Ela enterrou o marido, aguentou firme sozinha, levantou o rancho mas depois a vizinha abriu a boca.
Mensagens e e-mails partiam e chegavam, mas nada que realmente explicasse o que se passava.
Agora diga-me, Dona Belmira, virei-me para ela diante de todos, diga, de frente para estas pessoas: por que motivo espalhou mentiras sobre mim? O que lhe fiz de mal? Por que essa crueldade comigo? O que ouvi em resposta mudou tudo.
Ela enterrou o marido, ficou de pé sozinha, pôs a quinta de volta a andar e então a vizinha abriu a boca.
Um boato. Bastou um. E logo a funcionária da mercearia olhava para mim com pena, a enfermeira apertava minha mão: Aguente-se. Todos ao redor pareciam saber de algo, menos eu sem entender de onde vinha tanta preocupação.
Beatriz podia ter ficado calada. Mas naquela tarde, diante da aldeia inteira, resolveu perguntar na cara:
Afinal, porquê?
E o que ouviu em resposta fez o chão desaparecer sob seus pés.
***
Naquele amanhecer o cheiro da terra era aguçado, inquieto, como se pressagiasse grande desgraça ou grande mudança.
Saí ainda escuro, porque as vacas não esperam. Não lhes interessa se me pesa uma pedra na alma ou se é dia de festa. O leite tem a sua hora tente faltar-lhe, só para ver
O orvalho ainda prateava a relva, e pensei: é assim, todas as manhãs a terra lava-se e começa de novo, como se o ontem nunca tivesse existido. Mas o homem não tem essa sorte.
O homem carrega tudo o que já viveu, como um burro arrasta o carro. E não fossem só as coisas boas mais e mais cargas negativas, mágoas, palavras amargas, olhares de lado.
Há quatro anos que moro sozinha no Vale das Amendoeiras, se não contar os animais.
O meu marido, Joaquim, foi-se de repente, um enfarte levou-o no campo, enquanto virava feno. Encontraram-no no fim do dia, o rosto tão tranquilo que parecia apenas ter adormecido, exausto da lida.
Talvez tenha sido melhor assim não sofreu, não viu a vida escapando-lhe entre os dedos.
Depois da partida do Joaquim fiquei com tudo nas mãos: vinte cabeças de gado de leite, bezerros, a quinta em si. Muita gente, na altura, disse: Dona Beatriz, venda isso tudo, vá para Lisboa com a filha, o que está aqui a fazer, a definhar? Mas eu não consegui.
Não era só teimosia. Era porque ali, em cada tábua, em cada carril, em cada rego de terra, estava a vida que construí com o Joaquim. Como largar tudo assim? Acabei por ficar.
Levanto-me às quatro, deito-me às dez. As costas doem, as mãos ficam dormentes de tanto mexer na água fria, mas continuo viva. E alegre pelos bezerros novos, por cada balde de leite, por cada alvorada sobre o rio que corta o vale.
Não gostava de pensar na Dona Belmira, minha vizinha.
Morava três casas acima, numa velha moradia do tempo da outra senhora, viúva também, criou o filho António só. Ele já homem, trinta e poucos anos, mas toda a aldeia chamava-lhe o António da Belmira.
Moço bom, trabalhador, mas com um quê de infeliz. Casou, mas a mulher, ao fim de dois anos, foi-se para o Porto: Nesta terrinha dou em louca, disse-lhe antes de partir. E António não tentou segurá-la.
Já Dona Belmira sem um boato não vivia.
Desancava a vida alheia e só assim sossegava o espírito, sentindo-se importante. Antes não me importava, sempre de afazeres até ao pescoço. Mas no último mês algo mudou.
Começou devagar. Entrei certo dia na mercearia, e a Joana, a empregada, olha-me estranho com pena, como se já me visse com um pé na cova.
Perguntei-lhe:
Joana, que se passa?
Ela, remexendo os sacos, fugiu ao olhar:
Nada, Dona Beatriz nada.
Depois, a enfermeira Carminho cumprimentou-me calorosamente:
Aguente, Beatriz. Estamos todos consigo.
Espantada, questionei: que se passava para eu precisar de apoio?
Acontecia que Dona Belmira espalhara na vila que eu andava a estragar o leite, misturando-lhe água e cal, sabe-se lá que mais, para render mais e que o queijo de cabra que levava ao mercado era aldrabado, nem fresco era: só mudava o rótulo.
Pensei, deixem as mulheres falar, não há-de ser nada Mas estava a destruir uma vida de trabalho com meia dúzia de palavras envenenadas.
Andei uma semana transtornada. Não dormia. Porquê, Belmira? O que lhe fiz eu? Nunca tivemos briga séria, sempre nos saudámos, até veio com lágrimas ao enterro do Joaquim.
Veio então a raiva aquela raiva santa, que empurra para a frente. Levantei-me um dia e compreendi: não, basta! Não vou deixar que me pisem. Não é para isso que me matei a trabalhar.
Sábado havia reunião da aldeia, para falar do arranjo da estrada para a sede do concelho. Vieram uns cinquenta, quase todos. A Dona Belmira sentada à frente, com os beiços apertados, satisfeita da vida.
Quando acabaram de falar da estrada, levantei-me. As pernas tremiam, a voz falhava, mas fui à luta:
Meus amigos, falei, se me permitem uma palavra
O presidente da junta, Senhor Manuel, assentiu. Comecei meio enrolada, depois fui ganhando coragem. Contei o que andava a ouvir.
Tudo mentira! O meu leite é analisado todas as semanas. Tenho aqui os papéis da Câmara!
O meu queijo vai a três lojas e nunca ninguém reclamou!
Agora diga-me, Dona Belmira, virei-me para ela com toda a aldeia a assistir, diga, por favor, por que espalhou boatos? O que lhe fiz eu? Porquê isto comigo?
Ela ficou petrificada, a cara murchava e mudava de cor, branca, rosada, manchada como cinza.
Eu eu só disse ouvi dizer balbuciou.
Ouviu a quem? Diga o nome!
O salão ficou em silêncio de cortar à faca. Todos encaravam Belmira, olhares pesados.
Bem as pessoas falaram
Perdida, de repente explodiu:
Por que estão todos a olhar para mim? Por acaso é minha culpa que o marido dela já morreu e ela anda agora com um amante?
Fiquei sem chão.
Amante? O que diz mulher? Vivo sozinha, que amante é esse?
O teu António, talvez? ouvi alguém atrás, era a velha Eulália, fofoqueira da aldeia.
O António vai lá ajudar com a lavoura, isso agora é amante? riu-se um.
Nisso, António levantou-se. Alto, forte, a cara corada de nervos, punhos cerrados.
Mãe, disse ele numa voz grave, o que fizeste, mãe?
Belmira levantou-se, braços estendidos:
António, filhinho, é por ti, queria o teu bem! Ela quer-te prender
Cala-te! rugiu ele, a voz fez tremer o salão. Cala-te, ouviste? Sabes o que fizeste? Inventaste mentiras sobre uma pessoa honesta! Ela trabalha como ninguém nesta terra, carrega tudo sozinha! E tu a arrastar-lhe o nome na lama!
Virou-se para mim, com algo nos olhos que nunca antes tinha ali visto.
Dona Beatriz, murmurou, perdoe a minha mãe. Não foi maldade, foi ciúme, ignorância feminina. Tem medo que eu a deixe, que vá para si E eu, eu
Ficou emudecido, mão no rosto.
Eu amo-a, Dona Beatriz. Já há muito, desde que chegou aqui com o Senhor Joaquim, paz à sua alma. Eu era miúdo com catorze anos, a senhora com vinte e cinco.
Olhava para si e sonhava: que sorte, ter uma esposa assim. Depois casei com a Aurora porque a senhora era casada, pensei que passava. Não passou. Ela sentiu, por isso foi-se.
Instalou-se o silêncio absoluto. Dona Belmira encurvada na cadeira, envelhecida de repente.
Quando o Senhor Joaquim partiu, comecei a ir ajudar. Não por pena, mas porque não conseguia deixar de o fazer. Ao seu lado, sinto-me completo, onde devia estar.
Calou-se. Eu, sem palavras, só o sangue a bater nas têmporas e arder-me os olhos.
António, sou onze anos mais velha
Eu sei disse ele, simples. E então?
Bah, não faz diferença! meteu-se Dona Eulália. O meu António foi oito anos mais novo que eu, vivemos juntos quarenta e três anos! Isso de idades É lixo. O que conta é a pessoa ser decente.
A sala desfez-se em vozes. Uns riam, outros abanavam a cabeça, outros davam tapinhas nas costas de António. Dona Belmira, reduzida, ninguém se aproximava, ninguém olhava para ela.
Senti pena.
Não logo, mas depois. Era o medo medo de perder o filho, de ficar sozinha, que a levou ali. Fez mal, foi cruel, mas não por pura maldade: por desespero de quem não sabe amar sem sufocar, sem agarrar o filho único à força.
Aproximei-me, ajoelhei ao lado dela.
Dona Belmira, disse com voz baixa, não tenha medo. Ninguém vai tirar-lhe o António. Ele é seu filho, ele gosta de si. Só não faça mais isso, está bem? Não invente sobre os outros. Isso é como envenenar a terra: semeia uma mentira, colhe-se infelicidade.
Ela ergueu os olhos, molhados, vermelhos, perdidos.
Desculpe-me, Beatriz Fui tola.
Assenti. Se perdoei ou não, só o tempo diria, quando a ferida cicatrizasse.
Saímos juntos do salão eu e António. Caminhou ao meu lado em silêncio. O sol despedia-se por detrás das amendoeiras, o céu cor-de-rosa, suave como pétalas de roseira-brava.
António, perguntei, falava a sério?
Claro, respondeu sereno. Não iria mentir assim na frente de todos.
Parei, olhei para ele. Era um homem bom, seguro, com aquele calor calmo que aquece um lar nas noites frias.
Então venha, disse eu. As vacas estão à espera da ordenha. Dá-me uma mão?
Sorriu largo, luminoso, como um rapaz.
Dou, sim.
E fomos. A terra sob os pés cheirava amarga, verde, viva. No meio dessa amargura, havia doçura também: a doçura da esperança. Ou talvez só desta vida que continua sempre mais forte que boatos, que raiva, que todo o lado escuro das pessoas.
António apertou minha mão: grande, áspera do trabalho, quente. Não recusei segurei mais forte. Talvez seja mesmo o destino.
E você, o que acha? Deixe sua opinião. Dê um gosto se gostou.







