Então, já chegaram, senhores? — a voz da mãe cortou o silêncio do quente meio-dia assim que o jipe do filho apareceu junto ao portão.

Então, chegaram finalmente, senhores? a voz da mãe cortou o silêncio abafado do meio-dia assim que o SUV do filho apareceu junto ao portão.
Era mais um sábado, igual a tantos outros que já se tinham passado.
O sol brilhava alto no Alentejo, secando os últimos vestígios de orvalho nas largas folhas das abóboras.

O reluzente jipe de Artur, levantando poeira pela estrada de terra, parou junto ao portão azul e alto.

Já na soleira, de braços cruzados, estava a Dona Lurdes.

A sua silhueta, protegida pelo inseparável avental com flores miúdas, era inabalável, como uma rocha.

O olhar duro atravessava o pára-brisas do carro.

Então, chegaram finalmente, senhores? repetiu Dona Lurdes, a voz firme. Sempre de malas e sacos, mas sem juízo nenhum?

Artur saiu do carro, sentindo de imediato a camisa colar-se-lhe às costas.

Atrás dele saiu, devagar, a sua esposa Filomena, abraçada a uma grande geleira de praia com um autocolante: Talho Bom-Gosto.

Ó mãe, para quê esse tom? suspirou Artur, forçando um sorriso. Combinámos: fim de semana, natureza, descanso em família. Trouxemos até carne especial, temperada e tudo.

Descanso? Dona Lurdes deu um passo seco, fazendo ranger a gravilha. Vocês descansam aqui há três meses seguidos. Todos os sábados, este quintal vira uma tasca. Fumo por todo o lado, música tão alta que até o cão do vizinho se assusta, e no fim sou eu que ando dois dias a apanhar garrafas no meio das framboesas.

De trás do carro surgiu o Igor, velho amigo de Artur, de caixa de bebidas na mão.

Boa tarde, Dona Lurdes! disse ele alto, animado. Já estamos prontos para fazer magia na grelha. Onde tem carvão?

Nem saias daí, rapaz! interrompeu a dona da casa. Hoje o meu churrasco está trancado. E quem disse que aceitava visitas hoje?

Artur começou a tirar malas do porta-bagagens sem dizer palavra.

Conhecia aquele humor da mãe tempestade de nível um.

Normalmente, ela ralhava meia hora e depois ia logo preparar o famoso molho para a carne.

Mas algo estava diferente naquele dia. O ar parecia mais denso, carregado de electricidade.

Mãe, só queríamos passar tempo juntos. Disseste que te sentias sozinha murmurou Filomena, jogando a carta da emoção.

Só me sinto sozinha quando vejo a horta coberta de mato, enquanto o meu filho, em três meses, nem o cano da cozinha arranjou! Dona Lurdes virou-se para Artur. Quando foi a última vez que pegaste na roçadora? E a vedação? Prometeste pintar na Páscoa. Já estamos em outubro e continua a cair aos bocados!

Saltou do carro outro amigo, André, com um molhe de lenha para a fogueira.

Nós tratamos de tudo, Dona Lurdes! Comemos e já pegamos ao trabalho.

Já, para vocês, nunca chega! aumentou a mãe de tom. Venham aqui como para um serviço tudo incluído: eu sou a empregada, a cozinheira e a vigilante. O que é que eu ganho? Só a tensão a disparar e lixo para limpar!

Artur parou, carvão na mão, sentindo a irritação a crescer dentro de si.

Chegámos a este ponto cortou Dona Lurdes. Têm uma hora. Arrumem os vossos pertences, a vossa carne temperada e os amigos, e regressem a Lisboa. Vocês têm apartamentos e varandas, façam lá o vosso piquenique!

Mãe, a sério? Artur não acreditava no que ouvia. Levámos três horas para cá chegar no trânsito!

Mais a sério era impossível. Cansei de ser cenário para os vossos divertimentos. A casa de campo é o nosso lar, não churrasqueira.

O ambiente estava a ser insuportável. Igor e André olhavam-se, constrangidos.

Filomena fitava o marido à espera de reação. No ar não cheirava a carvão, mas a uma cisão que podia durar anos.

Mãe, fala connosco, por favor disse Artur, largando o saco e aproximando-se da mãe. O que aconteceu de verdade? Porque é que, de repente, nos pões como inimigos?

Dona Lurdes calou-se por uns instantes, os lábios a tremer antes de se recompor.

Porque sou invisível para vocês, filho. Veem as árvores, a mesa debaixo da pereira, a água fresca do poço. Mas não me veem a mim. Não veem a mãe que às seis da manhã tira água para regar os vossos tomates preferidos, que vocês devoram com vinho sem sequer perguntar se me dói as costas. Trazem os amigos, eu tenho de ouvir as parvoíces deles até às tantas e ainda ouvir reclamações do presidente da associação.

Filomena baixou o olhar, constrangida.

Recordou, de repente, a conversa da semana passada, quando se queixara das moscas a mais e do colchão velho da casa.

Nós não queríamos começou Igor, mas Dona Lurdes fez-lhe sinal para se calar.

Vocês não quiseram pensar. É o mais fácil. Agora pensei eu por todos. Têm duas opções: ou pegam já nos utensílios e hoje até ao pôr do sol deixam tudo decente vedação, telheiro, mato no pomar , ou vão-se embora já. E sem telefonema a perguntar queres ajuda não vos quero ver cá tão cedo.

Artur olhou para os amigos.

Ambos envergonhados, mas visivelmente sem entusiasmo para trabalhar àquela hora, naquele calor.

E então, malta? perguntou Artur. Vamos à procura de outro lugar para o churrasco?

André suspirou, largou a lenha e limpou as mãos às calças.

Artur, a tua mãe tem toda a razão. Viemos aqui só para aproveitar. Dona Lurdes, onde tem as tintas? Fui construtor, ainda me lembro do ofício, ponho essa vedação nova em três horas.

Igor acenou também:

Vou já tratar do cano. De certeza que é só mudar a borrachinha, e até tenho o kit de ferramentas no carro.

Dona Lurdes semicerrava os olhos, avaliando a seriedade do grupo.

Quero ver trabalho bem feito, se não vos deixo sem jantar!

Nunca o trabalho correra tão depressa.

Filomena, de t-shirt velha de Artur, ajoelhou-se na horta a tratar dos morangos.

Artur e André lixavam as tábuas velhas da vedação, preparando-as para tinta fresca.

Igor lutava com as engrenagens enferrujadas do cano, soltando uns resmungos em surdina.

Ao princípio, o silêncio era pesado resultado da vergonha.

Mas com os primeiros resultados a vedação a ganhar cor nova, o cano a correr limpo o ambiente foi mudando.

Dona Lurdes olhava pela janela da cozinha.

Observava como o filho se empenhava, como Filomena não se importava de estragar o verniz ao arrancar ervas.

O coração, antes cheio de mágoa, começava a suavizar.

Pegou no velho tacho e foi descascar batatas.

Ao fim da tarde, o quintal estava irreconhecível.

O mato desaparecera, a vedação brilhava com nova demão, o anexo estava limpo.

Exaustos mas satisfeitos, os homens refrescavam-se com água do poço.

Então, mestres? sorriu Dona Lurdes, do alpendre, com um tabuleiro de rissóis acabados de fritar nas mãos. Venham jantar. O caldo verde já está na mesa.

E a carne? gracejou Artur.

A carne aguenta. Primeiro comem do que se faz com carinho, não apenas na brasa.

À mesa, o ambiente era outro.

Não havia música alta, nem conversas ocas sobre negócios.

Só o aconchego verdadeiro de casa.

Dona Lurdes falava dos tempos em que, com o falecido António, plantou aquelas árvores e sonharam ver ali netos aos magotes.

Sabem, meus filhos disse ela, servindo chá, voz suave , a casa de campo não é só um terreno. É a nossa história. Cada árvore, cada canteiro foi sonhado e cuidado. Se cá vêm só para comer e beber, pisam essa memória. Não quero presentes caros. Quero ver que vos importa o que criámos juntos.

Artur apertou-lhe a mão. Tinha os olhos húmidos.

Perdoa-nos, mãe. Andámos distraídos com a vida e esquecemos o que mais importa.

Já chega, sorriu Dona Lurdes, rejuvenescendo no sorriso. O que importa é que me ouviste. E a vedação, olha, ficou melhor que a da Maria Joaquina do lado!

No dia seguinte, partiram já noite fora.

No porta-bagagens, em vez de sacos vazios, iam maçãs do quintal, tomates e frascos de compota.

Dona Lurdes ficou junto ao portão a acenar enquanto o carro desaparecia.

Artur, disse Filomena, quando já iam a caminho da autoestrada. Hoje senti-me mesmo descansada, coisa que não sentia há muito. Mesmo com as costas doridas.

Porque hoje não foi só churrasco, Filomena. Hoje reconstruímos o que tínhamos deixado cair na indiferença.

A partir daí, as visitas mudaram.

Todos os sábados, Artur era o primeiro a perguntar: Mãe, o que está por fazer: telhado ou pomar?

Os amigos também mudaram; perceberam que ir à casa da Dona Lurdes não era só um piquenique, mas um reencontro com o respeito por quem lhes deu tudo.

A casa deixou de ser churrasqueira para ser casa de família, cada prego e cada flor num sítio de significado.

Nunca mais Dona Lurdes ficou à porta com ar zangado.

Agora recebia-os de braços abertos, sabendo que ali chegavam pessoas, não hóspedes.

Esta história lembra-nos a todos algo essencial.

A casa dos pais não é uma área de serviço.

É o altar da nossa infância, a pedir não sacrifícios, mas respeito e mãos que ajudem.

Às vezes, um só dia de enxada na mão vale mais que o jantar mais caro do centro de Lisboa.

Cuidem dos vossos pais e não deixem que a vossa ausência os torne solitários.

E vocês, costumam ajudar os vossos pais lá no campo? Ou andam tão ocupados que deles já quase se esqueceram?

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Então, já chegaram, senhores? — a voz da mãe cortou o silêncio do quente meio-dia assim que o jipe do filho apareceu junto ao portão.