– Entra, mãe, estávamos à tua espera, – diz o filho Vítor, enquanto a nora tira-lhe o casaco e entrega chinelos à sogra. De repente, a expressão sorridente da nora transforma-se em preocupação.

Entra, mãe, estávamos à tua espera disse o meu filho, Tiago, enquanto a minha nora, Mariana, me tirava o casaco e me entregava uns chinelos. De repente, o sorriso dela desapareceu e notei uma preocupação no rosto.

Ao entrar na sala cheia de família, Mariana fez um ligeiro sinal com a cabeça para o chão, e percebi, tal como o Tiago, as marcas molhadas no soalho. Olhámos um para o outro, mas decidimos não comentar nada naquele instante.

Tínhamos uma boa razão para celebrar o Tiago e a Mariana tinham tido gémeos há pouco tempo. Agora que os meninos já estavam mais crescidos, resolveram juntar a família próxima para assinalar este momento único.

Reformada já há uns anos e com a pensão curta, trouxe umas roupinhas tricotadas por mim para os meninos. Comprar algo novo estava fora de questão o dinheiro não dava , e até hesitei em vir, mas eles insistiram que numa data destas eu tinha mesmo de estar presente.

Os bebés receberam os nomes de João e Duarte. Fiquei tão orgulhosa João era o nome do pai do meu marido, e Duarte era o nome do meu querido pai. O meu filho estava a honrar as tradições do nosso lado da família, e isso encheu-me de alegria.

Que bonito é o João, parece-se contigo, Marianinha. E este, o Duarte, é a cara chapada do Tiago. O pior é que já me confundo toda, visto que eles são mesmo iguais, dois pingos de água! dizia eu, rodeando o berço dos gémeos sem conseguir distinguir qual era qual.

O Tiago e a Mariana riam-se com vontade. Entre a felicidade e a ansiedade da avó, só podia nascer um clima carinhoso.

Depois do lanche, a família foi-se despedindo, e eu estava a preparar-me para ir. A Mariana olhou para o Tiago, que foi quem me sugeriu:

Ó mãe, fica connosco esta noite. Já está tarde e, com tanta coisa, pode ser difícil apanhar o autocarro. Além disso, davas uma mão à Mariana para dar banho e deitar os meninos.

Está bem, filho, fico sim respondi, com aquele jeito de quem sabe que faz falta.

Ajudei a apanhar a louça da mesa com a minha nora, lavei tudo e deixei a cozinha arrumada. Depois, fomos todos para o banho dos pequenitos ninguém imagina a quantidade de felicidade que eu sentia a segurar um dos meus netos ao colo. Disse-lhes que me sentia desajeitada, os bebés ainda tão pequeninos, parecia que iam escorregar.

Oh mãe, criaste o Tiago sem nunca o deixares cair, não é agora que vais começar brincou a Mariana.

Isso foi há tanto tempo suspirei, rindo , acho que até já me esqueci como é ter um recém-nascido nos braços.

A Mariana passou-me o João, que mal lhe peguei adormeceu no colo, talvez sentindo o calor familiar. Ela embalava o Duarte, cheia de ternura.

Fizeram-me a caminha num quarto à parte para descansar em condições. No entanto, passei a noite de ouvidos postos, vigiando se algum dos meninos resmungava. Só de madrugada é que o cansaço me venceu.

Quando acordei, a Mariana já tinha o pequeno-almoço pronto e os gémeos ainda dormiam.

Então, Mariana, o Tiago? perguntei, estranhando não o ver.

Mãe, sente-se a comer, o Tiago vem já respondeu a minha nora, querendo acalmar-me.

Pouco depois, lá chegou o meu filho, de sorriso aberto, com uma caixa enorme nas mãos.

Mãe, isto é para ti. Anda, abre!

Abri a caixa e fiquei sem palavras um par de botas novinhas em folha. Nunca pensei!

Isto é caro, filhos, não posso aceitar uma prenda destas disse eu, quase a chorar.

Mãe, não custa mais do que tu nos dás todos os dias. Anda lá, calça-as e usa-as à vontade respondeu-me o Tiago, cheio de ternura.

Calcei as botas e nem queria acreditar como calhavam bem e como estavam quentinhas. Perguntei-me logo como tinham adivinhado que eu precisava as minhas já estavam arruinadas, a meter água, e euros para novas não tinha.

Nesse instante, um dos bebés começou a chorar, e lá fui eu, em direção ao quarto, de botas novas e com o coração cheio.

És mesmo incrível, obrigada murmurou o Tiago à Mariana, enquanto olhava emocionado. Se não fosses tu, nunca teria pensado nisto.

Não foi preciso pensar muito. Ontem vi as marcas molhadas quando a tua mãe entrou. Olhei para os sapatos dela e percebi logo. Para nós, trezentos euros são muito, mas conseguimos juntar; para a tua mãe era impossível. Ela precisa sentir-se confortável, merece tudo disse a Mariana, abraçando o Tiago com carinho.

Naquele momento, senti um calor especial. Não sabia se era das botas novas ou daquele sentimento de ser útil, de ainda ter um papel importante na vida do meu filho e da família. E aprendi, mais uma vez, que às vezes o mais importante não se compra sente-se no amor e cuidado com que nos tratamos.

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– Entra, mãe, estávamos à tua espera, – diz o filho Vítor, enquanto a nora tira-lhe o casaco e entrega chinelos à sogra. De repente, a expressão sorridente da nora transforma-se em preocupação.