Vivo na minha casa há mais de vinte anos, e o meu vizinho também não chegou muito depois. Ele começou a construir a casa dele quando eu estava a acabar os acabamentos interiores da minha. Conhecemo-nos bem, sempre mantivemos algum contacto e até já nos visitámos de vez em quando, mas nunca fomos propriamente amigos próximos.
Nesse inverno, por questões de saúde, fui morar por um tempo com a minha filha, porque não estava a conseguir dar conta de tudo sozinho em casa. Quando a primavera chegou e o tempo aqueceu, decidi regressar.
Voltei no final de abril, quando já não se via neve alguma. A casa estava em ordem, embora eu tivesse alguma preocupação. Por isso, voltei às atividades de sempre: tratei do jardim à frente da casa e da horta. Reorganizei tudo à porta de casa.
Tenho duas estufas pequenas. Plantei lá pepinos e pimentos e, numa terceira estufa, plantei tomates.
Nas canteiras pus morangos, cenouras, cebolas e endro. Ao longo do muro que divide o terreno do vizinho, crescem arbustos de groselhas e de cassis. Com tanto trabalho, claro que alguém repararia. Ao mesmo tempo, senti algumas dores e a minha filha levou-me à cidade. No verão fui até um sanatório, onde passei um mês a recuperar.
Finalmente, em setembro, sentia-me bem outra vez. Voltei a casa. Fui espreitar o meu terreno e reparei que o meu muro de madeira, que separa o meu quintal do do vizinho, estava partido de tal forma que dava para passar para o meu jardim por ali.
Percebi logo que o vizinho andava a usar as minhas estufas e as minhas canteiras. Nem teve a decência de me ligar a pedir autorização, sendo que tem o meu número.
Naturalmente, não gostei nada da situação. Confrontei-o e perguntei porque tinha partido o muro. Ele admitiu que era mais prático passar por ali, assim ficava mais perto das minhas estufas e canteiras. Mostrei o meu desagrado, ao que ele reagiu com total serenidade. Disse-lhe que não aceitava que alguém entrasse no meu jardim sem pedir primeiro.
Além disso, pedi-lhe que fosse ele a reparar o muro, deixando-o como estava e que, já que tinha mexido nas minhas plantações, pelo menos dividisse a colheita comigo. Não era por precisar dos alimentos, mas queria dar-lhe uma pequena lição daquelas que não se esquecem.
No final disto tudo, aprendi que, por mais cordial que seja o convívio, os limites devem ser respeitados. E que nunca faz mal lembrar alguém que a amizade, mesmo em Portugal, começa pelo respeito.







