Esta manhã, uma jovem portuguesa de 18 anos deu à luz uma menina. Depois disso, escreveu uma declaração…, chamou um táxi e saiu da maternidade sem olhar para trás. Mas ela nunca poderia imaginar…

Esta manhã, uma rapariga de dezoito anos chamada Efigénia deu à luz uma menina num hospital de Lisboa. Minutos depois, escreveu uma declaração num papel amarelo, chamou um táxi e saiu do hospital sem olhar para trás, as campainhas aéreas da cidade soando tão distantes quanto irreais. Ninguém conseguiria imaginar a “surpresa” que ali ficaria à espera daquela criança, como se Lisboa tivesse decidido pregar uma partida em silêncio.

Quando eu e o Duarte chegámos à maternidade naquela noite, invadidos por uma névoa de sonhos e contrações, sentíamos uma alegria indizível a promessa de recebermos o nosso quarto filho, como se cada criança fosse um segredo guardado pelas paredes gastas do hospital. Víamos já a casa cheia, mesas longas, copos de vinho e conversas de fim de tarde, ecos de uma família grande e ruidosa como só as portuguesas sabem ser.

Os nossos segundos e terceiros filhos gémeos, Benedita e Tomás tinham sido uma surpresa, tão improvável nas nossas famílias como um pescador encontrar um arco-íris no rio Douro. A expressão de família era meio brincadeira: E se forem gémeos outra vez?, dizíamos, rindo à porta do café, entre um pastel de nata e um galão.

Os avós ficaram tão impressionados com a novidade que passaram dias a ajudar-nos, cozinhando arroz doce e caldos verdes. Depois, logo na segunda ecografia, o médico descansou-nos no seu português melódico: Só uma criança desta vez. Os receios evaporaram-se como o nevoeiro sobre o Tejo.

Quando nasceu a nossa ninjeira solitária a quarta criança, tranquila , todas as ansiedades pareceram devaneios tolos. Instalámo-nos num quarto só nosso, que o Duarte pagou adiantado em euros, como quem paga por um pedaço de sossego num mundo feito de surpresas.

Horas depois, trouxeram-me a menina para mamar. Então, entrou o director da ala, rosto pálido, tudo nele parecendo um fado: Temos um pequeno problema…

Nessa mesma manhã, aquela jovem Efigénia saiu do hospital de táxi, recusando, nas entrelinhas do seu bilhete, qualquer apego à menina que deixava. Apesar das pernas dormentes do parto recente, evitou qualquer demora o que parecia impossível tornou-se inevitável. Tivemos de deixá-la partir.

A menina nascera saudável, um milagre miúdo de olhos fechados e punhos inquietos. Pensei: Sempre sonhaste com gémeos… E se ficasses com esta pequenina? A enfermeira-chefe, Dona Cândida Moura, voz sussurrada, sugeriu: Podemos escrever que foste tu a dar à luz… Mas uma criança num orfanato, que vida terá? Não aguento a ideia. No fundo, todos sabíamos: era proibido, um segredo entre as sombras dos corredores do hospital.

Burocracias de adoção podiam demorar meses, desenrolando-se lentamente como as procissões de Santo António, sem garantias de final feliz. Enquanto isso, a pequena acabaria num lar temporário, afastada de qualquer colo.

Fiquei tocada pela proposta da Dona Cândida uma mulher de coração enorme, conhecida até fora do hospital, onde já tínhamos partilhado café e fatias de bolo-rei. Talvez tenha sentido em mim a nostalgia por uma família ainda maior, ou apenas quis poupar uma criança ao frio dos azulejos desconhecidos.

Resumindo este sonho estranho, vi a jovem mãe cruzar as portas do hospital, a cidade a girar ao fundo como uma pintura de Almada Negreiros; a menina, deitada num berço azul, esperando o desenrolar das vontades alheias; a compaixão da enfermeira, chorando em silêncio; e nós, à deriva entre leis e emoções, num país onde o fado e a esperança se confundem.

Afinal, o nascimento é sempre um acontecimento tecido de esperança, incerteza e ternura. Nas ruas de Lisboa, entre subida e descida, a vida revela-se cheia de desvios, exigindo de nós compaixão e coragem. Esta história estranha, assistida sob o véu de um sonho, recordou-me com doçura a importância de sermos humanos uns com os outros mesmo quando as regras nos parecem tão fixas quanto os sinos das catedrais.

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Esta manhã, uma jovem portuguesa de 18 anos deu à luz uma menina. Depois disso, escreveu uma declaração…, chamou um táxi e saiu da maternidade sem olhar para trás. Mas ela nunca poderia imaginar…