Numa cova de neve ao lado de uma estrada, foram abandonados recém-nascidos cachorrinhos. A vida deles pendia por um fio, com apenas algumas horas restantes.
Naquele tempo, os pequenos esforçavam-se por sobreviver, colando-se uns aos outros para manter um pouco do calor dos seus corpos. Nessa manhã distante, correu célere a notícia pelas ruas da vila: à beira da estrada, sobre o tapete gelado, tinham deixado uns pobres cachorrinhos ao relento.
Os minúsculos seres amontoaram-se numa tentativa instintiva de preservar calor e resistir ao frio intenso. Embora o calendário já anunciasse os dias de Março e a promessa da primavera, o inverno ainda se impunha com severidade. Em Lisboa, os termómetros marcavam 7 graus, e nos campos afastados, junto à estrada nacional, a temperatura descia a 10 ou mais. Ninguém sabia quanto tempo resistiriam naquela fria cova de neve
A pequena cova cavada no gelo teria sensivelmente vinte centímetros de profundidade. Sob os pequenos corpos o gelo derretera um pouco, tal era o tempo que ali permaneceram, aquecendo por pouco tempo o que podiam com os seus frágeis corpos. Contudo, a vida mudou-lhes o destino. O senhor Joaquim, proprietário de uma oficina de reparações ali próxima, não conseguiu ignorar o sofrimento e recolheu-os, levando-os para dentro. Sem saber bem como proceder a seguir, pelo menos não permitiu que terminassem ali o seu fim. À memória fica a sua bondade. Bem-haja, Joaquim.
Os cachorrinhos eram mesmo diminutos.
Cinco vidas pequeninas: três machos e duas fêmeas, ou talvez quatro machos e uma fêmea ainda não era claro. O senhor Joaquim telefonou a vários voluntários, mas nenhum estava disponível para acolhê-los. Levar tão tenros cachorros para um abrigo estava fora de questão só tinham duas ou três semanas de vida. Nem podiam vacinar-se: antes dos dois meses, tal nem se faz.
Mandar estes frágeis animais para um abrigo seria talvez a sentença final. A doença ronda sempre os frágeis, e todos sabiam disso por experiências tristes passadas. Até nas famílias de acolhimento habituais com cuidados veterinários recusaram tê-los, pois ainda tratavam da Mafalda e do Gaspar, cachorrinhos salvos de uma terrível parvovirose há pouco tempo.
E assim, aquela noite foi passada na própria oficina. O senhor Joaquim, ao ver as imagens das câmaras de vigilância, percebeu: uma mulher (difícil chamar-lhe assim) largara-os na calada da noite, depositando-os na neve, indefesos, à mercê do frio cortante.
O que terão sentido aqueles seres quando foram subitamente arrancados à sua mãe, atirados ao chão gelado sem defesa, como bebés deixados ao destino? Só podemos dizer: Deus julgará esses gestos.
Tudo faremos para que estas criaturinhas encontrem um lar digno e donos que as amem verdadeiramente. Merecem viver e sentir o calor não só do corpo, mas o mais importante, o humano.







