Entrei num abrigo e pedi para me mostrarem o gato mais velho que lá tinham. Quando a funcionária ouviu, ficou em choque porque…

Entrei no canil municipal de Lisboa e pedi que me mostrassem o gato mais velho que lá tivessem. A mulher atrás do balcão ficou momentaneamente surpresa, não escondeu o choque.

Levantou os olhos, mirou-me demoradamente, como se tentasse perceber se eu estava a brincar ou se realmente sabia o que estava a pedir.

Talvez prefira um adulto calmo, mas não assim tão velho sugeriu num tom delicado. Temos alguns muito dóceis, gostam de estar ao colo.

Abanei a cabeça.

Não. Mostre-me aquele que quase ninguém escolhe.

Nestes abrigos existe sempre um silêncio muito próprio. Não é um silêncio absoluto ouve-se uma tigela a tilintar, uma pata a arranhar a grade, um miado breve, de prova. Mas entre estes sons paira sempre uma quietude a quietude de quem espera. O silêncio daqueles a quem nunca escolheram.

Quando perdi a minha esposa, passei a viver dentro desse silêncio na sala, na cozinha, no corredor, com a televisão acesa só pelo conforto do ruído. As coisas permaneceram: a chávena dela, o cachecol pendurado no cabide, o frasco de comprimidos na prateleira. Mas ela, não. E com ela parecia ter saído também o ar da casa.

Antes desse vazio vieram dois anos difíceis. Hospitais. Exames. Quimioterapia. Um cansaço que nenhuma palavra aliviava. Eu deixei de despir-me totalmente à noite, para estar pronto a qualquer momento. Preparava comida em caixas e levava-lhe ao hospital, embora ela quase já não conseguisse comer. Madrugadas pálidas, corredores sombrios, filas, remédios a horas fixas. Os lençóis que mudava a meio da noite. Tentava fazer piadas para a ver sorrir, mesmo que só um pouco.

Aprendi a fazer sopas como ela fazia, sem medir nem provar. Aprendi a entrar silenciosamente no quarto. Aprendi a interpretar nos olhos aquele “Estou bem” que na verdade gritava dor.

Repetia só uma coisa: Vou ficar contigo. O que aconteça, estarei ao teu lado.

E depois chegou o dia de que ainda não me libertei.

Ela mal saía da cama, falava pouco, respirava entrecortadamente. Eu passava dia e noite com ela, dormia sentado numa cadeira, (mal) comia qualquer coisa, olhava-me ao espelho da casa de banho do hospital sem me reconhecer. Barba por fazer, olhos vermelhos, roupa amarrotada. A enfermeira aproximou-se e disse, com doçura:

Vá a casa uma hora. Trate de si. Tome um banho, troque de roupa. Caso contrário, ainda desmaia.

Não queria ir. Pressentia que não convinha. Mas a minha esposa disse baixinho:

Vai. Depois vens e ficas já como deve ser, ao pé de mim.

Forçou até um sorriso, muito ténue. Guardo-o até hoje.

Fui a casa. Lavei-me à pressa, pus o jarro no fogão, mas nem acabei por fazer chá. Vesti uma camisa limpa. Olhei para a cama ainda por desmanchar, como tínhamos deixado antes do hospital, e senti um aperto no peito. Como se estivesse atrasado, sem que nada ainda tivesse acontecido.

O telefone tocou quando tinha acabado de abotoar as calças.

Antes sequer de ouvir as palavras, eu sabia.

Atravessar Lisboa em direcção ao hospital foi de sobressalto. Entraram-me no quarto e ela já repousava, sossegada. Demasiado sossegada. Desta vez não havia nem um último pedido.

Peguei-lhe na mão já não era minha. Não estava quente. Não estava viva. Só a mão da mulher que amei a vida inteira e que não consegui acompanhar até ao fim.

Disseram-me que não era culpa minha, que acontece, que ninguém sabe a hora certa, que foi ela que pediu que eu fosse a casa, que tinha feito tudo o que podia.

Mas a culpa não ouve palavras sensatas.

Vem sentar-se à tua frente à noite, segue-te até à cozinha, está ao teu lado quando lavas um prato, deita-se na almofada ao lado. Sempre com um sussurro: Tu saíste. Não estavas ali. No momento final, não estavas.

O meu filho apareceu pouco. Não por maldade a vida dele, a família, o ritmo próprio. Telefonava. Perguntava como eu estava. Dizia para ser forte. Uma vez trouxe compras, ficou uns minutos, abraçou-me de lado e saiu. Não fiquei sentido. Mas a falta de ruído ficou.

Passaram-se uns meses e assustou-me uma ideia simples: podemos habituar-nos tanto ao vazio que acabamos a aceitá-lo como normal. Levantar, comer sem sabor, adormecer sem pensar, viver sem sentir que ainda somos importantes.

Foi nessa altura que me dirigi ao canil.

A mulher ainda fitava-me desconfiada.

Sabe que um gato velho precisa de cuidados, de medicamentos, exames… avisou. Pode não durar muito. Pode ser difícil de lidar.

Eu sei.

Porquê um velho?

Não queria expor-me, mas talvez estivesse na hora.

Inspirei fundo e disse:

Não consegui ser o último ao lado da minha mulher. Quero ser isso para este gato. Não posso ser o seu primeiro dono, mas posso ser o último. Que não volte a sentir-se sozinho.

Ela baixou os olhos para os papéis.

Espere um pouco, por favor.

Ela levantou-se e caminhou pelo corredor longo até uma porta ao fundo. Eu ainda não sabia que atrás dela estava um gato que mudaria o silêncio da minha casa.

Junto ao aquecedor, numa gaiola pequena, repousava um gato tigrado, pelo baço, ar exausto, parecia dormitar, talvez para sempre. Aproximámo-nos e ele ergueu lentamente a cabeça.

Os olhos, de tão cansados, eram quase humanos.

Este é o Celestino. Ninguém sabe exatamente a idade, pelos papéis treze, talvez catorze. Veio cá após a morte da dona. A família não o quis. No início aguentou-se, mas foi enfraquecendo. Come mal. Tem problemas crónicos digestivos. Precisará de ração especial, medicamentos e paz.

Falava sem pressa, sem tentar convencer-me de nada. Dava-me espaço para desistir.

Ajoelhei-me junto à gaiola. Celestino olhou-me com receio, mas nem fugiu nem bufou. Só observava. Depois aproximou-se e tocou com o nariz nas grades.

Demorei a mexer-me. A idade e as perdas ensinam-nos a respeitar os medos dos outros. Quando finalmente estendi os dedos, ele cheirou, vagarosamente, e tocou na minha mão.

Foi naquele momento que decidi.

Não porque fosse um milagre, nem por um sinal. Vi naquele gato a mesma exaustão, solidão e aceitação silenciosa que senti em mim, após o hospital.

Eu levo-o, disse.

A funcionária olhou-me firme.

Pode pensar melhor. Decisões destas não se tomam a correr.

Já penso há muito tempo, respondi. Só não sabia ainda quem esperava por mim.

Enquanto preenchíamos a papelada, ouvi duas raparigas cochichar no corredor:

A sério, o Celestino?
Quem é que quer um velho
Talvez teve pena.

Não levei a mal. As pessoas acham que só se adota esperando muitos anos de futuro. Eu, pela primeira vez, fazia algo não pelo para sempre, mas pelo hoje, não sozinho.

Na saída, entregaram-me a transportadora. Celestino entrou silencioso, encolhendo-se como se quisesse ocupar o mínimo espaço.

Vai demorar a habituar-se avisou. Pode esconder-se, não comer, ser complicado.

Acenei.

Sei o que isso é.

No caminho, falei baixinho com ele, como se fala com crianças ou doentes não porque não entendam, mas porque a voz deve ser suave.

Escuta disse , não sei o que foste antes de mim. E tu não sabes o que eu fui. Vamos tentar sem pressas. Não te levo para uma aventura. Só para casa.

Ele não explorou, nem veio logo ao meu encontro. Abri a transportadora e deixei. Só saiu minutos depois, com hesitação. Caminhou uns passos, olhou-me, depois para o aquecedor. E deitou-se junto a ele, como se já soubesse: na velhice, o mais valioso é o calor e a ausência de ameaças.

Pus-lhe duas taças: uma de água, outra da nova alimentação especial indicada pela veterinária. Celestino bebeu um pouco e tornou a deitar-se.

Quase não dormi na primeira noite. Acordava a cada ruído, espreitava o gato para ver se estava bem. Quase me ri de mim mesmo: um velho a andar de meias a espreitar outro idoso. Mas não era engraçado. Era o medo, o mesmo que se instala após tantas perdas: começas a recear antes sequer de haver o que perder.

No segundo dia, fomos ao veterinário. Era jovem e calmo. Examinou o Celestino, olhou análises, recomendou exames extra, explicou tudo sobre a doença, crises, medicação, regime alimentar, a importância de não dar comida de gente ou mudar abruptamente nada.

Anotei tudo. Em tempos fizera o mesmo pelas prescrições da oncologista. Antes era doloroso cada detalhe importava. Agora reparei: cuidar, mesmo cansativo, protege do desamparo. Enquanto perguntas, compras, preparas, não sucumbes totalmente ao teu vazio.

Ao princípio, foram semanas difíceis. Celestino desconfiava, comia pouco, ficava quieto horas, às vezes parecia esperar alguém. Não eu. Alguma mulher, talvez a antiga dona. O espaço dela, nunca seria meu.

E eu não tentei.

Não precisava que ele me adorasse logo. Nem mostrar ao mundo o “nós perfeito”. Bastava estar. Mudar a água, dar o remédio, ler um jornal ao lado, sem saber se era para ele ou para mim, para calar a casa.

Uma noite, reaqueço o jantar e, sem pensar, coloco dois pratos na mesa, como fazia há anos. O gesto ficou. Fiquei parado com o prato na mão, e guardei de volta.

Quando olho, Celestino está à porta, a fitar-me.

Vês? digo eu. Ainda estou a aprender a viver.

Ele não se mexeu nem saiu. Nessa noite, comeu um pouco mais.

Assim começou a nossa convivência. Não de ternura nem de finais felizes. Mas de respeito pelo silêncio de cada um.

Fui aprendendo as manias dele. Gostava da manhã perto do aquecedor, da água sempre fresca, detestava barulho, mas acalmava-se com a TV baixa. Dava preferência ao canto do sofá, sempre com rota de fuga. E tinha um fascínio por um rato de trapo velho, sem cauda, encontrado ao acaso. Atirei-o para o chão por brincadeira, sem esperar nada. Celestino ignorou, depois aproximou-se, empurrou-o devagar.

Pronto, está combinado.

Ele não ficou brincalhão do dia para a noite. Nem a velhice nem a doença somem com amor súbito. Houve recaídas, idas à clínica, remédios escondidos no paté, noites inquietas.

Mas entre isto foi surgindo vida.

Ao fim de um mês, saltou para o sofá, não para o colo mas ao alcance da minha mão. Fiquei imóvel, a ver o reflexo apagado da TV. Receava fazer ruído e assustar a confiança recém-formada.

Dormiu assim, perto. E pela primeira vez, não senti dor, nem culpa, nem cansaço só um começo de paz. Pequena, frágil, mas minha.

O meu filho apareceu sem avisar. Ligou do portão, disse que estava por perto. Já não estava habituado. Trouxe fruta, entrou sem jeito típico de adultos com pais que não visitam há demasiado.

Viu o Celestino.

É velhote, pai.

Por isso mesmo o trouxe.

Ficou calado.

Pai e não tens medo? De voltar a criar laços?

Pus água a ferver.

Tenho, disse. Mas tenho mais medo da solidão. Não suporto que alguém envelheça abandonado, se posso estar ali.

Ele olhou a chávena com os dedos.

Pensas ainda na mãe? Naquele dia?

Demorei a responder. Entrava o frio da noite pela janela. Celestino ergueu a cabeça, como a ouvir também.

Penso. Todos os dias. Sobretudo por não ter estado lá. Mesmo que tenha sido só uma hora, mesmo que tenha sido ela a mandar-me ir. Penso.

O meu filho calou-se. Depois sussurrou:

Eu também pensei nisso. Mas acho que, se a mãe pudesse falar agora, ralhava-te por te culpares tanto.

Sorri, com amargura.

Talvez.

Não é talvez. De certeza.

Não foi uma conversa longa. Mas parece que algo mudou. Não desapareceu, apenas deixou de pesar tanto.

O meu filho começou a vir mais vezes. Não de repente em força, mas trazia ração, já nos levou ao veterinário de carro num dia de chuva, noutra ocasião trouxe um cobertor novo para Celestino e disse que foi por acaso. Não gozei os homens da minha família sempre expressaram sentimentos meio aos tropeções.

Celestino também mudou. Por fora, o mesmo gato idoso. Mas renasceu curiosidade: passava a explorar a casa, às vezes ia ao corredor, como a medir fronteiras. Comia melhor, lavava-se mais vezes, jogava mais com o rato de pano às vezes tão furiosamente que tinha de o ir buscar debaixo do sofá.

Uma noite, reclinado na poltrona, ele dormia junto ao chinelo. Chovia. A TV debatia política quase muda. Percebi que já não ouvia aquela frase implacável na cabeça: Tu não estiveste lá.

Não porque tivesse esquecido. Isso nunca se esquece.

Mas porque, ali, alguém precisava de mim. Não ontem. Não no momento final impossível de voltar atrás. Agora. Naquela cozinha. Junto ao aquecedor. Ao lado do rato sem cauda.

Foi esse o essencial.

Uma madrugada acordei com um toque ligeiro. Celestino, sentado ao pé da cama, roçava-me a mão. Não pedia comida. Nem miava. Só me tocava, até abrir os olhos.

Sentei-me. Era um silêncio matinal, antes temível agora já não. Acariciei-o. E murmurei, sem pensar:

Não consegui estar ali naquela hora. Mas estou agora. Aprendi isso, pelo menos.

E essas palavras já não me magoaram.

Desde esse dia algo começou a libertar-se em mim. Sem milagres. Sem redenção cinematográfica. Só deixei de viver como se merecesse condenação perpétua por uma ausência de hora. A minha esposa já não podia ser devolvida. Mas o gato idoso, devagar, precisava de casa, de calor, de companhia.

Eu e Celestino ganhámos rituais pequenos. De manhã espera o som da chaleira, vai à taça, dorme ao sol depois de almoço, ao serão estica-se perto da televisão. Não sei se gosta dos sons ou só de saber que não está sozinho.

Às vezes penso: nunca fui o primeiro dono de Celestino. Nem serei o último de quem recorda. Ele teve vida antes de mim, outras perdas, outros hábitos. Mas foi-me dado o privilégio de lhe dar velhice com respeito, e não só pena.

Talvez fosse isso que procurava após o hospital: não perdão, não esquecimento, mas simplesmente a possibilidade de não deixar mais ninguém sozinho, se estiver ao meu alcance.

Recordo muitas vezes o rosto da mulher no abrigo, ao contar-lhe porque queria o mais velho. Para ela terá sido estranho. Para mim não tinha nada de heroico ou de mártir. Era só uma necessidade humana: se não conseguimos salvar um instante final, não devemos achar que todos os próximos têm de passar por nós à margem.

A minha casa não está mais vazia.

Agora, alguém espera. Alguém caminha até à cozinha. Alguém respira no escuro. Alguém empurra um rato velho, dorme junto ao aquecedor. E com eles, entrou finalmente o que já não ousava desejar.

Um sossego manso, tardio, mas verdadeiro comigo próprio.

Talvez eu e o Celestino não nos tenhamos salvo um ao outro. Isso seria bonito demais. Talvez só nos tenhamos encontrado a tempo de não terminar sós.

E é precisamente isso que basta para que a vida volte a valer.

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Entrei num abrigo e pedi para me mostrarem o gato mais velho que lá tinham. Quando a funcionária ouviu, ficou em choque porque…