— Estás reformada. Deviam ser os netos a ocupar o teu tempo, — disse-lhe a filha. A resposta da mãe deixou-a surpreendida

Agora que estás reformada. Devias era ficar com os netos afirmou a filha. A resposta da mãe surpreendeu-a

Maria Leonor Mendes saiu para a reforma numa sexta-feira. E logo na segunda percebeu: era uma armadilha.

A sexta foi especial os colegas trouxeram um bolo com rosas, a contabilidade deu-lhe um ramo de cravos e um cartão assinado por todos, até pelo segurança João, que em quinze anos nunca decorou o nome dela. Maria Leonor sorriu e comeu bolo. Tudo dentro do esperado.

No domingo à noite, telefonou-lhe a filha, Inês.

Mãe, eu e o Ricardo estivemos a falar. Agora que estás reformada, deves ter tempo livre, não?

Bem, em princípio… respondeu Maria Leonor com prudência, sentindo um clique subtil cá dentro.

Ótimo, mãe! Assim podes ir buscar as crianças ao infantário mais cedo e ficar com elas até chegarmos.

Todos os dias? quis saber Maria Leonor.

Então, porquê não? Ficas em casa, não é?

Ficas em casa dito naquele tom especial de quem diz não fazes nada, no fundo. Maria Leonor respondeu:

Está bem, Inês.

E foi aí que sentiu qualquer coisa a aquecer devagarinho, cá por dentro.

É que naquela segunda-feira, às dez em ponto, era suposto ela ir, pela primeira vez, à aula de dança para seniores. Danças para adultos, na escola da Rua das Flores, já paga e tudo. Tinha prometido a si própria, dois anos antes, quando viu na rua uma senhora de costas direitas, aí com sessenta e cinco anos, com um andar tão leve que parecia voar. E pensou: é assim que quero ser.

Mas na segunda foi buscar os netos ao infantário.

A Matilde logo pediu uma trança como a da Elsa. O Martim entornou o sumo de laranja no tapete, branco. Ao fim do dia, Maria Leonor sentia-se como um manual velhinho: gasto, com as pontas dobradas.

Inês veio buscar as crianças quase às oito, deu-lhe um beijo rápido:

Obrigada, mãe! És um tesouro!

Pois claro, um tesouro, pensou Maria Leonor, olhando para a porta já fechada.

E assim passaram-se três semanas. Três semanas, pode não parecer muito mas depende do que está em causa.

Não é tempo suficiente para uma obra, ou para uma dieta. Mas chega para perceber quando estão a aproveitar-se de nós, mesmo sem maldade.

Tudo estava rotinado. De manhã, a chamada da Inês, energética, controladora:

Mãe, podes buscá-los hoje?

Não era bem pergunta, era notificação. Como um sms do banco: Saldo debitado.

Maria Leonor dizia sim sem pensar hábito de uma vida de sessenta e três anos. Hábito de não causar problemas. Um hábito prático para todos… menos para ela.

Adiou as danças. Ligou ao estúdio, explicou que talvez remarcasse. Claro, guarda-se até ao fim do mês, disseram. Depois passou o mês, e nunca chegou a remarcar.

Depois adiou o café com a amiga Clara, ex-colega, reformada havia meio ano que agora fazia marcha nórdica e cozinhava compotas de groselha. Iam ver uma comédia francesa ao cinema, há muito que Maria Leonor queria. Não foi.

Não faz mal disse Clara , fica para a próxima.

Para a próxima. Uma frase de consolo que, na prática, significa quem sabe quando.

Os dias começaram a ser todos iguais. Depois de almoço, ia buscar os netos. Matilde queria atenção permanente. Martim era mais independente, mas mais “perigoso” estava sempre a derramar, a partir, a tombar coisas, com o ar mais surpreso do mundo, como se as leis da física fossem partidas novas.

Às seis da tarde, Maria Leonor já tinha as costas e a cabeça a doer. Às oito, doía-lhe tudo.

Obrigada, mãe! És um tesouro! dizia Inês, e desaparecia. Maria Leonor sentava-se no sofá, em silêncio, a pensar: há aqui qualquer coisa que não bate certo.

Mas não percebia o quê.

Quem deu a dica foi a televisão. Num programa da tarde, uma senhora dizia à câmara: Vivi sempre pelos outros. Só aos sessenta percebi: tenho direito à minha vida.

Maria Leonor ficou a olhar para o ecrã.

Engraçado murmurou.

Pegou então na folha com o horário do estúdio de danças. A época terminava fim de abril. Restava mês e meio. Ainda dava. Se quisesse mesmo.

E Maria Leonor quis.

No dia seguinte ligou para marcar. Colou o horário no frigorífico, debaixo do íman de Lisboa, bem à vista. Telefonou à Clara: Sábado vamos ao cinema.

Clara surpreendeu-se, mas ficou contente. Ficou combinado, disse.

E pronto. Bastaram dois telefonemas e já havia algo que era só dela de novo.

No domingo foi passear sozinha. Sem netos, sem sacos, só ela. Caminhou à beira do Tejo, bebeu um café numa esplanada com vista para o rio. Ao lado, um casal com a idade dela ria baixinho. Maria Leonor olhou e pensou: reforma não é o fim. É outro início. Cumpriste o teu dever agora vive.

Na segunda voltou ao infantário.

Inês, nesse dia, ao levar os filhos, olhou-a mais atentamente.

Estás contente, mãe?

Só bom humor respondeu Maria Leonor.

Ah murmurou Inês, sem dar importância.

Em vão.

Porque na sexta à noite voltou a ligar, com a voz descontraída de quem nunca teve preocupação na vida:

Mãe, eu e o Ricardo vamos uns dias descansar, estamos exaustos. Ficas com os miúdos, não é?

Precisamente nesses três dias, Maria Leonor tinha já pago uma excursão viagem, guias, alojamento, tudo. Às Aldeias Históricas, com a Clara e outras duas amigas. Pequenos-almoços, visitas, vinho verde e bolinhos de mel. Tudo incluído.

Maria Leonor olhou para o telemóvel.

Depois para o horário no frigorífico.

Depois para a confirmação da viagem. Estavam ali, lado a lado como um segredo cúmplice, uma revolta silenciosa.

E aquilo que três semanas antes começara a ferver, finalmente atingiu o ponto.

Não respondeu logo.

Normalmente dizia sim, ou claro, ou pronto, não há remédio. Um destes três e o assunto fechado. Mas dessa vez fez pausa. Três segundos de silêncio uma eternidade ao telefone.

Inês, não posso.

Pausa do lado de lá.

Não percebi? Inês, espantada mas não zangada.

Tenho viagem marcada para esses dias. Aldeias Históricas. Vou com a Clara.

Silêncio.

Estás a falar a sério?

Estou.

Mãe. Mas estás reformada. Deviam ser os netos a tua vida disse Inês , como se fosse coisa evidente. Reformada serve para tomar conta dos netos. Nem se discute.

Maria Leonor esperou uma fração de segundo.

Inês, sou avó. Não uma ama gratuita.

O que disseste? Inês, a voz mais fina e afiada.

O que ouviste.

Tu percebes, mãe, que nós trabalhamos? Contamos contigo.

Percebo disse Maria Leonor, tranquila. E ajudei. Três semanas, todos os dias, não foi ajuda?

Estás em casa de qualquer forma!

Lá estava outra vez.

Estás em casa.

Inês disse, vivi trinta e cinco anos por ti. Sozinha, sem apoio, sem férias. Não me queixo, foi escolha minha. Mas agora quero viver um bocadinho para mim.

Inês não estava à espera.

Mãe, isso é egoísmo!

Chama o que quiseres respondeu Maria Leonor.

E desligou.

Nem queria acreditar.

Pousou o telemóvel. Fez chá. Sentou-se à janela.

Vinte minutos depois a filha voltou a ligar.

Mãe. Agora não sabemos como fazer…

Percebo. Também não sabia quando tinha a tua idade. Mas consegui.

Não é a mesma coisa!

Porquê?

Silêncio. Ou porque não tinha resposta, ou porque tinha vergonha do que queria dizer.

Estás reformada repetiu, mais baixa, menos certa. Que vais tu fazer?

O que eu quiser. Dançar. Viajar. Beber café a ver o rio. Ir ao cinema francês. Ou até só ficar a olhar para a rua também é um direito meu. Nunca me disseste o que fazes aos fins de semana.

Trabalho!

Trabalhei trinta anos também.

Pausa longa.

Mãe, mudaste.

Sim. Tarde, mas mais vale tarde do que nunca.

Não te percebo.

Eu sei. Um dia vais perceber.

Despediram-se friamente. Sem beijinho ou até logo. Só adeus, como estranhos num elevador.

Maria Leonor olhou à janela muito tempo.

Sem pensar em nada. Nem nos netos, nem na Inês, nem se tinha feito bem.

Depois pegou no telemóvel e escreveu à Clara: Vamos. Reserva.

Clara respondeu num minuto. Três pontos de exclamação.

Viva!!!

Maria Leonor sorriu. Lá fora, abril desdobrava folhas verdes, apressado, alegre. Como se dissesse já chega de esperar. Agora é tempo.

Inês não telefonou quatro dias.

Maria Leonor, nesses dias, correu as Aldeias Históricas, provou vinho, fotografou campanários e riu com Clara de disparates sem importância, só engraçados quando, finalmente, se respira devagar.

Voltou a casa num domingo ao fim do dia.

Inês ligou no dia seguinte. Ela própria. Falava devagar, com pausas quem ensaiou a conversa mas ainda se perde.

Mãe, talvez tenha sido injusta. Tens claro direito à tua vida.

Fico contente que percebas.

É que estamos tão habituados…

Eu sei. Também é culpa minha.

Ficaram em silêncio.

Mãe, ajudas na mesma, de vez em quando? Não todos os dias, só quando poderes.

Quando puder, com gosto disse Maria Leonor. Adoro os meus netos. Só que às vezes não é todos os dias porque estás em casa.

Pois, é diferente sim.

Agora Maria Leonor fica com os netos à sexta-feira. Por vontade própria. Fazem rissóis, veem desenhos, e às vezes ela conta-lhes das Aldeias Históricas dos telhados de xisto e do vinho doce que só sabe bem quando se escolhe.

Às terças, vai dançar.

E Matilde e Martim já contam no infantário que têm uma avó que dança. Com orgulho, nota-se.

Uma avó que dança bem melhor do que uma avó que só fica sentada em casa, concordam?

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— Estás reformada. Deviam ser os netos a ocupar o teu tempo, — disse-lhe a filha. A resposta da mãe deixou-a surpreendida