Assava eu uns pastéis em casa quando, de repente, entra-me pela porta dentro um homem completamente desconhecido é o que ainda hoje conto a toda a gente, eu, Ermelinda Vieira. Naquele momento não me deu para rir, nem nada que se pareça. Só imaginem: uma pessoa sozinha, ninguém em casa, nem poderia haver. E de repente ali está ele, vindo sabe-se lá de onde!
Já vivi assim há uns bons anos. Separei-me do António já vai para cinco anos. Eu própria quase a chegar aos sessenta. Nem pensava já em namoros ou complicações dessas. Os filhos longe, cada um na sua vida.
Ia vivendo. Dava-me lindamente com os vizinhos. E, mesmo sabendo que os tempos andam esquisitos, sempre tive o hábito de, de vez em quando, não trancar a porta à chave. Nunca se sabe, a vizinha Cátia pode sempre aparecer de repente. Claro que naquele dia nem pensei nisso. Saí só um instante para deitar o lixo, lavei as mãos, pus comida para a gata Milú e esqueci-me do raio da chave. Também, diga-se de passagem, não tinha medo de nada. Era de dia, prédios cheios de vida. Não era como andar sozinha pelos matos do Gerês.
Comecei então a fazer os meus pastéis. E eis que, ao pousar mais um na travessa, dou de caras com um desconhecido na minha própria cozinha! Apareceu como se viesse do vento!
Naquele instante vi a minha vida inteira passar-me diante dos olhos, desde os meus tempos da escola primária. Dizem que acontece, e acreditar, acredito mesmo! Lá pensei: pronto, acabou-se. Não tenho assim nada que valha grande coisa para lhe roubar, mas comprei uma televisão grandona há pouco, o computador novo também cá está, ainda mal recebi a reforma. O dinheiro fica sempre na mala, ali no corredor. Achei que ele já o tinha levado e agora vinha ver o que mais podia apanhar. Sussurrei, aflita: “Leve tudo o que quiser, só me deixe, que ainda quero dar colo aos meus netos… Prometo, não conto isto a ninguém!”
Mas o homem começa a pedir desculpa. A tentar explicar-se. Eu, com a cabeça feita num oito, mal conseguia ouvir. Disse-me para desligar o fogão, e lá fui eu, sem pensar. Sentei-me na cadeira e ele, mesmo em frente, lá começou a dizer ao que vinha: que vinha a andar pela rua, sossegado, e que um grupo de malandros se meteu com ele a pedir dinheiro. Que preferiu fugir a arriscar, e naquele momento alguém saiu do meu prédio lá entrou ele, subiu as escadas e, como estavam na sua peugada, também eles conseguiram entrar. Nem teve tempo de pedir ajuda. Bateu a algumas portas, ninguém abriu. Tentou as maçanetas e a minha, claro, abriu. A pedir, depois, que fosse espreitar à janela. Fui ver e, sim, lá estavam os tipos, de conversa fiada, mas logo se foram embora é o que eu mesma conto, ainda sem acreditar.
O homem apresentou-se: Artur Almeida. Passado o susto, reparei bem nele grande, um tanto desajeitado, mas com uns olhos bondosos. Com uma capa, parecia mesmo o Pai Natal.
Desculpe, não me dava um pastelinho? Já não como destes desde que perdi a minha mulher pediu-me o Artur.
Já tinha tirado os sapatos, ainda estava de casaco vestido.
Tu alimentaste-o mesmo? Que raio de coragem, mulher! Eu não sei se conseguia! Tinha-o posto na rua num instantinho! dizia-me depois a Cátia, a vizinha, a deitar-me as mãos à cabeça.
Mas eu, não sei porquê, não hesitei. Só pedi que lavasse as mãos, claro. Num instante foi à casa de banho. Ficou a tarde comigo, a beber chá e a contar da vida dele viúvo, sem filhos, sozinho na vida.
No fim, despediu-se com outra desculpa, pediu desculpas e foi-se embora, porta fora.
Fiquei, naquele dia, a sentir-me personagem principal de uma telenovela. Depois de contar tudo a toda a gente, de horas ao telefone, veio um vazio estranho. Comecei a pensar: e se devia ter feito mais conversa? Devia ter chamado para mais qualquer coisa? Uns bolos de cogumelos? Ou doces, que também sou mestra?
Bom, agora já está. No dia seguinte, pus-me a fazer mais bolos, nem sabia porquê. E aí, bate à porta alguém, com delicadeza. Espreitei pelo óculo da porta, a pensar que era a Cátia. Quando me apercebo, lá ando eu toda afobada a compor o cabelo, a tirar o robe de flanela e vestir a roupa de malha, um conjunto de calças ainda jeitoso. Um sprayzinho daquele perfume antigo que já nem lembrava. E abro a porta.
Era o Artur, com um ramo de flores na mão.
Vim só pedir desculpa outra vez. Não quero incomodar. Trago estas flores para se redimir, assustei-a sem querer disse-me, acanhado.
Olhe lá, mas onde é que vai? Eu fiz bolo, venha lanchar! respondi eu, logo com uma vontade de rir.
E ele, a sorrir, diz: Ia a subir as escadas e, pelo cheiro, parecia uma pastelaria! Tive logo esperança que fosse aí em sua casa. Que sorte, quem tem uma mulher destas!
Mulher, nada! Venha daí, está à vontade! disse-lhe.
E é assim: desde esse dia, ficámos juntos. Ele agora é o meu braço direito no jardim. Os meus filhos aceitaram-no, os netos já lhe chamam “avô Artur”. Cuida deles como se fossem dele.
Depois de anos sozinho, encontrou-se agora nesta nova família. Aquele estranho passou de estranho a um dos nossos.
As minhas amigas até têm inveja:
Quem diria, a tua idade, arranjar um homem decente e de um jeito destes! dizem elas, a rir-se.
Eu só aceno, mas desde então, a chave da porta nunca mais esqueço de rodar duas vezes. Aprendi que a felicidade pode mesmo bater-nos à porta quando menos se espera mas convém sempre trancar depois!







