Ela enterrou o marido, aguentou tudo sozinha, levantou a casa… e depois a vizinha começou a falar.

Ela enterrou o marido, aguentou sozinha, ergueu a quinta… e depois a vizinha abriu a boca.

Mensagens e cartas
Agora diga-me, Dona Zita, voltei-me para ela, diga diante de todos, por que foi que me caluniou? O que lhe fiz eu de mal? Por que me fez isto? O que ouvi de resposta mudou tudo.

Ela enterrou o marido, aguentou sozinha, ergueu a quinta… e depois a vizinha abriu a boca.

Bastou um boato. Só um. E já a senhora do minimercado olhava-me com pena, a enfermeira apertava-me a mão: Força, mulher. Toda a gente à volta sabia de algo, e eu sem entender porquê.

Rosália podia ter ficado calada. Mas saiu à frente na assembleia e perguntou, olhos nos olhos:

Que mal vos fiz eu?

O que ouviu em resposta mudou tudo.

***
Nessa manhã, a terra cheirava diferente, pungente, como antes de uma grande desgraça, ou de uma grande mudança.

Saí ainda escuro, afinal as vacas não esperam, pouco as importa se temos um peso na alma ou um motivo para festejar. O leite chega à sua hora, experimentar não ordenhar para ver…

O orvalho ainda brilhava na erva, gotas prateadas, e pensei: a terra parece recomeçar todas as manhãs, lavando-se, fresca, como se o dia anterior não tivesse existido. E ao ser humano, isso não é dado.

A pessoa leva tudo às costas, como um burro puxa a carroça carregada. E ainda se fosse só coisas boas, mas não: acumula mágoas, palavras malditas, olhares atravessados.

Há quatro anos que vivo sozinha em Vila Flor, se não contarmos os animais.

O meu marido, António, partiu-se de repente, foi o coração a traí-lo, tombou no campo, enquanto virava a erva seca. Só o encontraram no fim da tarde, o rosto sereno, como quem adormeceu exausto.

Talvez tenha sido melhor assim, sem sofrimento, sem ver a vida a abandonar-lhe o corpo.

Depois do António, fiquei com a quinta ao colo vinte vacas de leite, bezerros, a lida toda. Muita gente dizia, Vende isso tudo, Rosália, vai para Lisboa ter com a tua filha, vais ficar a apodrecer aqui? Mas eu não podia.

Não era só teimosia, embora também seja feita dela. É que naquela quinta sentia o António em cada tábua, em cada sulco da horta, cada pedra. Ali estava a nossa vida, tantos anos juntos, como é que a largava? A quem a deixava? Por isso continuei.

Levanto-me às quatro, deito-me às dez, as costas doem, as mãos ficam entorpecidas com a água fria, mas continuo viva. Vivo, e alegro-me com cada bezerro, cada balde de leite, cada madrugada sobre o rio.

Sobre a Dona Zita, minha vizinha, pouco queria pensar.

Vivente já há décadas três portas acima, numa casa vetusta de antes da guerra, tinha perdido o marido cedo e criara o único filho, Manuel. Homem já feito, mais de trinta, mas sempre o Manuel da Zita.

Trabalhador, bom rapaz, mas nunca lhe sorriu a sorte. Casou-se, mas a mulher fugiu para a cidade ao fim de dois anos, dizia que ali enlouquecia. Ele não a impediu.

A Dona Zita não sabia viver sem mexericos.

Espalhava histórias por toda a aldeia, só sossegava depois de esmiuçar a vida dos outros, sentindo-se então importante e necessária. Nunca liguei muito às suas conversas, tinha mais que fazer. Mas no último mês, algo mudou.

Começou por pouco. Entrei no minimercado a comprar pão, e a D. Amélia olhou-me com pena, como se eu tivesse um pé na cova, qualquer coisa de grave me tivesse acontecido.

Perguntei:

Amélia, por que olhas assim para mim?

Ela encolheu os ombros, desviou o olhar:

Nada, Rosália, nada…

Depois, a enfermeira, Dona Teresa, apertou-me a mão com força:

Aguenta-te, Rosália, conta com todos nós.

Eu estranhei, porquê? O que se passava?

E o que se passava era isto: Dona Zita espalhara que eu estragava o leite, que punha água, pó de giz, e mais não sei o quê, para alterar a gordura.

E que o queijo que levo à vila para vender também era batota, velho, apenas mudava as etiquetas.

Pensei, mexericos de velhas mas não! Isto não era só mentira, era pontapé na boca do estômago. Anulava em dois tempos tudo o que construí ao longo dos anos.

Andei uma semana fora de mim. Mal dormia, remexia a cabeça: Porquê? O que lhe fiz eu à Zita? Nunca discutimos, sempre cordiais.

Até ao funeral do António ela veio, lágrimas nos olhos, a consolar-me com palavras.

Depois veio-me a raiva. Raiva boa, forte, que dá força. Levantei-me uma manhã e decidi: chega! Não admito que me atirem para o lodo. Não andei estes anos todos a trabalhar para ser esmagada assim.

No sábado houve reunião da aldeia, discutir as obras da estrada para Vila Real. Vieram mais de cinquenta pessoas, quase o povo todo. Lá estava a Dona Zita, sentada na primeira fila, lábios apertados, olhar de satisfação.

Quando terminaram com a estrada, levantei-me. As pernas tremiam, a voz rouca de nervos, mas ergui-me.

Gente boa, disse, e todas as cabeças rodaram , deixem-me dizer uma palavra, sim?

O presidente da Junta acenou e eu comecei. Primeiro trémula, depois segura. Contei o que andava a ouvir sobre mim.

Essas conversas são mentira do princípio ao fim! O leite é controlado toda a semana no laboratório da vila, estão aqui os relatórios.

O queijo é comprado em três mercearias e nunca se queixaram!

E agora quero saber, Dona Zita, diga aqui, por que falou assim de mim? O que lhe fiz eu de mal? Porquê?

Ela sentada, o rosto a mudar de cor, do rosado ao branco, do branco ao cinzento manchado.

Pois… Eu só disse… que ouvi dizer… murmurou.

De quem ouviu? Insisti. Aponte-me quem lhe contou essas histórias!

Instalou-se um silêncio tal no salão que se ouvia a mosca na janela. Todos olhavam para a Dona Zita com olhos severos, duros.

Bom… Foram as pessoas a falar…

Ela estava perdida. E de repente desatou:

Porque olham todos para mim? A culpa é minha por ela ser viúva e viver com um homem?

Ali quase desmaiei.

Que homem? Do que fala? Vivo sozinha, que homem?

O teu Manuel, é? disse uma voz nas filas de trás.

Era a Tia Arminda, velha sábia da aldeia.

O Manuel só lá vai ajudar na lida. Agora isso faz dele teu homem?

E levantou-se o Manuel do canto, que nem o tinha visto ali, alto, largo de ombros, cara vermelha, mãos cerradas.

Mãe, disse por entre dentes, mãe, o que fizeste?

A Dona Zita acercou-se, braços estendidos:

Manuel, querido, fiz por ti, só quis o melhor, ela quer enfeitiçar-te, esta…

Cala-te! gritou ele, tão forte que todos estremeceram. Ouves? Percebeste o mal que fizeste? Inventaste mentiras sobre uma mulher honesta! Trabalha sozinha, leva a quinta nas costas, e tu na lama!

Virou-se para mim. Li-lhe nos olhos algo novo, difícil de decifrar.

Dona Rosália, disse baixinho , perdoe a minha mãe. Não foi de maldade, foi ciúme só, tolice de mulher. Tem medo que fique sozinho, que eu vá ter consigo. E eu…

Engasgou-se, passou a mão pela cara.

Eu gosto de si, há muito. Desde que veio com o senhor António, Deus o tenha. Eu era miúdo, tinha catorze anos, a senhora vinte e cinco.

Olhava para si e pensava: era esta a mulher para casar. Mas depois casei com a Leonor, porque a senhora estava casada. Pensei que esquecia. Não esqueci. A Leonor percebeu, também fugiu, talvez por isso.

No salão, tudo ficou calado. A Dona Zita esmagada na cadeira, parecia ter envelhecido dez anos naquele instante.

E quando o senhor António morreu, comecei a ir ajudá-la. Não por pena, ou não só. Porque só ali me sentia certo, no meu lugar.

Caiu o silêncio de novo. Eu sem palavras, a cabeça vazia, só o sangue a martelar nas têmporas, e os olhos úmidos.

Manuel, sou onze anos mais velha.

Eu sei. respondeu calmo. E daí?

E daí nada, interrompeu a Tia Arminda. Nada, Rosália. O meu Rui era oito anos mais novo e vivemos quarenta e três anos como se uma alma só. Anos? Pfff. O que conta é ser bom da alma.

O povo falou, uns riam, outros abanavam a cabeça, outros davam vivas ao Manuel. Dona Zita encolhida, nenhum olhar, nenhum consolo.

E eu, de repente, senti pena.

Não logo, mas depois. Era do medo que vinha tudo aquilo, da solidão, do receio de perder o único filho, a última amarra na vida.

Errou, foi feio, mas não por maldade, sim da escuridão no peito, por não saber amar sem sufocar e prender.

Aproximei-me, sentei-me ao lado dela, joelhos dobrados.

Dona Zita, falei manso , não tenha medo. Ninguém lhe tira o filho. Ele ama-a, sempre será seu. Só…

Só não volte a fazer isto, sim? Não invente sobre ninguém. Faz mal, Dona Zita. É como envenenar a terra. Planta-se mentira, colhe-se desgraça.

Ela ergueu os olhos, húmidos e infelizes.

Perdoa-me, Rosália, sussurrou. Fui tonta.

Apenas acenei. Se perdoei ou não, não sei. Vai-se vendo, consoante a ferida sarar ou não.

Saímos do salão juntos eu e o Manuel. Caminhava em silêncio ao meu lado. O sol já descia no horizonte, o céu rosa, delicado, parecia pétalas de roseira brava.

Manuel, perguntei , falavas a sério? O que disseste?

A sério, confirmou. Mentir à frente de todos nunca.

Parei, olhei-o bem. Homem bom, pensei. Seguro, quente, como lareira numa noite de Inverno.

Então venha, disse. É hora das vacas. Dás-me uma mão?

Sorriu largo, bonito, como um rapaz.

Dou, sim.

E seguimos caminho. A terra sob os pés cheirava forte, amarga, fresca de erva e de poejo, que cresce por todo lado. E naquela amargura havia sabor, havia esperança.

Ou, quem sabe, era só a vida continuando, apesar de tudo. Sempre mais forte que qualquer mentira, qualquer maldade, qualquer escuridão.

O Manuel apertou-me a mão. Grande, calejada, quente. Não a soltei, apenas apelei-a com mais força. Talvez seja destino…

E dizem vocês? Que pensam desta história? Escrevam nos comentários, deixem o vosso gosto.

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Ela enterrou o marido, aguentou tudo sozinha, levantou a casa… e depois a vizinha começou a falar.