Diário, 2 a 10 de janeiro
Ainda sinto a culpa percorrendo meu peito. Este fim de ano foi muito diferente do que eu planeava A mãe do Joaquim adoecera justo antes do réveillon e acabámos por ficar em Lisboa durante as festividades, tranquilos, entre mantas e chá quente, só nós dois e ela. Havia quase um silêncio bonito nesta virada de ano, mas não deixo de pensar nos nossos amigos, a Beatriz e o Manuel, com quem tínhamos combinado ir à nossa casa de campo em Sintra.
Beatriz ficou genuinamente desapontada quando dissemos, às vésperas, que não iríamos mais. Não que ela não entendesse a situação, mas sei que ela sonhava com os dias fresquinhos na serra, longe da sogra. Hoje, segunda-feira, ela telefonou-me, e eu mal consegui esconder meu desconforto ao ouvi-la lamentar dos dias fechados em um apartamento apertado de Setúbal, entre discussões familiares e drama.
Raquel, não aguento mais, disse. A mãe do Manuel veio morar conosco até arranjarem o aquecimento lá na Baixa. Eu vou acabar por lhe pedir o divórcio, juro-te, se é para ficar assim o resto da vida!
Lamento, querida. A Dona Augusta está mais frágil, mas espero que tudo passe. Se houvesse algo que eu pudesse fazer…
Olha, se puderes fazer mesmo uma coisa, assim prática. Dá-nos a chave da vossa casinha. Eu e o Manuel fugimos para lá, deixamos a Augusta com o sofá só para ela.
Foi aí que hesitei. Por um lado, queria ajudar amizade é para isso. Por outro, o Joaquim talvez não gostasse; apesar de que a casa, legalmente, pertence a ele. Fui falar com ele.
Joaquim, achas boa ideia emprestar a casa à Beatriz e ao Manuel?
Not sure, Raquel. A casa é nossa, mas… e se acontecer algum problema?
Ela está mesmo de rastos, a convivência com a sogra é insuportável, diz ela. E se um gesto nosso salvar o casamento deles?
Pensámos e, por fim, concordámos que a felicidade dos nossos amigos valia a tentativa. Decidimos entregar-lhes as chaves, mas com o aviso claro: qualquer contratempo, que se resolvam eles nós ficaríamos à margem.
Quando Beatriz veio buscar as chaves, agarrou-me pelo braço com gratidão. Depois conto-te tudo. Vamos cuidar bem da casa, prometo. E lá foram os dois, mala, cobertinhas e esperança renovada.
Entretanto, logo chegaram os percalços. A estrada para Sintra estava cheia de neve, o 4×4 deles não conseguiu avançar. Telefone atrás de telefone Raquel, conheces algum tratador de caminhos? Joaquim tem um número? Liguei ao senhor António, o velho tratorista da aldeia, tentando um milagre em época de feriados, mas foi mesmo Joaquim a conseguir convencê-lo a vir à casa, após várias tentativas e muito nervosismo.
Mais telefonemas, mais mensagens. Beatriz parecia esquecer que tinha idade suficiente para resolver certas coisas, mas cada detalhe era motivo de consulta: Onde está a frigideira?, Está frio, como funciona o aquecimento?, Sabes onde se guarda o carvão? Joaquim já irritado, e eu exausta, decidimos desligar os telemóveis e descansar.
De manhã, dezenas de chamadas perdidas. Finalmente atendi: Raquel, esteve quase a haver fogo na casa de banho! Credo, Beatriz, o que aconteceu? O aquecedor da sauna estava com a chaminé entupida, podíamos ter ardido! Suspirei. Desculpa, não pensei que irias usar logo a sauna E o churrasco? Beatriz, o nosso grelhador partiu-se o verão passado, tinham que procurar outro.
Tentei dar conselhos práticos, mas ela queria solução pronta para tudo. Joaquim, ao ouvir o resumo, só disse: Só faltava quererem panela de arroz para fazer arroz de pato
É uma questão de limites. Disse-lhe para comprarem o grelhador descartável na loja do aldeão, e a conversa acalmou. Os dias seguintes foram mais tranquilos, finalmente. Beatriz escreveu que estava tudo bem e nós deixámos de nos incomodar.
No final das férias, Dona Augusta melhorou e Joaquim foi buscar as chaves à casa. Esperávamos que estivesse tudo em ordem, mas ele voltou para casa aborrecido. Não disse uma palavra, e eu comecei a desconfiar.
O mistério dissipou-se no dia seguinte. Beatriz chamou-me à casa dela. Quando cheguei, colocou uma folha sobre a mesa: Olha, fizemos as contas. O quê? O que gastámos na vossa casa. Tratorista, grelhador, carvão, óleo essencial para a sauna, iluminação nova. Fica mais justo dividir.
Fiquei parva. A sério, Beatriz? Nós emprestamos a casa para vos ajudar e agora queres dividir despesas?
Raquel, se vosso grelhador funcionasse, não tínhamos gasto em outro. Se a pá fosse boa, não comprávamos uma elétrica. O senhor António também só foi pago porque estavam atrasados…
Não me contive: Não somos um hotel, Beatriz. O que compraram, foi de vosso agrado, deixem lá. Pode ficar com tudo, menos as lâmpadas. Isso sim, agradeço que tenham trocado. Paguei os vinte euros das lâmpadas pelo MB Way e fui embora sem olhar para trás. Devolvemos tudo o que era deles.
A partir desse dia, nunca mais emprestámos nada. Quisemos ser generosos, mas no fim só recebemos exigências e críticas. O que antes era amizade virou distância seca. A casa de Sintra voltou a ser só nossa; os fins-de-semana ganharam novo sabor sem ligações e cobranças. E quanto aos lamentos da Beatriz? Agora só ecoam entre ela e Manuel…
No fundo, só me pergunto: terá sido isto mesmo amizade?







