Ele olhava para mim de baixo para cima. Pela primeira vez em todos estes anos — sem superioridade. Nos seus olhos misturavam-se medo, fúria e uma tentativa desesperada de encontrar alguma saída.

Ele olhava para mim de baixo para cima. Pela primeira vez em todos estes anos sem superioridade. Nos seus olhos viam-se medo, raiva e uma tentativa desesperada de encontrar alguma saída. Antes, nesses momentos, sabia pressionar. Agora não.

O que queres? repetiu, desta vez mais baixo. Dinheiro? Diz o valor. Resolvo tudo. Podemos chegar a um acordo.

Deixei-me ficar numa breve pausa. Não teatral profissional. Daquelas feitas antes de fechar um relatório anual e pôr a última assinatura.

Ainda não compreendes, Hugo disse calmamente. Não preciso do teu dinheiro.

Ele piscou. Isso abalou-o mais do que qualquer grito.

Então o quê? Vingança? Queres arruinar-me? a voz dele voltou a subir.

Não. Quero tudo o que é meu de volta. E pôr um fim.

Levantei-me, fui até ao aparador e retirei uma pasta fina. Cinzenta, sem qualquer identificação. Aquela que ficava sempre por baixo entre contratos antigos e papéis de impostos. Nunca a tinha aberto. Para ele, eram as mariquices da contabilista Joana.

Pousei a pasta na mesa e abri-a.

Aqui apontei para a primeira folha estão os contratos de empréstimo. Pessoais. Foste buscar dinheiro à empresa. Muito. Em teu nome. Temporariamente, como gostavas de dizer.

Virei a página.

Aqui estão os protocolos de conferência. Todas as dívidas reconhecidas.

Mais uma folha.

E aqui está o acordo adicional. Se retirares unilateralmente os ativos, a dívida torna-se imediatamente exigível.

Ele ficou lívido. Tanto que as sardas no seu nariz que em tempos achei encantadoras saltaram dolorosamente à vista.

Tu falsificaste isto tudo?

Não abanei a cabeça. Assinaste. Em alturas diferentes. Em estados diferentes. Às vezes bêbado. Outras apressado para reunião que começava depois das nove da noite.

Ele levantou-se de repente.

Isso é chantagem!

Isto é contabilidade, Hugo olhei-o nos olhos. Nunca soubeste distinguir.

Começou a andar pela cozinha, passando a mão pelos cabelos.

Sofia ela não sabia de nada Foi tudo contigo! Planeaste isto!

Sofia sabia o suficiente respondi. Sabia que estavas quase livre e que quase tudo já tinha sido transferido. Para ela, isto chegava.

Voltei a sentar-me. Desta vez em frente a ele.

Tens escolha continuei. Primeira opção: vamos a tribunal. A oferta é anulada. Depois vêm as inspeções. Finanças. Ministério Público. A tua reputação. A tua nova vida. Tudo para baixo.

E a segunda? sussurrou ele.

A segunda é mais fácil. Assinamos um acordo. Sais voluntariamente do negócio. Transferes-me a tua quota. Sem escândalos.

Ele riu. Breve. Histérica.

E achas que fico sem nada?

Não respondi honestamente. Deixo-te exatamente o que me deste a mim. O carro. E tempo para arrumares as tuas coisas.

Olhou-me durante muito tempo. Neste olhar havia tudo: ódio, tentativa de pena e a lembrança de como começámos num pequeno escritório, com um computador velho.

Eu amava-te murmurou.

Não desviei o olhar.

Amava uma pessoa. Não um esquema. Não um traidor. Essa pessoa já não existe.

Ele deixou-se cair na cadeira. Não de modo teatral genuíno.

Dá-me tempo para pensar

Tens vinte quatro horas disse. Amanhã às dez chega o notário.

Ele acenou. Devagar. Sem força.

No dia seguinte, chegou pontualmente. Com o rosto encovado e olhos vermelhos. Sofia não telefonou. Ou telefonou ele não atendeu.

Assinou os papéis em silêncio. A mão a tremer.

Quando tudo acabou, o notário saiu e ficámos a sós.

Ganhaste disse em voz baixa.

Não respondi. Só saí de um jogo onde jogava sozinha há demasiado tempo.

Ele agarrou nas chaves e parou no hall de entrada.

Pensei que eras fraca

Sorrio levemente.

Esse foi o teu maior erro.

A porta fechou-se suavemente atrás dele. Sem estrondo.

Seis meses depois, a empresa estava noutro patamar. Troquei a equipa, eliminei as manobras cinzentas, arrumei tudo. O negócio tornou-se mais limpo e mais forte.

Hugo tentou recomeçar. Segundo comentários sem sucesso. Sofia foi-se embora depressa sem dinheiro, não tinha interesse.

Às vezes via o nome dele nos jornais. Cada vez menos. Cada vez mais discreto.

O ficheiro Reserva apaguei. Já não era preciso.

Por vezes, a melhor vingança não é o golpe.

É o cálculo exato e frio. Feito muito antes do fim.

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Ele olhava para mim de baixo para cima. Pela primeira vez em todos estes anos — sem superioridade. Nos seus olhos misturavam-se medo, fúria e uma tentativa desesperada de encontrar alguma saída.