se passa dez minutos ouve um estrondo, seguido de choro.
Larga tudo e corre para casa.
Na sala, Rui sentado no sofá com o telemóvel. Diogo no meio do chão, rodeado de cacos de barro, terra espalhada, mudas partidas. As tais que andou dois meses a cuidar no parapeito.
O que aconteceu?
Subiu ao parapeito Rui nem tira os olhos do telemóvel. Não cheguei a tempo.
Leonor olha o caos, a terra, os caules frágeis já mortos. Dois meses dedicados àquelas mudas, à rega, ao sol, à paciência.
Tia Leonor, está zangada? Diogo aproxima-se, assustado.
Não, querido Leonor agacha-se a juntar os cacos. Vai ter com o tio Rui.
Só então ele pousa o telemóvel.
Que se lixe, são só tomates. Compras outros.
Ela nem responde. Sente um nó na garganta. Não eram só tomates; era o bocadinho de sonho que adiou por causa dos filhos dos outros.
Às cinco, Filipa não aparece. Às seis, avisa por mensagem: Atraso-me um pouco. Às sete, silêncio. Leonor liga, mas está desligado.
Às oito ouve um carro potente à porta. Espreita um BMW preto para junto ao portão. Carro caro, nada de oficina.
A porta abre e Filipa sai. Animada, bochechas rosadas, titubeando nos saltos. Um homem de quarenta conduz, de cabedal.
Obrigada, Rodrigo! Depois falamos!
O carro arranca, Filipa avança para a porta e cruza-se com Leonor.
Olá! Desculpa o atraso, encontrei um amigo depois da entrevista, deu-me boleia.
Leonor sente-lhe o cheiro a vinho e licor. Não houve entrevista, nem oficina. Filipa usou as crianças como desculpa para sair.
Como correu a entrevista? pergunta, controlando o tom.
O quê? Ah, correu bem. Disseram que ligavam.
E a oficina?
Filipa hesita.
Fiquei marcada para a próxima semana. Está tudo cheio.
Mentira. E nem cora.
Olha que na quarta também precisava Mais uma entrevista, podes?
Não.
Sai-lhe seco e firme. Filipa ergue o olhar.
Como assim, não?
Tenho os meus compromissos.
Filipa franze o sobrolho, depois faz beicinho, olhos úmidos.
Leonor, sabes a dificuldade que tenho tido. Só vos tenho a vocês. Pensei que sempre podia contar, afinal és de família. E nem um dia podes ajudar
Já estou há três semanas a ajudar. Mas não sou ama nem creche.
Que se passa contigo? a voz endurece. Só por umas horas, são teus sobrinhos!
Não são meus filhos Leonor espanta-se com a própria calma. São teus, Filipa. A responsabilidade é tua.
Rui aparece à porta. Ouviu o fim.
O que se passa aqui?
Filipa vira-se logo para ele, voz trêmula.
Mano, a tua mulher não quer ajudar-me. Peço só por um dia, e
Ela finge-se de vítima e vai para o carro.
Devias ser mais boa pessoa, Leonor. Mais compreensiva.
Chama o táxi de má cara. Enquanto espera, não olha sequer para Leonor. Leva os miúdos já meio a dormir. Sai sem agradecer.
Leonor fica à porta, com a estranha sensação de culpa. Terá exagerado?
Rui observa o carro, depois volta-se para ela.
Era preciso ser assim?
Ser como?
Ela pediu com educação. E tu não acaba a frase, entra para dentro.
Uma semana de silêncio. Depois Rui chega do trabalho e, logo à entrada:
A Filipa ligou. Entrevista importante. Deixas ir mais uma vez?
Rui, já
Só desta, prometo. Se ela passar dos limites, eu falo com ela.
Leonor olha-o bem nos olhos. Entre a mulher e a irmã, sente-se dividido.
Está bem. Última vez.
No dia seguinte, Filipa aparece a correr, beija os miúdos.
Obrigada, obrigada! Tenho que sair.
A porta bate. Leonor fica com Diogo e Marta.
Ao almoço, sem pensar, abre o telemóvel para ver emails. No feed aparece-lhe o rosto da cunhada. Foto nova. Filipa numa esplanada, rodeada de gente, copos, alguém a abraçá-la. Encontro com a malta do liceu! Que saudades da vida normal.
Publicada há vinte minutos.
Leonor olha fixamente para o ecrã. Nenhuma entrevista, nenhum médico ou oficina. Filipa simplesmente larga os miúdos e diverte-se. E o ex-marido talvez não fosse assim tão canalha. Talvez só se tenha fartado.
Manda mensagem a Rui:
Vem tratar dos teus sobrinhos.
O quê? Estou no trabalho.
Então que venha a tua mãe. Eu não fico mais.
Leonor, porquê?
Vê o perfil da tua irmã. E depois falamos.
Silêncio. Depois um suspiro.
Vou tentar sair mais cedo.
Rui chega duas horas depois. Olha para os miúdos, para Leonor.
Vi a foto.
E então?
Talvez fossem mesmo colegas de escola
Rui, ela vem sempre com copos. No outro dia, apanhou boleia de um tipo num jeep topo de gama. Não percebes?
Mas são meus sobrinhos ele eleva a voz. Não têm culpa.
E eu tenho? Estes filhos não são meus, não sou obrigada a cuidar deles. Se quiseres ajudar a tua irmã, ajuda. Mas não à minha custa.
É a minha irmã!
E foi ela que arruinou a família. Agora arranja tempo para sair às custas dos outros.
Isso não é justo!
É a verdade. Inventou sempre desculpas, sempre se arranjou para safar-se. Ou não percebeste?
Rui fica calado. Esfrega a cara.
Pronto diz, baixo. Estou a perceber.
Filipa aparece tarde, os miúdos já a dormir no sofá, tapados. Entra de mansinho, começa logo a desculpar-se o trânsito, o telemóvel ficou sem bateria mas Rui corta.
Filipa, acabou.
Acabou o quê? pisca, confusa.
Isto de deixares os miúdos e desapareces o dia inteiro. Não somos amas.
Permanece em silêncio, percebe que não ganha ali.
Foi ela que te fez a cabeça?
Não. Fui eu.
Filipa suspira, pega em Diogo ao colo.
Está tudo dito. Família, pois.
Sai, fecha a porta com força, nem obrigada.
De manhã, sentados à mesa, o telemóvel toca no visor, Mãe.
Rui atende.
Sim, mãe?
Leonor só ouve aos bocados a voz aguda da sogra, indignada.
Assim é que é? Não ajudam a vossa irmã? Eu não posso, sabes bem
Mãe, nós também temos vida.
Ah, agora só pensam em vocês! Agora que têm casa nova, perderam a decência!
Desliga. Rui pousa o telemóvel.
Ficou magoada.
Já percebi.
Ficam em silêncio. Lá fora brilha o sol, dentro de casa apenas um vaso vazio, restos das plantas que nunca chegaram à horta. Leonor pensa: mudaram-se ali à procura de paz, de espaço só deles, e acabaram com problemas dos outros, e uma família que só os vê como devedores.
Rui pousa a mão sobre a dela.
Desculpa diz, voz baixa. Devia ter travado isto antes.
Leonor não responde. Aperta-lhe só a mão. Não foi uma vitória. A sogra está ofendida, Filipa está furiosa, adivinham-se meses de guerra fria. Mas, pela primeira vez em semanas, sente algo parecido com alívio. Disse não. E o marido ouviu-a.
O resto? Logo se vê.







