Eu estava a lavar a loiça quando o meu marido irrompeu pela cozinha a gritar. Mais uma vez a mãe dele. Mais uma vez aquele velho desconfiar. Chega.
Porquê é que disseste à minha mãe coisas sobre o dinheiro?!
Maria do Carmo estava junto ao lava-louças, a enxaguar o último prato, quando o António entrou de rompante. Entrar não é o termo certo ele entrou mesmo a correr, tenso, os punhos cerrados, o rosto contraído. Ela estremeceu e deixou cair o prato na água ensaboada.
O quê? António, o que se passa contigo?
Nem penses em fazer-te de parva! Explica-me o que é que se passa!
O António ficou parado no meio da cozinha. A camisa dele estava amarrotada, embora a Maria a tivesse passado a ferro de manhã. Sempre que se zangava era assim: mexia-se bruscamente, caminhava sem destino, com uma inquietação sem nexo.
Acabei agora mesmo de falar com a minha mãe. Diz-me ela: “António, a tua mulher transferiu o dinheiro que vocês andavam a juntar para o carro.” Queres explicar-me o que é isto ou não?
A Maria fechou a torneira devagar. Ainda tinha as mãos nas luvas de borracha amarelas, tirou-as com calma, uma a uma, e pousou-as na borda da banca. O coração dela já não batia no peito, mas na garganta.
Oh, António, espera. Que dinheiro? Do que é que estás a falar?
Não faças de conta que não sabes! A minha mãe disse que levantaste uma quantia grande. De onde veio o dinheiro, e para onde foi?
De que conta?
Da nossa conta conjunta!
António. Acalma-te e ouve o que eu tenho a dizer.
Estou calmo!
Disse-o com tanta força que a loiça secava tremeu dentro do armário. A Maria olhou para ele. Ele estava vermelho, os olhos duros e estagnados. Ela conhecia aquele olhar. Não era frequente, mas era-lhe familiar, e odiava-o.
Eu não levantei nada dessa conta. Nenhum cêntimo.
Então o que é que a minha mãe está para ali a inventar?
A Maria encostou-se à banca. Lá fora, o sol batia forte naquele domingo típico; tinha andado de manhã a pensar nos cortinados e se não seria agora a altura de mudar a cómoda para perto da janela. E agora isto.
António, aposto que a tua mãe se enganou em alguma coisa.
A minha mãe não se engana!
Toda a gente se engana, António.
Não fales assim dela! Ela falou da folha de movimentos, disse que viu lá os valores!
Que folha de movimentos? Foste tu que lhe mostraste?
Mal acabou de o dizer, arrependeu-se. Era assunto sensível. A Dona Amélia já se habituara há muito a meter o nariz em tudo o que diz respeito a eles, e para o António isso era o mais natural do mundo: “É minha mãe, não é estranha.”
Não fui eu que mostrei. Ela telefonou e eu contei por alto.
Por alto.
Não fujas ao assunto! Porque é que aparecem transferências tuas no telemóvel do meu pai?
Foi aí que percebeu. Caiu-lhe a ficha. A Maria suspirou. Chegou-se à mesa e sentou-se no banco.
Senta-te, António, está bem? Vamos falar com calma.
Fico de pé.
Como quiseres. António, ouve: o pai, o mês passado, comprou o carro. Sabes bem.
Que carro?
Vá lá, António. Falei-te disso. O meu pai quis comprar um Fiat velho, para ir à terra ao fim de semana. Ele está lá sozinho, só há autocarro uma vez por dia e nem sempre aparece. Não tem transporte nenhum.
E então?
O meu pai nunca se entendeu com aplicações. Tem medo dos cartões, sabes como é o pessoal antigo. Dizem sempre: “Prefiro dinheiro nas mãos, não vá alguém enganar-me.” Expliquei-lhe que o vendedor só aceitava transferência. O meu pai deu-me o dinheiro vivo, eu meti-o na minha conta e fiz a transferência para o homem. E foi só isto, António. É esse o grande segredo.
O António ficou calado.
Era dinheiro dele, António. Não nosso. Ele entregou-me as notas em mão e eu apenas fiz o pagamento por transferência. Não mexi um cêntimo da conta.
E não me contaste porquê?
Porque era coisa entre mim e o meu pai. Tenho eu que dar-te conta de todos os passos do meu pai?
Tens que me avisar quando passa dinheiro de outras pessoas pela nossa conta!
Não são outras pessoas. É o meu pai.
Dá no mesmo! Sou eu ou não sou eu o homem da casa?! Afinal, eu estou cá para quê?!
Essa palavra “para quê” ficou suspensa. Ela olhou-o demoradamente. Ele estava ali, no meio da cozinha, já menos vermelho, mas ainda irrequieto. E sentiu-se subitamente exausta. Não naquele momento, não por vinte minutos. Muito antes disso. Por anos.
És o meu marido, António. Mas agora mesmo entraste aqui e atiraste-te a mim sem sequer perguntares nada. Acreditaste logo na tua mãe. E eu aqui, a justificar-me.
Não atirei nada.
António.
Pronto, pronto, pode ter sido de mais…
Estavas a gritar.
Ele calou-se. Fitou o frigorífico a fotografia deles dos tempos de férias, já antiga, ambos mais novos, a rir. Depois olhou a rua pela janela.
Está bem. Pronto, pode ser.
Pronto, repetiu ela em voz baixa. Sem ironia.
Maria, compreende: a minha mãe ligou-me, disse aquilo tudo, eu fiquei… nem sei.
O que é que ela te disse, exatamente?
Que tinhas transferido dinheiro. Uma quantia grande.
Ela sabe quanto custou o carro ao meu pai?
Não faço ideia.
Nem eu. Mas pelos vistos ela sabe. E veio logo dizer-to a ti. E tu correste.
Não corri. Vim perceber.
A Maria levantou-se do banco. Aproximou-se da janela. Lá fora tudo calmo, as bétulas já com folhas novas, o ar certamente fresco. A gata da vizinha estava sentada no muro, tranquila.
António, vou dizer-te uma coisa e não quero que leves a mal.
Diz lá.
Não gosto nada que a tua mãe saiba mais das nossas finanças do que eu gostaria. Percebo que lhe confies. Mas nós temos a nossa vida. E para ela andar a ligar-te a contar histórias sobre transferências minhas… António, não é o normal.
Tu simplesmente não gostas dela.
Não é disso que se trata.
É sim, sim. Sempre que há chatice, para ti, a culpa é da minha mãe.
A Maria fechou os olhos por um segundo. Inspirou fundo.
Lembras-te, há três anos, aquela vez que ela te ligou a dizer que eu gastava demais nas compras?
Lembro-me de qualquer coisa…
Pegou nas tuas faturas, fez contas. Disse que eu comprava coisas a mais. Depois tu pediste-me: Maria, vê lá se não gastas tanto. Recordas?
Ela só queria ajudar…
Queria era saber o que a gente gasta. Só isso.
Não estás a ser justa para ela!
Está bem. Agora, o ano passado. Eu fiquei no trabalho até tarde, estávamos a fechar o trimestre. Cheguei quase às dez. A tua mãe liga-te e insinua: “Com quem anda a Maria tão tarde?” Lembras-te do que me disseste?
O António encolheu-se.
Bem…
Disseste-me: Maria, tens a certeza que estavas com os teus colegas? Assim mesmo. A duvidar. Foi a primeira vez em anos.
Era só para confirmar…
Antes nunca te ocorria precisar de confirmar. Confiavas. Bastou a tua mãe dar uma dica e já ficaste nervoso.
Oh, Maria…
E mais uma: Ela viu-me com o Manuel da Silva, o vizinho que me ajudou com os sacos das compras porque eu vinha carregada. Um vizinho, António, de quem somos vizinhos há uns quinze anos. Sabes o que ela te disse?
O António calou-se.
Disse que me viu “com um homem”. Assim mesmo, com ênfase. E tu passaste três dias a quase não me falares. Três dias, António. Porque um vizinho me ajudou com os sacos.
Eu não pensei nada de mal…
Pensaste. Só não disseste.
Ele virou-se para ela. Olhou-a. Havia nos olhos dele algo novo, já não zanga, qualquer coisa como confusão. Abriu a boca, depois voltou a fechá-la.
Maria…
Não quero discussões, António. Não quero mesmo. Mas isto que aconteceu hoje não foi a primeira nem a segunda vez. Sempre que a tua mãe fala, tu vens ter comigo feito acusador. Sem perguntar, sem pensar. Acreditas logo nela.
Ela não faz por mal.
Talvez. Mas o resultado é sempre o mesmo: tu olhas-me com desconfiança. Eu estou sempre a provar que não sou culpada. Estou cansada, António. Sinceramente.
O que é que queres de mim? Que não fale com a minha mãe?
Não. O que quero é que fales comigo primeiro.
Disse isto sem drama, sem lágrimas. Disse, e foi como colocar uma pedra pesada na mesa.
O António ficou a olhar para ela. Depois olhou para o chão. Depois voltou a olhar para ela.
Maria, eu não sabia do teu pai…
Podias perguntar. Só isso: Maria, a minha mãe disse isto. O que se passa? Uma frase.
Hum…
Mas tu entraste a gritar. Como se eu já fosse culpada.
Ele calou-se. Cozinha ficou em silêncio, só o frigorífico a trabalhar. O sol atravessava o chão da cozinha, indiferente a tudo.
A Maria olhou para o marido e pensou: ali estava ele, o António que ela conhecia há mais de vinte e cinco anos. Juntos criaram um filho, enterraram o pai dele, sobreviveram às mudanças e aos anos de vacas magras, às doenças, a tudo. Conhecia-lhe cada traço, sabia como ele respirava a dormir, como segurava a caneca com as duas mãos, sabia o quão bom e trabalhador era, que a amava. Tudo isso sabia.
E, mesmo assim, ali estavam os dois.
António, sai, por favor.
Ele estremeceu.
O quê?
Peço-te que saias da cozinha. Preciso de ficar sozinha.
Maria, não faças isso…
Por favor.
Ele ainda ficou parado mais um instante. Depois saiu. Não bateu a porta, saiu em silêncio. Ela ouviu-o atravessar o corredor. Ouviu depois a porta da sala a ranger.
A Maria virou-se para o lava-louças, pegou na loiça e continuou a lavar. As mãos iam funcionando sozinhas, mas ela olhava pela janela e pensava que precisava de ligar à Leonor. A Leonor Mendes, a amiga dos tempos do liceu, aquela que sempre sabia ouvir sem fazer julgamentos nem dar conselhos a torto e a direito.
Ou talvez nem precisasse de ligar. Bastava sair, meter-se no autocarro, ir lá, sentar-se, e respirar. Porque ali, naquela cozinha, entre o barulho do frigorífico e aquele sol indiferente, ela não podia mais.
—
Foi-se preparando devagar. As mãos tremiam-lhe. Abriu o roupeiro e ficou a olhar, quase sem ver, depois tirou um casaco de malha. Meteu-o no saco. Trocou por outro, o cinzento que a Leonor sempre a elogiava. Lembrou-se que o carregador do telemóvel tinha ficado na cozinha.
Entrar na cozinha custava-lhe. Não era por o António lá estar ouvia a televisão na sala, depois silêncio mas porque qualquer palavra, agora, pesava demais.
Entrou depressa, pegou no carregador, virou-se para sair.
Vais aonde? o António apareceu à porta.
A casa da Leonor.
Fazer o quê?
Preciso.
Maria, espera. Estás de cabeça quente…
Estou, sim. É isso mesmo.
Falamos?
Acabámos de falar, António. Trinta minutos. Expliquei-te tudo.
Mas quero falar a sério.
Ela fitou-o. O casaco na mão, ainda sem vestir, parada no corredor.
Agora é que queres falar a sério? Depois do que fizeste há pouco?
Eu não gritei!
António…
Ele fechou os olhos. Passou a mão pela testa.
Pronto. Talvez… Maria, não vás. Como dois miúdos, por amor de Deus.
Quando o nosso Zé era novo, se o corrigíamos, trancava-se na casa de banho por uma hora. Eram miúdos.
O Zé é diferente.
Pois é. António, volto mais logo. Preciso de respirar.
Vais-te embora, e eu fico aqui sem saber o que pensar?
Faz como quiseres. Vê televisão.
Maria!
Ela vestiu o casaco, fechou o fecho.
Não confias em mim, António. É isso. Vives comigo há vinte e cinco anos e não confias. Dói muito, António. Não é o grito, é isto.
Ele calou.
Volto ao fim do dia. Ou de manhã. Não sei.
Já ia a sair, a mão na porta. Ele ficou a olhar para ela, com um ar perdido que não via há anos. Era grande, já um pouco pesado, um fio de cabelo branco nas têmporas, ali parado no corredor sem saber onde pôr as mãos.
Maria… disse ele baixinho. Maria…
Ela saiu.
—
A porta bateu atrás dela. O António ficou parado no corredor. Entrou na sala, sentou-se no sofá. Levantou-se. Sentou.
O telemóvel estava sobre a mesa. Dois SMS da mãe: “Então? Falaste?” e “António, não me deixes sem resposta”.
Pegou no telefone, não fez nada por uns instantes. Depois levantou-se, caminhou até à cozinha, parou à janela. As bétulas lá fora, mexendo-se levemente. Tarde a cair, mas ainda clara. O cão rafeiro do vizinho corria pelo quintal.
Marcou outro número.
Sr. Manuel? É o António. Boa tarde.
Ó António! o sogro respondeu com aquele tom animado, meio surpreendido. Tudo em ordem?
Só queria perguntar: comprou o carro na semana passada?
Comprei, pois. Arranjei um Fiat velho. Bom negócio. O seu dono até era um tipo simpático. Agora já ando à vontade, a Maria ajudou-me com o pagamento que estas tecnologias são complicadas para mim, já sabe.
O António calou-se.
Ó António, está aí? Perdeu-se a chamada?
Não, não, estou aqui. Manuel, então foi o seu dinheiro?
Claro que sim, que havia de ser? Dei à Maria em cash, ela fez a transferência. É mesmo despachada essa rapariga. Olha, apareçam cá, tenho bolinhos de maçã. Antes que a Maria saiba, senão ralha comigo, diz que é açúcar a mais. Voltou a rir-se.
Passo por aí, Manuel. Obrigado.
Ora essa. Fico à espera.
Desligou. Pousou o telefone na mesa. Ficou uns segundos parado. Depois sentou-se, passou a mão pela cara.
Tonto.
Isso mesmo, tonto.
A mãe liga-lhe, faz filmes, e ele corre. Para quê? Para descarregar nas costas da mulher, que só fez ajudar o pai. Como sempre ajudou, a ele e a todos, porque era assim não sabia fechar a porta a ninguém.
E ele assim.
Viu-a mentalmente de luvas amarelas, a tirá-las com jeito, a falar calma e com aqueles olhos… Não percebeu logo, só agora. Ela não ficou magoada. Ficou cansada. Muito cansada.
E tudo o que ela disse dos talões do supermercado era verdade. E os dias em que ficou amuado por causa do vizinho, também.
Pegou no telefone de novo. Ligou à mãe.
António! Finalmente! E então, falaste com ela? Ela explicou?
Ó mãe, explicou sim.
E?
Era o pai dela a comprar um carro. Era dinheiro dele. O Sr. Manuel acabou de mo dizer. Está tudo certo.
Do outro lado fez-se silêncio.
Isso não muda nada, disse a mãe seca. Tinhas de saber que andava dinheiro estranho na vossa conta.
Ó mãe.
Não me interrompas, filho. Eu preocupo-me contigo. E se ela um dia…
Mãe, chega, disse, desta vez firme e baixo. Escuta-me. Digo-te isto agora, e não me interrompas.
Diz lá.
Desta vez exagraste. Ligaste-me, disseste tudo aquilo sem saberes ao certo. E eu fui descarregar na Maria. Agora ela saiu de casa, por minha culpa. Porque eu agi como um palerma.
António, eu só…
Ó mãe. Quase sempre é assim: tu dizes, eu vou questioná-la. Acaba por se saber que não era nada disso. Já chega, mãe. A minha vida é comigo e com a Maria. A nossa vida.
Só penso em ti…
Eu sei, mãe. Amo-te. Mas acaba-se aqui. Quando desconfiar de alguma coisa, liga e diz: António, esclarece-me. Não faças aquelas novelas e conclusões precipitadas.
Agora já estás só do lado dela…
Não é isso. Estou do lado da minha família. Eu e ela. Como deve ser.
Fez-se silêncio. O António ouviu o respirar da mãe.
Já disse o que tinha a dizer, afirmou. Amo-te, mãe. Depois falamos.
Desligou sem esperar resposta. Olhou para o telefone em silêncio.
A mãe ia amuar. Ou ligava mais tarde era mestra em mágoas longas, resmungos e silêncios. Mas agora era isto que tinha de ser dito. E devia tê-lo dito há anos. Não ter dito foi também culpa dele.
Ligou para a Maria.
Chamou, chamou. Caixa de mensagens.
Guardou o telefone, voltou à janela. As bétulas quietas, céu azul limpo.
Vestiu o casaco.
—
A Leonor Mendes abriu a porta, espantada. Mas percebeu tudo ao olhar de Maria.
Entra, disse apenas. Ponho água a ferver.
Sentaram-se na cozinha. A casa da Leonor era sempre acolhedora: cortinas de renda, o gato Vicente no parapeito, aroma de bolos de baunilha. Maria ficou calada, a Leonor aguardou, como sempre.
Estou cansada, Leonor, disse Maria, enfim.
Vejo.
Não estou assim por esta zanga. Uma zanga passa. Isto é outra coisa.
O quê?
Maria apertou a chávena com as duas mãos.
Ele não confia em mim. Damos-nos há vinte e cinco anos e basta a mãe dizer uma coisa e ele acredita nela, não em mim.
Ele confia sim. O problema é a mãe… tu sabes como a Dona Amélia é.
Sei. Mas a decisão é dele, não dela. É ele que escolhe se vai perguntar à mãe ou à mulher, e quase sempre vai pela mãe.
A Leonor calou-se.
Não o quero afastar da mãe, Leonor. Deus me livre. Quero é ter o meu lugar. Que seja a mim que venha quando haja dúvidas. Não ando a pedir coisas de mais.
Disseste-lhe isso?
Disse.
E então?
Saí.
A Leonor suspirou, serviu mais chá.
Fizeste bem. Que pense.
Tenho medo.
De quê?
Maria hesitou.
Que nada mude. Que ele diga que tenho razão, peça desculpa, e depois quando a mãe ligar, repete-se tudo. Não quero viver assim até ao fim.
As pessoas mudam, Maria.
Mudam. Devagar. Maria olhou a janela. Ou não mudam nunca. Como é que se sabe?
A Leonor encolheu os ombros. Não tinha resposta. E a Maria sabia disso também. Há perguntas que ficam no ar, sem resposta, e temos de aprender a viver com elas.
O Vicente mudou-se de lado no parapeito. Um carro passou.
Pronto, disse Maria. Tenho de ir.
Para casa?
Para casa. Não fui feita para ficar aqui a lamentar-me.
Ele ligou?
Maria tirou o telemóvel: uma chamada não atendida, António.
Ligou.
Pronto.
Não quer dizer nada, murmurou, mas já se estava a despedir e a vestir o casaco.
—
Foi de eléctrico, a ver as ruas. Lisboa já era primavera, um pouco suja depois das chuvas, mas pulsante de vida. Pessoas carregadas de sacos, crianças com bicicletas, um avô a dar migalhas aos pombos.
Pensou no pai.
Devia ir vê-lo na próxima semana. Ver se se orienta sozinho agora com o carro novo. Que não lhe falte saúde, que a idade pesa.
Pensou no filho, o Zé, que morava noutro lugar, raramente ligava, mas sempre que ligava, a conversa era boa. Bom rapaz. Mulher boa. Iam dar-lhe um neto, se tudo corresse bem.
Pensou nos cortinados: amarelos pálidos ou bege? Talvez bege.
O eléctrico parou. Chegou.
—
A porta de casa estava destrancada.
A Maria hesitou no limiar. O António raramente se esquecia. Tirou o casaco.
António?
Aqui, a voz dele vinha da sala, baixa.
Ela entrou. Ele estava sentado no sofá, sem televisão ligada, mãos nos joelhos. Duas chávenas na mesa talvez chá, talvez café.
Ergueu o olhar.
Voltaste, disse.
Voltei.
Ela ficou à porta. Ele levantou-se, sentou-se de novo.
Maria, liguei ao teu pai Manuel.
Já sei. Ele avisou-me.
É boa pessoa.
É.
E ofereceu-me bolinhos.
Ele gosta disso.
O silêncio era quase palpável. Ela sentou-se na ponta oposta do sofá. Pegou na chávena: era café.
Ligaste à tua mãe? perguntou.
Ele hesitou.
Liguei.
E então?
Disse-lhe que chega. Que resolvemos as coisas em casa.
A Maria olhou-o.
Verdade?
Verdade. Ficou magoada, claro. Conheces aquele tom dela.
Conheço.
Não faz mal. Tinha de ser. Podia ter feito isso antes.
Ela segurou a chávena entre as mãos. Ele estava ali, ligeiramente caído de ombros, com um ar mais verdadeiro do que nunca. Um pouco desalinhado, confuso, mas sem fugir.
Maria, perdoa-me, disse ele. Fui parvo. Nem pensei. A mãe ligou, perdi o tino. Não foi certo.
Não foi.
Eu sei. Pausa. Falavas do arranjo de manhã, dos cortinados.
António…
Vá! Se queres mudar, mudamos. A cor que escolheres. E fazemos umas férias, olha, vamos ao Algarve, só nós dois, disseste tantas vezes que querias ir.
Não é férias que preciso, António.
Eu sei. Suspirou. Só não sei que mais te oferecer. Não me sai nada de jeito.
A Maria pôs a chávena na mesa.
Só quero uma coisa simples. Disse devagar. Que confies em mim. Só. Não é difícil, António.
Confio em ti.
Hoje confiaste nela.
Ele ficou mudo.
Hoje, enganaste-te.
Errar uma vez não é grave. Grave é ser hábito, António. E eu tenho medo que volte a acontecer.
Não volta.
Não digas isso agora. Não quero promessas. Quero combinar.
Olhou-o de lado.
Combinar o quê?
Ela virou-se um pouco, de frente para ele.
Da próxima vez que a tua mãe disser algo sobre mim, vens perguntar: “Maria, é verdade?” Só isso. E eu digo. Este é o acordo. Podes?
Ele demorou uns segundos. Olhou-a.
Posso, disse. Posso sim.
Então está combinado.
Ficaram lado a lado no sofá. Uns vinte centímetros, não mais. Sem se tocarem, mas já sem distância.
Cá fora, a noite caía lentamente. As bétulas paradas, o céu a escurecer.
Ela vai voltar à carga, sabes sussurrou a Maria. A Dona Amélia. Vai amuar um mês, depois telefona de novo.
Eu sei.
E recomeça.
Eu sei.
Como pensas lidar com isso?
Ele demorou a responder. Ela gostava disso nele: pensava antes de falar.
Não sei ainda. Gosto dela, é a minha mãe. Mas estás certa: ela passa dos limites. Tenho que lhe falar, cara a cara. Explicar.
Vai chorar.
Vai. Mas não me faz estar errado.
Ela olhou-o, desviou o olhar.
Sabes que isto não se resolve de um dia para o outro?
Sei.
E que ela vai continuar a culpar-me?
Deixa pensar, respondeu ele, cansado mas convicto. Mas é contigo que quero viver, Maria. Os problemas são nossos. Não dela.
Ela acenou, devagar.
O café arrefecera. Bebeu-o assim mesmo. Frio, mas não importava.
Os cortinados, disse de repente.
O quê?
Talvez bege. Ou amarelos claros. Ainda não decidi.
Ele olhou-a; um pequeno sorriso nos lábios.
Ambos ficam bem.
Temos de ir à loja ver.
Vamos, disse ele. Quando quiseres.
Ela acenou. Ficaram ali sentados, a noite a cair lá fora, a sala quente da luz da mesa e daquela calma, mesmo na imperfeição.
Sabia bem que nem tudo estava resolvido. Amanhã, podia haver novo telefonema da Dona Amélia, nova conversa difícil. O António ia tentar, ela via-o, as palavras dele tinham peso. Mas uma coisa eram palavras, outra era o que vinha depois. Sabia-o melhor que ninguém.
Mas agora, naquele instante, estavam juntos no sofá. E isso era muito.
António, disse ela.
O quê?
Serve-me mais café. Quente.
Ele levantou-se em silêncio, pegou-lhe na chávena, foi à cozinha. Ela ouviu-o no barulho da água, da máquina de café.
Sentada a olhar a noite, pensava como a vida era isto mesmo: nem festa nem desgraça o tempo todo. O cansaço, os silêncios, as pequenas grandes dores. Mas mesmo assim, juntos. Mesmo assim, ao lado.
Ele voltou com duas chávenas fumegantes. Sentou-se ao lado dela. Deu-lhe uma.
Obrigada.
De nada.
Ficaram um tempo sem palavras. Depois o António, com cautela, pousou a mão sobre a dela. Ela não retirou a mão.
Maria, disse ele. O acordo. Viens ter comigo e perguntas, não é?
Vens perguntar.
E tu respondes?
Respondo.
Ele acenou.
É mesmo simples, murmurou.
É confirmou ela. Mesmo simples.
Lá fora, passou um carro, um clarão de luz. O café, quente e bom. Amanhã havia de ligar ao pai, saber da viatura nova.
E na loja dos cortinados, iam escolher juntos. Num domingo qualquer.







