Inclinei-me para a velha pastor alemão. Ela olhou para mim com um olhar resignado e virou a cara. Já tinha perdido a esperança há muito tempo. Conhecia demasiado bem os humanos
Na rua, chamavam-lhes simplesmente de matilha de cães. Mas eu, que vivia num dos prédios daquele bairro em Lisboa, corrigia sempre: Não é uma gangue. São cinco cães que se juntam para sobreviver.
A líder era uma velha pastor alemão, claramente já foi de alguém. Provavelmente foi abandonada pelos donos quando se mudaram, sem um olhar para trás. Era ela que mantinha os outros unidos, guardava-os, guiava-os, não deixava que essa pequena família de rua se desintegrasse.
Tornou-se um ritual: eu alimentava-os todos os dias. De manhã, a caminho do trabalho, e ao fim da tarde, quando regressava. Sempre que eu aparecia, cinco caudas algumas enroladas, outras arrastadas agitavam-se freneticamente, como hélices. A alegria nos olhos deles era tanta que o coração apertava. Saltavam, encostavam os focinhos molhados às minhas mãos, lambiam-me os dedos. Aqueles olhares diziam tudo: gratidão, confiança, esperança.
Em que poderá esperar um cão que foi abandonado para morrer na rua? Ainda assim, eles tinham esperança. Acreditavam. Amavam. Por isso, nunca aparecia de mãos vazias eles esperavam por mim. E sempre esperavam.
Mas naquela manhã, só quatro vieram ao meu encontro. Choramingavam, olhavam ansiosos para o fundo da rua. Percebi logo algo estava errado.
Suspirei fundo. Liguei para o trabalho e avisei que ia chegar atrasado.
No extremo da rua longa, nos subúrbios de Lisboa, debaixo de uns arbustos, estava a velha pastor alemão. Foi atropelada. Ali há uma curva perigosa, e quem passa costuma acelerar sem pensar muito. Desta vez, não houve sorte.
Os quatro pequenos lamentavam-se baixinho, fitando-me com um olhar suplicante era eu o único humano em quem confiavam.
Inclinei-me para a pastor, lágrimas escorriam dos seus olhos. Ela olhou para mim de novo com resignação e virou o focinho. Hope não era algo que já lhe pertencesse. Era uma velha conhecida dos homens. Só lhe importava uma coisa o que seria dos quatro amigos por quem sempre cuidou?
Está a sofrer? perguntei suavemente ao acariciar-lhe a cabeça, e tirei o telemóvel novamente.
Combinando um dia de folga, fui buscar o carro e com todo o cuidado levei-a até ao banco de trás. Os quatro amiguinhos saltavam ao redor, encostavam-se às minhas mãos como que a agradecer.
Na clínica veterinária, o médico examinou-a e soltou um suspiro:
Devíamos eutanasiar. Tem muitos ossos partidos. As probabilidades de sobreviver são mínimas, o tratamento é muito caro
Mas há uma possibilidade? interrompi.
Há sempre, respondeu o veterinário. Mas vai sofrer imenso. Vale a pena?
Vale, respondi firme. Para mim vale. E para ela também. E há quatro cães à espera dela. Como é que vou olhar para eles se desistir?
O doutor ficou sério, olhou-me nos olhos e acenou:
Então, vamos começar.
Depois de uma semana, fui buscá-la à clínica. Durante todo esse tempo, os outros quatro não arredaram pé da minha porta. O barulho de alegria no reencontro foi tão alto que até a velha pastor reagiu, tentou lamber os amigos.
Carreguei-a até dentro de casa, depois voltei ao portão, reuni os outros e fiz-lhes uma espécie de discurso. Sobre o significado de ter um lar. Que agora não poderiam fazer tudo como antes, na rua.
Sentaram-se todos em frente a mim e escutaram atentos. De repente parei, sorri-lhes:
Ora, a quem é que estamos à espera? Entrem.
E abri-lhes o portão.
A pastor alemão recuperou depressa. Sempre a tentar levantar-se para ir ter com os amigos, e eu atento para não a cansar demasiado. Quando finalmente estava curada e andava bem, coloquei-lhe uma coleira especial dourada, com um pequeno sino.
Hoje em dia, saio de casa mais cedo. Caminho pela rua longa e vazia, levando os cinco cães à trela: quatro pequenos, engraçados, com caudas enroladas, e aquela pastor alemão com a coleira dourada e sino.
E bastava ver como todos vigiam o caminho agora têm um lar. E ela tem a coleira. Caminha com a cabeça bem erguida.
Não perceberiam, porque nunca tiveram uma coleira com sino. Mas qualquer cão sabe: só anda assim quem é respeitada.
Lá seguimos todos eu, o homem que não virou costas, e cinco cães que nunca deixaram de acreditar e amar, mesmo depois da traição humana.
Seguimos, felizes. Não sei bem do quê. Talvez uns dos outros. Talvez do dia solarengo. Ou talvez porque, neste mundo, ainda existe amor.
E ao olhar para aqueles olhos, entende-se: enquanto existirem olhos assim… nem tudo está perdido.






