Encontrei o meu pai de 87 anos na cozinha. Com as mãos trémulas, tentava tirar a açorda espessa diretamente do tacho. Não ligou o fogão, com medo de se esquecer de fechar o gás e, assim, eu acabar por ter uma “razão” para o levar para Lisboa, para um lar de idosos.

Encontro o meu pai, com 87 anos, sozinho na cozinha. Com as mãos a tremer tenta tirar a papa de milho fria diretamente do tacho. Não acende o fogão porque tem medo de se esquecer de fechar o gás, e assim acabo por lhe dar uma desculpa para o levar para Lisboa, para algum lar de idosos.

Tiro-lhe o tacho das mãos, sem pensar duas vezes.

Pai, porque é que não aqueceste isso? Para que é que te comprei o micro-ondas? exclamo, já sem paciência. Apanhei quatro horas de filas de trânsito, venho exausto, à beira das lágrimas.

Ele não me olha. Fica a fixar o velho chão de linóleo, o mesmo que ele próprio colocou quando eu ainda estava na escola primária.

Esses botões parecem tão pequenos agora, filho. E os números confundem-se-me todos murmura, quase sem voz.

Nesse momento, parte-se-me algo por dentro.

Ultimamente apareço pouco. Convenço-me com o argumento do trabalho, das atividades dos miúdos, desta correria da vida. A verdade é outra: custa-me enfrentar o declínio daquele que sempre foi o meu herói.

Ao telefone repito vezes sem conta:

Pai, um dia vais tropeçar nesse degrau da varanda
Vem viver connosco. No prédio há elevador, é quentinho, não há degraus na casa de banho.

Julguei que estava a ser um bom filho. Que estava a salvá-lo. Queria, na realidade, calar a inquietação diária: Como estará ele, sozinho?

Sento-me à frente dele. A casa está fria baixou o aquecimento ao mínimo para não gastar gás nem me pedir dinheiro para as contas.

Desculpa, filho sussurra com a voz embargada. Não queria dar-te trabalho. Sei que tens a tua vida Mas eu não quero sair daqui.

Acena com a cabeça em direção à sala. O seu mundo resume-se agora à velha poltrona em frente à televisão e a um monte de contas que já não consegue ler sem os óculos.

Se te disser que já não aguento, levas-me daqui continua, olhos a brilhar com lágrimas. E se sair desta casa, fico vazio. Só vou esperar pelo fim, entre paredes estranhas.

Estas palavras ferem mais do que qualquer recriminação.

Trato-o como um problema para resolver. Como um fardo a despachar. Esqueço quem foi este homem: quarenta anos de turnos na fábrica para eu poder estudar. A sua dignidade resiste apenas nestas paredes velhas.

Fico em silêncio. Passo a papa para um pequeno tacho, aqueço-a no fogão e sirvo-a em dois pratos.

Jantamos devagar, quase calados. Só se ouve o ruído das colheres a bater no prato lascado.

Pela janela, ele olha os galhos nus das árvores do quintal e diz uma coisa que jamais esquecerei:

Sabes, filho Quando se chega a velho já não se quer coisas nem conforto. Quer-se sentir que ainda se é pessoa. Que ainda se é importante para alguém. Que os nossos estão por perto.

Apercebo-me do quanto fui negligente.

Ele não quer cuidados modernos, nem obras no meu apartamento. Precisa de mim.

Alguém que ajude a preencher o papel para o suplemento da reforma, sem se exaltar.

Alguém que cole etiquetas grandes nos botões do micro-ondas.

Alguém que simplesmente fique ali, a encher aquela casa de presenças e não de vazio.

Pensamos que amar os nossos pais é chegar, resolver tudo. Mas o amor, para eles, é mesmo a nossa presença. É ficarmos ao lado deles na velhice, sem fugir.

Nesse dia deixo de sugerir a mudança.

Agora venho cá todos os domingos. Sem exceção. Às vezes trago o carro cheio de compras, outras vezes os netos para encherem a casa de barulho e alegria.

Mas, na maioria dos domingos, sento-me só ao pé dele, nas suas velhas cadeiras.

Porque vai chegar o dia em que a cadeira ao meu lado estará vazia. E nenhum sucesso, nem todo o dinheiro do mundo, me dará mais uma hora ao lado do meu pai.

Não tratem os vossos pais como projetos ou pesos.

Eles não querem lições nem as melhores soluções.

Precisam é do vosso tempo.

Estejam com eles agora enquanto é agora.

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Encontrei o meu pai de 87 anos na cozinha. Com as mãos trémulas, tentava tirar a açorda espessa diretamente do tacho. Não ligou o fogão, com medo de se esquecer de fechar o gás e, assim, eu acabar por ter uma “razão” para o levar para Lisboa, para um lar de idosos.