Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa pequena aldeia

Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa aldeia perdida entre os montes do interior.

A porta fechou-se num estrondo seco, fazendo estremecer os vidros da janela.

Ninguém disse nada.

Durante uns segundos ninguém sequer respirou.

Miguel ficou estático no limiar, a mão ainda pousada na maçaneta, como se não soubesse se devia avançar ou desaparecer na sombra.

Os olhos dele cruzaram-se com os meus.

E nesse instante entendi algo que me atravessou por dentro.

Não era só culpa.

Era medo.

Medo verdadeiro.

Tu murmurou baixinho. O que estás aqui a fazer?

A pergunta caiu sobre mim com uma força absurda.

Dei uma risada curta, seca.

O que estou a fazer aqui? repeti. Acho que essa é precisamente a pergunta que deveria fazer a ti.

O rapaz largou o carrinho de madeira.

A menina levantou-se devagar do banco de verga.

Pai disse ela, naturalmente.

E essa palavra desfez tudo.

Pai.

Ouvi-a como se alguém a tivesse gritado dentro da minha cabeça.

Olhei para o Miguel.

Esperei uma negação.

Uma tentativa de mentira.

Qualquer coisa.

Mas não veio nada.

Apenas baixou o olhar.

E esse gesto foi suficiente.

Senti algo a partir-se em mim, de vez.

Há quanto tempo? perguntei.

A minha voz já não tremia.

E isso era o pior.

Antes de te conhecer respondeu finalmente.

Ergui os olhos, incrédula.

Antes?

Acenou afirmativamente.

Eles nasceram ainda antes de nos casarmos.

O ar ficou denso.

Então engrulhei a saliva porque nunca disseste nada?

Miguel passou a mão pelo rosto.

Porque sabia que te ia perder.

A sinceridade chegou tarde demais.

E achaste que mentires durante oito anos era melhor? insisti.

Não foi sempre assim disse depressa. Queria contar-te. Tentei vezes sem conta mas tornou-se cada vez mais difícil. Depois já não consegui.

Impossível? repetei. Ou só mais confortável?

Silêncio.

Dona Fernanda falou, pela primeira vez.

Ele não queria magoar-te.

Olhei-a.

E isto o que é?

Ela baixou a cabeça.

Um erro que cresceu demais.

Virei-me para as crianças.

A menina continuava a olhar-me.

Sem medo.

Sem culpa.

Só curiosidade.

Como te chamas? perguntou-me.

A garganta apertou-se-me.

Inês respondi.

Ela sorriu levemente.

Eu sou Leonor. E ele é Tomás.

O rapaz acenou timidamente.

Algo dentro de mim partiu mas não como antes.

Desta vez foi diferente.

Não era raiva.

Era tristeza.

Funda.

Silenciosa.

Porque eles não tinham culpa de nada.

E a tua mãe? perguntei, quase sem voz.

Miguel respondeu.

Morreu quando o Tomás tinha um ano.

Fechei os olhos por um instante.

O puzzle compunha-se mas não doía menos.

E decidiste escondê-los disse eu.

Decidi protegê-los corrigiu ele.

Abri os olhos.

Não. Decidiste foi escondê-los.

Era essa a palavra.

A única verdadeira.

A menina franziu o sobrolho.

Pai, ela vai ficar zangada?

Miguel não soube o que responder.

Eu soube.

Baixei-me ao nível dela.

Não disse suavemente. Não estou zangada contigo.

E era verdade.

Nunca estive.

Levantei-me devagar.

Olhei Miguel uma última vez.

Oito anos disse. Oito anos de mentiras.

Ele deu um passo na minha direção.

Podemos resolver isto.

Abanei a cabeça.

Não.

A minha voz foi firme.

Definitiva.

Há coisas que não se resolvem.

Mas eu amo-te insistiu.

Respirei fundo.

E, pela primeira vez não senti nada.

Talvez respondi. Mas tu não sabes amar sem mentir.

O silêncio seguinte foi absoluto.

Virei costas.

Afastei-me para a porta.

Inês a voz dele deteve-me.

Não me virei.

O que é que acontece agora?

Demorei-me a responder.

Olhei para as oliveiras do quintal, a baloiçar devagar ao vento.

E compreendi.

Agora vais viver a vida que escolheste disse. Mas sem a esconderes.

Abri a porta.

E eu vou viver uma vida onde não tenha de duvidar de tudo.

Saí.

Sem olhar para trás.

Os meses que vieram foram difíceis.

Não pela solidão.

Mas pela reconstrução.

Descobrir o que era real e o que não era.

Mas algo mudou dentro de mim.

Não me parti.

Refiz-me.

Um dia, meses depois, recebi uma carta.

Não era do Miguel.

Era da Leonor.

Abri-a com mãos serenas.

Olá, Inês.

O pai diz que não devia escrever-te, mas eu queria.

A avó explicou-me tudo.

Queria agradecer-te.

Porque mesmo indo embora não gritaste.

Não nos fizeste sentir mal.

E isso foi importante.

Às vezes imagino como teria sido se te tivéssemos conhecido antes.

Acho que teríamos sido amigas.

Com carinho,
Leonor.

Segurei a carta durante muito tempo.

Sorri.

Não pelo passado.

Mas porque já não doía da mesma forma.

Porque no fim

a verdade não destruiu a minha vida.

Apenas varreu o que nunca foi verdade.

E isso mesmo doendo

era exatamente o que eu precisava.

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