— Este é o filho do Igor…

Este é o filho do Rui…

Esta história aconteceu há bem pouco tempo, num apartamento confortável no quarto andar de um prédio de nove andares, no centro de Lisboa. Vivia ali uma senhora reformada mas ainda ativa, mulher sozinha chamada Isilda.

A vida da Isilda não prometia nada de muito extraordinário ou inesperado. Tudo estava num ritmo estável: reforma, trabalho em part-time, amigas, visitas aos netos em Coimbra e ajuda à mãe idosa que morava sozinha em Almada.

Esse dia era igual a tantos outros.

De manhã, Isilda telefonou à mãe para saber como estava.

Sim, era um dia como outro qualquer. Sábado. Isilda, mesmo depois de reformada, trabalhava de vez em quando fazia receção numa clínica privada, respondendo a chamadas e marcando consultas. Hoje, porém, era dia de ir a casa da mãe ritual diário ao qual já tinha pouca paciência, suspirando sempre antes de sair.

Ir até lá? Dois quarteirões. Tranquilo Cozinhar umas coisas? Nem por isso. Ela tinha ainda o caldo verde e o pão de ontem. Mas o quinto andar de Almada, sem elevador Ai, Senhor! E ainda ouvir as queixas da mãe As dores, as doenças, os diagnósticos sempre refeitos com base nos conselhos das vizinhas ou das dicas que apanhava na televisão.

Mais difícil era ouvir que os conselhos de médica da filha não valiam porque Isilda não percebia nada daquilo. E isto apesar de Isilda ter sido durante quase quarenta anos enfermeira numa clínica em Lisboa.

O que percebes tu disso? Só sabes passar bisturi!

Isilda ainda pensou que precisava de passar pelo Pingo Doce, a caminho de Almada. Deixou o lixo à entrada, aproximou-se do espelho para passar um batom. Para uma mulher de sessenta e tal anos, e apesar dos pés de galinha, parecia mais nova. Fisionomia simpática, cabelo curto loiro-mel e brincos bem grandes. Só as bochechas estavam um bocadinho mais caídas.

Tenho de trazer pão de centeio e manteiga para a mãe, pensava ela, a contornar os lábios, quando a campainha tocou.

A entrada do prédio tinha videoporteiro. Quem seria? Talvez a vizinha Dona Zélia, que às vezes aparecia para o chá.

Mal Isilda abriu a porta, encontra à sua frente uma rapariga loura, cabelo preso, t-shirt às riscas, cardigan comprido, calças de ganga, mochila às costas. É que, na altura, Isilda só viu a cara da rapariga e o bebé embrulhado num cobertor castanho nos braços dela.

Olhos semicerrados, expressão tensa, um suspiro rápido, aproximou-se e estendeu o embrulho:

Isto é para si!

Isilda, por instinto, pegou no bebé ainda com o baton na mão. Sentiu o peso, olhou em baixo Meu Deus, era mesmo um bebé!

Quando olhou outra vez, a rapariga já descia as escadas a correr.

Isilda ainda foi atrás, atordoada, sem perceber porque lhe deram um bebé.

É filho do Rui, eu tenho de estudar e a rapariga sumiu, escadas abaixo.

A porta do prédio fechou-se.

Isilda ficou ali, imóvel, à espera, a pensar que a rapariga voltaria. Depois, com o bebé ao colo, entrou em casa e reparou que, para além do seu saco de lixo, estava outro alheio na entrada.

Ai, Senhor, o que é isto? Um bebé de verdade! E disse mesmo filho do Rui? Disse mesmo Rui? A Isilda só teve um filho o Nuno, casado, dois netos, todos a viver no Porto, e Isilda ali em Lisboa. O marido José morreu há cinco anos.

Nada fazia sentido.

Recompôs-se, sentou-se com o bebé nos braços no sofá. Sim, a rapariga disse Rui.

Mas que Rui? O filho era Nuno, não Rui.

Dentro do cobertor, um conjunto de algodão bege, bebé minúsculo, menos de um mês, com uma chucha de sapinho.

Calma, pequenina, afagou a criança, que ressonou e voltou a adormecer.

Isilda decidiu ver o que estava dentro do saco que a rapariga deixou: duas biberões, uma lata de leite em pó, fraldas, algumas mudas de roupa.

Ainda estava à espera. De certeza que a rapariga batia outra vez à porta, pedia desculpa, e o dia seguir-se-ia normal: lixo, supermercado, mãe

Aproveitou para acabar a maquilhagem, olhou para a rua à espera de ver a rapariga.

Onde estaria? E que falta de respeito!

Entretanto, o bebé começou a chorar. Isilda ficou ali, sem jeito, a pensar se devia trocar a fralda, alimentar a criança. Não era seu direito pensava.

Mas teve mesmo de despir o bebé e trocar-lhe a fralda.

Agora, começou o verdadeiro medo a responsabilidade. De repente percebeu: deixaram-lhe uma bebé!

Rui Rui O filho gostava de sair, sim, na juventude. Tinha-lhe ralhado muitas vezes por causa das namoradas. Mas isso era passado. Agora era feliz, vivia para a família e trabalho. Tinha acabado de pagar a casa, compraram carro novo, os miúdos crescidos

Pronto, meu amor, já passa, vamos mudar a fralda.

Meu Deus, será que a mãe desta menina a abandonou?

Enquanto pensava, as mãos de Isilda, na memória de muitos cuidados, depressa trataram da miúda: fralda, roupa, colo, biberão a preparar.

Nisto, tocou o telefone.

Porque não atendes? era a mãe dela.

Estava ocupada, mãe.

Já estás no supermercado?

Ainda não.

Podias trazer peras, mas das boas, não aquelas de ontem, as de antes de ontem é que eram mesmo docinhas, com aquela pontinha e cor avermelhada…

Isilda mal ouviu, a bebé agitava-se e chorava. Despachou a mãe, preparou o leite.

Agora, era altura de agir.

Nuno!

Final de maio em agosto ele esteve em Braga em trabalho. Terá usado outro nome? Rui? Será possível?

Apesar de tudo, não se decidiu a ligar para a Polícia. E se o bebé era realmente do filho?

Isso seria um escândalo, a nora nunca lhe perdoaria.

Entretanto, deu de comer à menina. Ao vê-la alimentar-se com tanto gosto, Isilda quase se enterneceu estava a sentir saudades destes momentos.

Quando a menina dormiu, ligou ao filho o número estava desligado.

Que azar

Decidiu esperar. Não queria meter o filho em apuros. Talvez a rapariga viesse buscá-la. Tinha ar de estudante, normal, não parecia alguém de má vida.

Nem pensar contar à mãe seria só dramatizações, previsões funestas e sermões intermináveis.

Ligou ao neto mais velho, Tomás, e soube que o pai estava num trabalho algures no Alentejo, sem rede, e só voltava dali a dois dias.

Oh Tomás, vocês podiam dar notícias à avó! resmungou ela.

No fundo, sabia que o filho andava sempre em viagem e não tinha que dar satisfações. Mas queria tanto falar com ele naquele momento

Ligou à nora, Ana, pediu que dissesse ao Nuno para ligar à mãe à noite.

Aconteceu alguma coisa, mãe? respondeu Ana.

Não, só quero muito que ele me ligue. Por favor, filha

Ana prometeu.

Depois, telefonou à mãe, mentiu dizendo que torceu o tornozelo e não podia lá ir hoje. Explicou que ainda tinha comida e pão suficiente.

A mãe resmungou, ameaçou ir ela (mas o quinto andar), preocupou-se e voltou a ligar mais cinco vezes.

Depois deste telefonema, Isilda sentiu-se mais relaxada. Tirou as calças, vestiu o vestido de casa e sentou-se ao lado da bebé. Agora, com tranquilidade, pensava na situação absurda.

O que me impede de contactar a Polícia e tirar este peso? O medo pela reação do filho, talvez. E aquela sensação de que a rapariga não era bandida, mas sim desesperada.

Precisava de falar com alguém. A quem mais senão à amiga de sempre?

Vitória, vais achar isto um disparate. Deixaram-me um bebé

Vitória, em vez de se assustar, começou logo a deduzir, prometendo passar lá assim que saísse do trabalho.

Sem dramas, Isilda. Vamos resolver isto! O pior seria precipitar-te.

Achas que não devo avisar a Polícia?

Espera mais um pouco. Temos de encontrar esse Rui.

Meu Deus, Vitória, mas que Rui? O pai do bebé?! No prédio não conheço nenhum Rui.

Pode ter-se enganado na porta insistiu Vitória. Ou então o Nuno andou a meter-se em sarilhos.

O dia passou a cuidar da menina. Isilda foi pesquisar sobre cuidados a recém-nascidos. Deu-lhe banho, trocou-lhe a roupa, e até lhe cantou um fado baixinho.

Mãe ligou outra vez queria saber se amanhã podia lá ir. Isilda acreditava que até lá tudo estaria resolvido.

À noite, chegou Vitória e lançou-se à investigação. Analisou os pertences da bebé, foi de porta em porta sem mencionar a criança disse estar à procura de uma carta para o Rui.

Consegui! exclamou do corredor.

Fala mais baixo, que a bebé acabou de adormecer.

Alegremente, Vitória contou que havia um Rui no sexto andar, provavelmente o pai da miúda.

Aposto que a rapariga trocou de andar.

Mas e se ele não souber de nada?

Só se formos lá Vais ver, disse, decidida.

Subiram sem fazer barulho, tocaram na porta.

Quem é? voz de idosa.

Procuramos o Rui, respondeu Vitória.

Abriu-se a porta e apareceu uma senhora idosa bastante curvada, que foi chamar pelo neto:

Rui! Mais alguém à tua procura!

Veio então um rapaz de aparência cansada, robusto, barbicha, olhar desconfiado.

Vêm pelo computador?

Computador? Não, é por outra razão. Olhe, Isilda ficou com o seu filho, por engano.

O rapaz ficou incrédulo.

Filho? Não tenho filhos!

Pois Nós achamos que foi engano. Tem mesmo a certeza de que não teve nenhuma relação o ano passado?

Não, nada disso. Aliás, nem oportunidades tive. Tem a certeza que foi a mim?

Não sabemos. A rapariga não se identificou, lamentou Isilda.

Quiserem mostrar-mo? sugeriu o rapaz, já com algum nervosismo.

Por acaso, trabalha com informática? interrompeu-se Vitória.

Sim! Trabalho de casa, sou blogger. Se quiserem, faço um post a pedir informações sobre a mãe publicamos uma foto do bebé

Não, obrigada. respondeu Isilda. Não queria escândalos nem especulações.

Pronto, se precisarem de ajuda, estou quase sempre por aqui.

Elas despediram-se e desceram.

E então? perguntou Vitória, intrigada.

Não me parece. É daqueles que só saem de casa para ir à mercearia. Não mentiu.

Até à noite, o filho não ligou; a nora esqueceu-se e explicou-se depois com desculpas de ter tido demasiado que fazer.

Onde é que já se viu! Amanhã ligo à polícia!

Nessa noite, o sono não veio fácil. Isilda acordava a cada movimento da bebé, alimentava-a, embalava-a.

De manhã, a mãe a telefonar:

Vais passar? Preciso que tragas fruta, mas das peras boas

Já decidida, Isilda decidiu dar um passeio com a bebé. Pôs-lhe uma roupa novinha a menina estava bem cuidada. Foram ao supermercado. Pela primeira vez, sentiu prazer em andar por ali acompanhada.

Chegou a Almada e a mãe estranhou:

Mas o que é isso?

Não é isso, é quem. Toma lá as compras, entregou os sacos, seguiu para a sala e deitou a pequenina, atirando-se ao sofá.

Mas de onde veio?

A Nadinha pediu-me para ficar com a neta. Está na cabeleireira, é só por uma hora.

E torceste o pé?

Já passou.

Acabaram à volta da bebé, fascinadas. A mãe esqueceu as dores para olhar para a menina.

Olha como agarra o dedo! E como se chama?

Não perguntei, é só por uma hora. Nem tive tempo.

Ai filha, e pegas num bebé sem saber o nome?

No regresso, Isilda ia escolhendo nomes na cabeça, sem saber porquê.

Chegou a casa e recebeu um SMS: o número do filho estava disponível! Ligou de imediato.

Ó mãe, estás maluca? Eu sou casado! reagiu o filho, depois do relato confuso que ela fez.

Mas deixaram aqui a menina, disseram que era filha do Rui, e se fosse tu desabafou Isilda.

Mãe, tu chamaste-me Nuno, não Rui! Deve ser engano. Liga à polícia.

Sim, filho, sim. Agora vou preparar leite fresco. Vou já tratar disso.

Liga já! Estou preocupado contigo.

Mas Isilda não ligou. A bebé precisava de comer, a fralda estava suja, havia tanto para fazer! Depois, contactaria a Vitória.

E depois? Eles deviam entregar a menina à Segurança Social. Mas conhecia bem os hospitais públicos, e nenhum seria melhor do que a sua casa, pensava ela.

No dia seguinte teria de trabalhar um turno inteiro. E isto tecnicamente era crime ficar com uma criança sem informar ninguém.

Ainda assim, tratou da bebé, já com cansaço, mas sentindo que os seus dias ganhavam cor.

Adormeceu no sofá, a menina ao colo, num daqueles momentos de comunhão silenciosa.

Mal dormia quando ouviu a campainha.

Onde está? Para onde a levou? Porque não avisou ninguém? A rapariga estava à porta, cabelos despenteados, t-shirt e calções, olhos inquietos.

O quê? Isilda ainda estava adormecida.

Disseram-me que não era aqui mas só pode ser os olhos pediam uma resposta.

Isilda abriu espaço e deixou-a entrar. A rapariga procurava desesperadamente por alguém.

Ela está ali, apontou Isilda, de repente séria.

A rapariga entrou, viu a filha, desatou a chorar sentada no tapete. De soluços, foi amparada por Isilda, que lhe deu água, depois chá e chocolate, como sabia fazer.

Coma, menina. Senão ainda me desmaia aí.

Entre lágrimas, explicou-se: a Isilda não tinha chamado a Segurança Social.

Pensei que me tiravam a menina Ai, obrigada enganei-me

Chamava-se Catarina e a menina Vera.

A história era simples e triste. Catarina era estudante de enfermagem na Escola de Saúde de Lisboa tal como Isilda no passado. Cresceu num aldeia perto de Bragança.

No verão anterior apaixonou-se. O namorado, um lisboeta chamado Rui, prometera casamento, disse-lhe que a mãe seria um anjo.

Mas depois do Natal, Rui sumiu, bloqueou-a do telefone.

Sabia que ele estudava em Lisboa, tinha alguns dados, mas ninguém lhe quis dar informações.

O pai dela, descontente, expulsou-a de casa. A madrasta dizia que faria o que pudesse, mas não havia dinheiro. A tia materna mandava algum para Lisboa; pouco, mas ia dando para alimentar-se.

Catarina queria acabar o curso. Depois de nascer a Vera em Lisboa, não podia voltar ao quarto nem ao lar. Dormiu duas semanas na casa de uma amiga, mas depois não pôde ficar mais.

Exames à porta, sem ninguém para ficar com o bebé, e depois surge no Facebook a imagem do Rui com outra rapariga.

Catarina, cansada, foi até ao prédio da mãe dele e deixou ali a filha, convencida de que a avó saberia cuidar dela até ao fim da época de exames.

Mas Rui nunca disse nada à mãe, nem sequer sabia da existência da bebé. A Catarina, desesperada, volta atrás, descobre que se enganou não só no prédio como no andar.

Vi fotografias da mãe dele e achei-a parecida consigo. A mesma maneira de cortar o cabelo

Isilda riu-se, abismada.

Dizem que o maior disparate é criar uma maravilha e rejeitá-la. Olhei tanto para a menina que só pensava: que mãe seria capaz de a abandonar? Ainda bem que voltou. E agora? Vai levá-la para casa do Rui? Da mãe dele?

Nem pensar! Chega de dores. Fico na residência universitária, depois penso. Não quero incomodar mais, a senhora já passou por tanto.

Opcional é, mas fique hoje aqui. Vivo sozinha, há espaço, até o Nuno diz que devia alugar um quarto. Fique ao menos este mês. Quando tem o exame final?

Depois de amanhã, mas

Catarina bem tentou recusar, mas Isilda já preparava as mantas e a roupa, falando baixinho, organizando tudo. Pediu-lhe que ficasse, tratou de deixar leite preparado, foi buscar o telefone.

Não é do Nuno, Vitória. Ele ligou. Nem do vizinho! Tenho a menina aqui. Voltou. Não vou mandá-la embora. Ainda bem que não liguei à polícia!

O leite materno não secou. Catarina fez os exames, foi aprovada com bom. Passou a ir muitas vezes com Isilda a casa da mãe em Almada agora já eram duas a subir os cinco andares.

A mãe da Isilda ouvia melhor os conselhos da Catarina, exclamando:

Sabes, a menina tem os conhecimentos frescos! Uma sabida!

Depois de tudo, Catarina aceitou uns turnos na Cruz Vermelha que Isilda arranjou pelas suas ligações antigas. Era empenhada, adorava medicina.

O vizinho Rui acabou por pedir auxílio a Catarina para tratar da avó: injeções e companhia.

No fim, Catarina mudou-se, com Vera, para dois andares acima de Isilda para tratar da avó do Rui, e curar, devagarinho, a desilusão de um amor e refazer o seu próprio futuro, cada vez com letra mais firme.

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— Este é o filho do Igor…