Encontrei no sótão uma carta da minha primeira paixão de 1991, que nunca tinha visto antes – depois de a ler, escrevi o nome dela na barra de pesquisa

Encontrei no sótão uma carta da minha primeira paixão, datada de 1991, que nunca antes tinha visto depois de a ler, escrevi-lhe o nome na barra de pesquisa.

Por vezes, o passado permanece adormecido até ao momento em que decide acordar. Quando um velho envelope escorregou da prateleira empoeirada do sótão, escancarou de novo um capítulo da minha vida que, julgava, já tinha fechado para sempre.

Eu não a procurava. Sinceramente, não. Mas, por mais estranho que pareça, todos os Dezembros, quando a casa mergulhava na penumbra por volta das 17h, e as velhas luzes de Natal piscavam junto à janela como em tempos idos, quando os meus filhos eram pequenos, Sofia regressava sempre ao meu pensamento.

Não a procurava.

Nunca foi intencional. Ela vinha como o aroma do pinheiro. Trinta e oito anos depois, ainda assombrava os cantos do Natal. Chamo-me Miguel e agora tenho 59 anos. Com 20, perdi a mulher com quem pensei envelhecer.

Não foi por falta de amor, nem por algum fim dramático. Não, a vida tornou-se ruidosa, veloz e complicada de formas que nenhum de nós podia prever quando éramos aqueles miúdos de faculdade a fazer promessas ao pé das bancadas.

Nunca foi planeado.

A Sofia, para os amigos e família apenas Fia, tinha aquele jeito calmo e seguro de ser que inspirava confiança. Era daquelas pessoas que, numa sala cheia, te faz sentir único ali dentro.

Conhecemo-nos no segundo ano da universidade. Deixou cair uma caneta. Eu apanhei-a. Assim começou tudo.

Ficámos inseparáveis. Éramos o casal que fazia os outros revirar os olhos, mas ninguém nos conseguia detestar, porque não éramos exibicionistas.

Éramos apenas… bem.

Agarrei-me a isso.

Mas depois chegou a altura da formatura. Recebi um telefonema o meu pai tinha caído. Já andava adoentado e a minha mãe não conseguia lidar sozinha. Fiz as malas e voltei para casa.

A Fia acabara de receber uma proposta de trabalho numa associação solidária, daquelas onde podia crescer e fazer a diferença. Era o sonho dela nunca lhe pediria que o pusesse de parte.

Dizíamos um ao outro que seria apenas por pouco tempo.

Sobrevivemos com visitas de fim de semana e cartas.

Acreditávamos que o amor bastava.

Mas depois veio a formatura.

E depois, simplesmente, desapareceu.

Não houve discussão, nem despedida apenas silêncio. Numa semana recebia das dela aquelas cartas longas e perfumadas a tinta, na outra, nada. Enviei mais cartas. Continuei. Escrevi aquela, diferente de todas. Disse-lhe que a amava, que esperava, que nada mudara.

Foi a última carta que mandei. Cheguei a telefonar para casa dos pais ansioso, pedi-lhes que lhe entregassem a carta.

O pai dela foi cordial, mas distante. Garantiu que lha entregava. Acreditei nele.

Acreditei mesmo.

Semanas passaram. Depois meses. Sem resposta, convenci-me de que ela tinha feito uma escolha. Talvez tivesse aparecido outro. Talvez tivesse mudado. Acabei por fazer o que todos fazem quando a vida não traz um ponto final.

Segui em frente.

Conheci a Teresa. Era diferente da Fia em tudo. Prática, estável, sem paciência para romantismos. A verdade? Precisava mesmo disso. Namorámos durante anos. Casámos.

Construímos uma vida tranquila juntos dois filhos, um cão, uma casa financiada em euros, reuniões da associação de pais, passeios no Gerês, toda a rotina.

Não foi uma má vida, apenas diferente.

Segui em frente.

Aos 42 anos, acabei por me divorciar da Teresa. Não houve traições, nem dramas. Apenas dois adultos a perceber que se transformaram em colegas de casa em vez de amantes.

Dividimos tudo a meias e despedimo-nos com um abraço no escritório do advogado. Os nossos filhos, João e Catarina, já eram crescidos e perceberam.

Felizmente, aguentaram-se bem.

O problema nunca foi

infidelidade ou caos.

A Fia, no entanto, nunca me deixou realmente. Ficou lá. Todos os Natais pensava nela, perguntava-me se seria feliz, se se lembrava das promessas tolas de jovens, se alguma vez me tinha mesmo deixado partir.

Em certas noites, deitado, ficava a olhar o teto e ouvia o riso dela a ecoar ao longe.

No ano passado, tudo mudou.

Ela ficou.

Andava eu no sótão à procura das decorações que, de forma misteriosa, desapareciam todos os Dezembros. Era uma daquelas tardes frias de cortar, em que até dentro de casa, as mãos gelam. Estiquei-me para cima da prateleira e um envelope esguio e amarelado caiu, pousando-me no sapato.

Era amarelo, com os cantos gastos.

O meu nome por extenso, escrito naquele jeito inclinado e delicado.

A letra dela!

Juro, prendi a respiração.

A letra dela!

Sentei-me no chão, rodeado de coroas artificiais e enfeites partidos, e abri o envelope com mãos trémulas.

Data: Dezembro de 1991.

O peito apertou-se-me. Mal li as primeiras linhas e algo em mim estalou.

Nunca antes vira aquela carta. Nunca.

Ao início, pensei que talvez a tivesse perdido. Mas olhei de novo para o envelope estava aberto e depois colado outra vez.

Um nó fechou-se-me no peito.

Só podia haver uma explicação.

Teresa.

Não sei quando a encontrou, nem porque nunca me disse. Talvez tenha aparecido durante um dos seus arrumos. Ou achou que protegeria o nosso casamento. Talvez não tenha tido coragem para me dizer que aquela carta, esteve ali todos aqueles anos.

Já não interessa. Mas o envelope estava dentro de um anuário antigo, escondido na última prateleira do sótão. E eu nunca tocava naquela capa.

Agora já não interessa.

Continuei a ler.

A Fia escrevia que só então encontrara a minha última carta. Os pais tinham-lha escondido, enterrada junto de papéis velhos e ela nunca soubera que eu tinha tentado contactá-la. Disseram-lhe que eu ligara e lhe pedira que me esquecesse.

Que não queria ser encontrado.

Fiquei nauseado!

Ela explicava que a pressionaram a casar com Tomás, amigo da família. Diziam-lhe que era estável, fiável tudo aquilo que o pai dela valorizava.

Não disse se o amava, só que estava exausta, baralhada e magoada por eu nunca ter ido atrás dela.

Fiquei nauseado!

Depois, uma frase ficou-me na memória:

Se não responderes, vou assumir que escolheste a tua vida e deixo de esperar.

O endereço dela estava no rodapé.

Fiquei ali sentado muito tempo. Senti-me de novo com 20 anos, coração partido nas mãos, mas agora, com a verdade ali à frente.

Desci as escadas e sentei-me na beira da cama. Puxei do portátil e abri o browser.

Durante muito tempo,

Só estive ali.

Depois escrevi o nome dela na barra de pesquisa.

Não esperava encontrar nada. Décadas tinham passado. As pessoas mudam de nome, mudam de cidade, apagam o rasto digital. Mas mesmo assim procurei. Nem sabia bem o que queria encontrar.

Meu Deus, murmurei, sem acreditar no que via.

O nome dela levou-me a um perfil de Facebook, só que agora o apelido era outro.

As minhas mãos pairaram sobre o teclado. O perfil era fechado, mas tinha uma foto de rosto e ao clicar, senti o coração saltar!

Décadas tinham passado.

A Fia sorria debruçada sobre um trilho na Serra da Estrela, ao lado de um homem mais ou menos da minha idade. O cabelo dela, agora salpicado de cinzento, os mesmos olhos de sempre. O jeito suave de inclinar a cabeça, o sorriso doce.

Observei melhor, pois o perfil estava quase todo fechado.

O homem ali ao lado ao que parecia, não era marido. Não lhe segurava na mão. Não havia proximidade, mas era difícil ter certezas.

Podiam ser quem quer que fosse, não importava. Ela era real, viva, a um clique de distância.

Os olhos dela não tinham mudado.

Fiquei a olhar para o ecrã longos minutos, sem saber o que fazer. Escrevi-lhe uma mensagem. Apaguei. Escrevi uma segunda. Apaguei outra vez. Tudo me parecia forçado, tardio, excessivo.

Depois, num impulso, cliquei Adicionar amigo.

Pensei que talvez nunca visse o convite. Se visse, podia ignorar. Talvez já não soubesse quem eu era, passados estes anos todos.

Tentei de novo.

Menos de cinco minutos depois aceitou o convite!

O coração falhou-me uma batida!

Logo chegou uma mensagem.

Olá! Há tanto tempo! O que te levou a adicionar-me assim do nada, passados tantos anos?

Fiquei em choque.

Tentei escrever, mas desisti. As mãos tremiam. Lembrei-me que podia enviar uma mensagem de voz. Foi o que fiz.

O meu coração quase não cabia no peito!

Olá, Fia. Sou mesmo eu, o Miguel. Encontrei a tua carta aquela de 1991. Nunca a recebi. Sinto muito, não fazia ideia. Pensei em ti todos os Natais, a sério. Nunca deixei de me perguntar o que aconteceu. Juro que tentei, escrevi, liguei aos teus pais. Não sabia que te tinham dito que te afastei

Parei a gravação antes que a voz me falhasse, e gravei outra.

Nunca quis desaparecer. Eu também te esperei. Teria esperado para sempre, se soubesse que continuavas aí. Achei só que tinhas seguido com a tua vida.

Olá, Fia

Enviei as duas mensagens e fiquei a ouvir o silêncio. Daqueles silêncios que apertam o peito.

Ela não respondeu. Não nessa noite.

Mal dormi.

De manhã, assim que abri os olhos, fui olhar o telemóvel.

Lá estava a mensagem.

Temos de nos encontrar.

Foi tudo o que disse. Mas era tudo o que eu precisava.

Mal dormi.

Sim, respondi. Diz só quando e onde.

Morava a menos de quatro horas de mim, e o Natal aproximava-se.

Sugeriu um café pequeno, a meio caminho entre nós. Terreno neutro, só café e conversa.

Telefonei aos meus filhos. Disse-lhes tudo. Não queria que achassem que estava a perder o juízo ou a correr atrás de fantasmas. O João riu-se e disse: Pai, isso é literalmente a coisa mais romântica que já ouvi. Tens mesmo de ir.

A Catarina, sempre pragmática, acrescentou: Só cuidado, está bem? As pessoas mudam.

Eu sei respondi. Mas talvez tenhamos mudado da forma certa.

Telefonei aos filhos.

Meti-me no carro num sábado, com o coração aos pulos o caminho todo.

O café ficava numa esquina recatada. Cheguei dez minutos antes. Ela entrou cinco minutos depois.

E lá estava de repente!

Trazia um casaco azul-escuro, cabelo apanhado para trás. Olhou-me nos olhos e sorriu, calorosa e sem reservas, e eu levantei-me antes de perceber.

Olá, disse.

Olá, Miguel, devolveu no mesmo tom.

E assim,

ela estava ali mesmo!

Abraçámo-nos, primeiro de forma hesitante, depois com força como se os nossos corpos recordassem o que a cabeça ainda não tinha percebido.

Sentámo-nos e pedimos café. O meu, simples. O dela, com natas e uma pitada de canela igual ao que eu lembrava.

Nem sei por onde começar, disse eu.

Ela sorriu. Se calhar pelo princípio. Pela carta.

Sinto muito. Nunca a vi. Acho que foi a Teresa, a minha ex-mulher, que a encontrou. Estava num anuário velho, os anos todos no sótão. Acho que a guardou, não sei porquê. Talvez achasse que protegia qualquer coisa.

Talvez a carta.

Ela acenou. Acredito em ti. Os meus pais disseram-me que era para seguir com a minha vida, esquecer-te. Disseram que pediste para não entrar mais em contacto. Fiquei destroçada.

Liguei, roguei-lhes que te entregassem a carta. Nunca soube que não to deram.

Tentaram sempre controlar o meu destino confessou. Gostavam do Tomás. Diziam que era seguro. E tu achavam-te sonhador demais.

Bebeu um gole de café e olhou a rua por instantes.

Casei com ele disse baixinho.

Imaginei confessei.

Ela confirmou.

Tivemos uma filha, Matilde. Tem agora 25 anos. O Tomás e eu separámo-nos depois de 12 anos.

Fiquei sem palavras.

Voltei a casar, continuou. Durou quatro anos. Era boa pessoa, mas cansei-me de tentar. Parei, pronto.

Olhei para ela, tentando ver nos traços os anos passados.

E tu?, perguntou.

Casei com a Teresa. Tivemos o João e a Catarina. Bons filhos. O casamento funcionou, até deixar de funcionar.

Ela assentiu.

E tu?

O Natal era sempre o mais difícil confessei. Era quando pensava mais em ti.

Também eu sussurrou.

Ficámos silenciosos, pesados.

Toquei-lhe nos dedos, de leve, por cima da mesa.

Quem é o homem da tua foto do perfil? arrisquei, com medo da resposta.

Ela riu-se. O meu primo, Hugo. Trabalhamos juntos no museu. Ele é casado, com um homem maravilhoso chamado Duarte.

Soltei uma gargalhada tão espontânea, que a tensão desapareceu num segundo!

Ela riu-se também.

Que bom que perguntaste, disse.

Espero bem que sim.

Inclinei-me, com o coração a mil.

Fia já pensaste se poderíamos tentar outra vez, agora? Mesmo que já tenha passado tanto tempo, mas talvez até por isso, porque agora já sabemos o que queremos?

Ela olhou nos meus olhos um tempo.

Pensei que nunca perguntarias, respondeu.

Assim se recomeçou.

Espero bem que sim.

Convidou-me para passar o Natal na sua casa. Conheci a filha dela. Alguns meses depois, ela conheceu os meus. Todos se entenderam melhor do que eu poderia imaginar.

Este último ano foi como regressar a uma vida que pensei ter perdido mas com outros olhos. Mais sábios.

Caminhamos juntos, todos os sábados de manhã. Escolhemos um trilho novo, levamos café em garrafas térmicas e seguimos lado a lado.

Falamos sobre tudo.

Os anos perdidos, os filhos, as feridas e as esperanças.

Mais sábios.

Por vezes, ela olha para mim e pergunta: Acreditas que nos reencontrámos?

E eu respondo sempre: Nunca deixei de acreditar.

Nesta primavera, vamos casar.

Queremos uma cerimónia pequena. Só família e uns poucos amigos. Ela quer azul. Eu, cinzento.

Às vezes, a vida não esquece aquilo que ainda tem de acontecer. Apenas espera que estejamos prontos.

Eu vou de cinzento.

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