“Está na hora de crescer, disse a Ana ao marido — a reação dele deixou-a fora de si Já imaginou viv…

Está na hora de cresceres, disse Leonor ao marido. E a reação dele deixou-a possessa.

Olha lá isto: imagina viveres com um adolescente eterno, só que no corpo de um homem de quarenta anos?

É pedir: Ó Ricardo, vais à reunião de pais na escola?, e ele: Epá, não dá, amanhã tenho torneio de FIFA.

É lembrares que é preciso pagar as contas, ele acena, sorri e passado uma semana lá está a EDP a cortar a luz porque se esqueceu de pagar. Ficou entretido com o League of Legends dele.

É o filho de doze anos a perguntar dúvidas de ciências, enquanto o pai na sala ao lado, de auscultadores postos, grita para o micro: Ó burro, é pela esquerda!.

A Leonor aguentou isto durante dezassete anos, acredita?

Conheceram-se na faculdade. O Ricardo era o típico bem-disposto, sempre de viola na mão, com piadas para tudo. A Leonor, toda certinha, boa aluna, acabou por se apaixonar pela leveza dele. Ele sabia viver, não só sobreviver.

Parecia perfeito: ela pés assentes na terra, ele sempre na descontracção. Yin e yang, achava ela.

Mas foi só até perceber que era ela a puxar a carroça e ele ali em cima, a balançar as pernas.

Depois de casarem, o Ricardo até teve empregos. Uma semana aqui, outra ali: gestor, rececionista, consultor tudo onde não tivesse de suar muito. O salário? Enfim, dava para uns jantares. E ele com a resposta pronta: É só por uns tempos, Leonor, já vai melhorar.

Nunca melhorava.

E a Leonor lá ia aguentando na repartição de finanças estável, sim, mas aborrecido que dói. Era ela a pagar a prestação da casa, a fazer as compras, a levar o Tiago ao médico, a verificar trabalhos de casa. E o Ricardo? A descansar do trabalho, dizia ele.

À frente do computador. Até às três da manhã.

Ó Ricardo ela, cansada, já sem paciência , podias ir tu à reunião de pais. Eu não posso estar sempre a pedir folga.

Não posso, Leonor. Amanhã tenho uma reunião importante.

A tal reunião: cervejas no café com o amigo dos tempos da faculdade.

Ricardo, paga a internet, senão vão cortar.

Ya, ya.

Nunca pagava. Quem pagava era ela.

Sentia-se mãe dele, gestora e ainda carcereira. Menos esposa.

Quando a paciência se esgota

O Tiago estava encarnado de tanto esfregar os olhos em frente aos livros.

Mãe, não estou a perceber isto Pai, ajudas-me?

O Ricardo, enfiado na poltrona, auscultadores calçados, pregado ao computador.

Pai! mais alto.

A Leonor entra na sala e arranca-lhe os auscultadores.

Não ouves o teu filho?

Hã?! ele virou-se, aborrecido. Oh Leonor, estou ocupado agora.

Ocupado? ela olha para o monitor: tanques, explosões e palavrões no chat. Isto é que é ocupado?

Não comeces.

O teu filho pede ajuda nos trabalhos! Estás há horas agarrado a essa parvoíce!

Ao League of Legends esclareceu ele, calmo. Olha que já tenho ranking.

Estou-me nas tintas para o teu ranking!

O Tiago saiu da sala, sem fazer barulho. Já estava habituado: quando os pais começavam, o melhor era desaparecer.

A Leonor ficou ali, à frente do marido. Ele ali já com a barriguinha de cerveja, mas com cara de puto traquina.

Ricardo, disse ela baixinho, mas tão sério que até assustava. Está na hora de cresceres.

Ele levantou-se de rompante, a cadeira fez-se para trás.

O quê?!

A Leonor estremeceu.

Crescer?! Já farta de viver debaixo do teu salto! Sempre a ouvires que sou isto, sou aquilo, o irresponsável da família!

Ricardo…

Cala-te! agarrou na gabardina. Olha, vou-me embora. Vive lá a tua vida cheia de regras!

A porta fechou-se com estrondo.

A Leonor ficou ali, imóvel no meio da sala.

Quando o filho percebe mais do que a mãe

A Leonor ficou sentada na cozinha até de manhã.

De olhar preso à janela, cabeça cheia.

O Ricardo não voltou. Não atendeu o telefone. Nem uma mensagem respondeu.

Pela primeira vez em dezassete anos, ela não foi atrás dele. Nem ligou para os amigos. Não entrou em pânico.

Na manhã seguinte, entrou o Tiago, todo despenteado e sonolento.

Mãe, onde está o pai?

Saiu respondeu ela, seca.

Outra vez discutiram?

Mais ou menos.

O rapaz tirou chá, sentou-se à mesa. Esteve calado um bom bocado. Depois perguntou, assim do nada:

Ó mãe, tu sabias que o pai anda a vender o carro?

A Leonor ficou em choque, a chávena a meia altura.

Desculpa…?

Ele disse-me para eu não contar a ninguém. Mas agora como vocês discutiram… ele andou a mexer em papéis, andou a fotocopiar bilhetes de identidade, casamento, e mais cenas.

Um friozinho estranho correu-lhe na espinha.

Quando foi isso?

Na semana passada. Ele disse que era só por precaução. Para não nos preocuparmos.

A Leonor entrou no chamado quarto do Ricardo andava a dormir lá no sofá há meses, queixando-se das costas.

Abriu a gaveta. Papéis, contas, cartões, tralha.

No fundo, uma pasta.

Abriu: sentiu o mundo fugir-lhe dos pés.

Era uma garantia bancária.

Preto no branco: Ricardo Manuel Ferreira obriga-se a ser fiador de um crédito duzentos mil euros.

Devedor: João Manuel Ferreira.

Sim, o irmão. O tal pé-frio que há uns anos ficou cheio de dívidas, arruinou os pais, desapareceu dois anos até os credores se esquecerem dele.

Duzentos mil euros.

A Leonor atirou-se para o sofá, em choque.

Mais à frente: como garantia do empréstimo, lá estava o carro da família, aquele que só há pouco tinham acabado de pagar. E ainda uns papéis referentes à intenção de dar como garantia o apartamento deles. O T2 onde viviam.

Meu Deus… murmurou.

Agora explicava-se tudo. O surto dele, os gritos já chega de ser mandado, estou farto. Ele tinha medo, era isso. Percebeu que ela ia descobrir e fugiu antes de ser apanhado. Fingiu-se vítima.

Aquela infantilidade não era só preguiça, era fuga. Medo. Escondia-se nos jogos e entre cervejas para não enfrentar o que estava a fazer.

A Leonor fez um telefonema.

Ele não atendeu.

Tentou de novo.

Que foi? grunhiu ele ao fim de uns segundos.

Vem a casa. Já.

Não vou. Não tenho nada para te dizer.

Eu tenho. Sobre o João, sobre o crédito, sobre tu quase deitares a nossa família ao lixo por um irmão que se está nas tintas para ti.

Foste ver os papéis?

Vi. Vem cá já. Se não, sou eu que vou ter com o teu irmão e digo-lhe tudo.

Veio passado uma hora.

Quando infantilidade é medo, não fraqueza

O Ricardo apareceu amarrotado, cheiro a álcool.

O Tiago estava no quarto ela pediu-lhe que ficasse lá.

Senta-te disse ela, tranquila.

Ele sentou-se, olhos no chão.

Duzentos mil euros, começou ela. Pusemos o carro e estávamos quase a pôr o apartamento como garantia. Por causa de um irmão teu que já quantas vezes vos lixou?

Tu não percebes nada! resmungou o Ricardo.

Então explica.

O João está lixado! O negócio faliu, os bancos vão-lhe à pele. É o MEU IRMÃO! Não podia negar-lhe ajuda!

A Leonor riu, irónica.

E eu? Podias não me perguntar?

Tu nunca ias deixar.

Pois não. Porque é uma loucura! Ricardo, temos um filho. Temos hipoteca para pagar. Vivemos à justa. E tu querias ficar responsável por duzentos mil euros?

Ele vai pagar.

Como da outra vez, não foi? Lembras do que aconteceu? Os teus pais quase que morreram do coração! Tu próprio disseste nunca mais volto a ajudar o João!

As pessoas mudam.

Não mudam nada, Ricardo. O João nasceu para ser caloteiro. Vive das costas dos outros e agora tu voluntariaste-te pra ser o próximo.

Ele calado, olhar no chão, igualzinho a um miúdo apanhado com o copianço.

Quando tens de escolher entre o irmão e a família

O Ricardo salta da cadeira.

Eu só eu só não consegui dizer que não! É o meu irmão!

E eu sou o quê? Leonor, de pé também. E o Tiago? Somos o quê na tua vida?

Vocês são a minha família! Mas o João é família também…

Não, abanou a cabeça. Família são aqueles por quem te responsabilizas. O João já é crescido, tem quarenta e tal anos e nunca aprendeu. E tu puseste a nossa vida nas mãos dele.

Mais silêncio.

A Leonor abriu o portátil: entrou no site do banco.

O que estás a fazer? assustou-se ele.

A mudar o acesso à nossa conta conjunta. Aquela onde cai o meu ordenado. Aquela que tu usavas para pagares o empréstimo do João.

Não tens direito a isso!

Tenho, respondeu, imperturbável. São os meus salários. E tu andas há anos a saltar de trabalho em trabalho, a contribuir quase nada.

Golpe no orgulho. Mas verdade.

O Ricardo ficou pálido.

Leonor…

Amanhã falo com uma advogada continuou ela, mudando as passwords. Vou saber como proteger o apartamento, caso assines aquele papel. E se for preciso… divorcio-me. A partilha, pode ir tudo para tribunal.

Estás a ameaçar-me?!

Estou a proteger-me. E ao Tiago. De ti.

Ele agarrou no casaco.

Sabes que mais? Faz o que te apetecer! Vou ao João agora, assino os papéis, e pronto. Tu fica lá com os teus controles e as tuas contas!

Se assinares, peço logo o divórcio disse ela, fria. Não hesito.

Ele ficou parado à porta.

Estás a falar a sério?

Claro. Ricardo, há dezassete anos que sou eu a aguentar a casa. Trabalho, crio o Tiago, pago as contas. E tu, sempre nos jogos de computador, sempre a fugir. Aguentei, porque pensei: bom, pelo menos não vai ao álcool, nem levanta a mão, nem anda com outras. Mas agora queres enterrar-nos em dívidas por causa do João? Isto é a última gota.

Mas ele pediu!

Ele pede sempre sorriu, amarga. Há cinco anos pediu. Há dez, pediu também. O João nasceu para pedir. Sabe dar pena e tu cais sempre.

Desta vez ele prometeu.

Ricardo, aproximou-se. Abre os olhos. Ele nunca paga. Só recebe, recebe, depois desaparece.

Mas agora é diferente.

Diferente?! o tom dela subiu. O quê, é diferente porque a dívida é maior? Ou porque agora põe em risco a nossa casa, e não só a dos teus pais?

Quando a verdade magoa mais do que o amor

O Tiago apareceu à porta.

Mãe… pai… o que se passa?

Ficaram ambos calados.

O rapaz olhava-os assustado aquele medo que as crianças têm de perder o chão.

Pai, perguntou, quase sussurrando. Vais mesmo ficar com o empréstimo do tio João?

O Ricardo estremeceu.

Ouviste?

Ouvi tudo. Esfregou o nariz à manga. Mas, pai, se ele não pagar, ficamos sem casa?

Não mentiu o Ricardo. Vai ficar tudo bem.

Não vai cortou a Leonor. Tiago, vai para o quarto.

Mas, mãe…

Vai.

Saiu.

A Leonor virou-se para o marido.

Viste? Viste como o teu filho tem medo? Tem doze anos, era para pensar em futebol, brincar com amigos. E anda a temer se fica sem casa.

O Ricardo sentou-se, mãos na cara.

Não sei o que fazer.

Sabes disse ela, fria. Escolhe. Irmão ou família. Agora.

Leonor… isto não é assim tão simples.

É simples, sim. Pegas no telefone, dizes ao João: Desculpa, não posso. Tenho a minha família. Só isso.

Mas e se ele… se acontecer alguma coisa?

Vai acontecer, encolheu os ombros. O João é assim. Enquanto viver assim, vai desgraçar-se vezes sem conta. Só não tens de te afundar com ele.

Ele ficou calado.

A Leonor levantou o telemóvel.

Tens vinte e quatro horas. Amanhã ao fim da tarde, ou dizes não ao João, ou meto o divórcio. Não há meio-termo.

O Ricardo ligou no dia seguinte.

A Leonor estava na cozinha com a advogada uma senhora de cinquenta e tal anos, que com calma lhe explicou como proteger o T2 de possíveis dívidas.

O telefone vibrou. Era ele.

Sim? atendeu, seca.

Liguei ao João.

Silêncio.

E?

E disse que não.

Ela fechou os olhos. Suspirou.

E ele?

Chamou-me de tudo. Que sou traidor, que nunca mais me fala. Disse que deixo de ser irmão dele. A voz do Ricardo tremia. Tenho medo que lhe aconteça alguma coisa, Leonor.

Não vai acontecer nada respondeu ela. O João arranja outro, sempre arranja.

Ele voltou passado uma hora. A advogada já tinha ido, deixou a papelada na mesa.

O Ricardo entrou e pela primeira vez em anos, já não parecia um puto, mas sim um homem cansado.

O Tiago já dorme? perguntou ele.

Já.

Sentaram-se os dois à mesa.

A Leonor pôs-lhe à frente uns papéis da advogada.

Agora começamos do zero. Vais à procura de trabalho a sério, nada de coisas temporárias. A partir de agora, tudo a meias: despesas, apoio ao Tiago, reuniões, atividades, tudo. E não há segredos. Nada de decisões sem falarmos.

O Ricardo ficou calado. Depois acenou.

Está bem. Vou tentar.

Três meses depois

O Ricardo encontrou trabalho numa empresa de construção civil.

A Leonor largou os controlos. Deixou ir. E ficou surpreendida: afinal, o marido sabe fazer o jantar, ajudar nos trabalhos do Tiago. Chegou a ir à reunião de pais sozinho, sem ela pedir.

O João desapareceu. Mudou de telemóvel. Nunca mais deu sinal.

E a Leonor, pela primeira vez em dezassete anos, sentiu que vivia. Não era só a carregar pesos, era mesmo vida.

Com um marido que, ao fim ao cabo, cresceu.

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