Olha, foi um reboliço, amiga. Já viste tu tentar descobrir quem foi o responsável e ninguém se acusar? Os miúdos, mal deram sinais de vida depois de correrem até ao rio, esqueceram-se completamente de fechar o Papagaio na gaiola. A minha avó, coitadinha, chega do Pingo Doce, escancarou a janela da sala toda contente, a pensar no fresco e zás! Quando à noitinha demos por falta do nosso Fábio, percebemos logo: o nosso fiel papagaio-amazona fugiu e ninguém sabia para que lado.
Foram três dias e três noites em que largámos tudo cá em casa e andámos no bairro da aldeia a correr atrás do desaparecido. Tudo em vão. Ninguém tinha visto sinal do Fábio. Os miúdos até ficaram com os olhos inchados de tanto chorar, avó só se queixava com o seu clássico ai Jesus, e eu e o meu marido, a descarregar frustração, ora nos velhos, ora nos pequenos.
E olha que nem à nossa cadela, a laçarota da Mika, dava para descontar. A Mika andava tristíssima, parecia que não era a mesma. Só reagia a campainha aí saltava desalmada até ao corredor, ladrava como uma doida, mas logo se calava e olhando à volta, notava que estava sozinha, voltando toda cabisbaixa para o cantinho dela. Foram quatro anos em que, sempre que alguém tocava à porta, era um concerto afinadíssimo entre a Mika e o Fábio. Não brinco! O Fábio ladrava tão bem, às vezes parecia que fazia melhor figura do que a Mika.
Sabes que foi com o latido que o Fábio começou a mostrar dotes de papagaio? Ainda era tudo verdinho (em todos os sentidos), e embirrava em assustar a nossa gata, a Mia. Aproximava-se dela, enroscada a dormir tão bem, e desatava num latido mesmo ao ouvido. A Mia dava um salto tão grande, miaava forte, e logo a Mika aparecia com uma chinfrineira era cá em casa uma animação daquelas.
A Mia nem parecia desgostar dele, mas via-se bem que paciência não era infinita. Agora, a Mika oh, a Mika adorava mesmo o Fábio, aquilo era amor genuíno. Ele sentava-se-lhe na cabeça (literalmente!) e ainda lhe dava sermões. Fazia-se à vida com a voz da avó e perguntava: Quem é que vai acabar a sopa? E depois, para espetar ainda mais: Aqui não há porcos, pá!
A Mika, claro, nem lhe ligava, tanto como os miúdos ignoram as lições da avó. Às vezes, farta do sermão, sacudia-o da cabeça com um toque da língua áspera no rabo do papagaio. Mas olha, não fui só eu o desaparecimento do Fábio foi uma tragédia para todos cá por casa, tirando, talvez, a Mia.
Umas duas semanas depois, quando já achávamos que nunca mais íamos ver o nosso tagarela, começaram-se a ouvir boatos pela aldeia: diziam que no meio de corvos que depenavam as cerejeiras apareceu uma ave nova, toda verde, com a cara vermelha. E que, ao contrário dos outros, fazia um barulho! Além de crocitar, ladrava e até dizia asneiras com voz de gente. Olha, até fiquei de pé atrás: a nossa família sabe umas asneiras, mas em voz alta não é costume mas depois pensei: de certeza que o Fábio, a viver à solta, deve ter apanhado umas palavras feias, tal como a Mia apanha pulgas.
Dez dias depois, tive sorte. Estava a tratar da horta e ouvi: Então, como é? Olho para a cerejeira e lá estava ele no meio dos corvos, as amigas dele, todas a comer cerejas à vontade. Chamei baixinho: Fabinho, anda cá, meu filho, a mãe tem aqui sementes boas, anda cá Ele olhou de lado, pensativo. Fabinho, sentimos todos saudades tuas… o papá, a Sofia, o Manel, a Mika. Anda cá, pequenino Fui-me aproximando de braço estendido, já quase a tocar no ramo, quando escuto: Eh filhos da mãe!, com aquela voz trocista do presidente da associação dos moradores. O Fábio, e toda a bicharada, bazaram logo do quintal.
A vida selvagem do Fábio continuou até chegar o inverno. Ele ainda aparecia aqui perto, mas não havia maneira de convencê-lo a voltar para casa. Quando o chamávamos, respondia com crocitar filosófico e voava dali.
Depois, mais para o final do outono, começaram a ver o Fábio sozinho, cada vez mais. Aparecia, tristíssimo, metade das penas em pé, no muro ou nas árvores do jardim, mas nunca se deixava apanhar. Foi então que trazemos a bateria pesada: a Mika. Não sei o que ela lhe disse, só te digo que, nesse dia, o Fábio voltou para casa todo orgulhoso, sentadinho em cima da cabeça da Mika, como se nada fosse. E assim recuperámos o nosso artista cá da casa, depois de tantos dias de novela!







