Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa pequena aldeia portuguesa.

Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de ir à casa dos pais dele, ali perdida numa aldeia do Alentejo.

A porta fechou-se com um estrondo seco, fazendo tremer até os vidros da janela da sala.

Ninguém disse palavra.

Durante uns segundos ninguém pareceu respirar.

O Diogo ficou parado à entrada, ainda com a mão na maçaneta, como se não soubesse se devia entrar ou evaporar-se dali.

Os olhos dele cruzaram-se com os meus.

E naquele instante eu percebi uma coisa que me atravessou por dentro.

Não era só culpa.

Era medo.

Um medo mesmo real.

Tu disse ele, quase num sussurro . O que estás aqui a fazer?

A pergunta bateu forte cá dentro.

Soltei uma risada curta, seca.

O que estou aqui a fazer? repeti eu . Acho que essa é mesmo a pergunta que eu devia fazer-te a ti.

O menino largou o carrinho de brincar.

A rapariga levantou-se devagar da cadeira.

Pai disse ela, naturalmente.

Essa palavra desfez tudo.

Pai.

Ouvi como se me gritassem dentro da cabeça.

Olhei para o Diogo.

Esperei um não.

Uma tentativa de mentira.

Qualquer coisa.

Mas não.

Ele só baixou os olhos.

E esse gesto bastou-me.

Senti que alguma coisa em mim se despedaçou para sempre.

Desde quando? perguntei eu.

A minha voz já não tremia.

Isso era o pior.

Antes de te conhecer respondeu ele finalmente.

Levantei a cabeça, incrédula.

Antes?

Acenou que sim.

Eles nasceram antes de nos casarmos.

O ar ficou pesado, sufocante.

Então engoli em seco porque é que nunca me disseste nada?

O Diogo passou a mão pelo rosto.

Porque sabia que te ia perder.

A sinceridade veio tarde.

Demasiado tarde.

E achaste que mentir durante oito anos era melhor? perguntei.

Não era para ser assim no início disse ele depressa . Ia contar-te. Tentei tantas vezes mas cada vez ficava mais difícil. Depois já parecia impossível.

Impossível? repeti ou apenas conveniente?

Silêncio.

Dona Isabel, a mãe dele, falou pela primeira vez.

Ele não queria magoar-te

Olhei para ela.

E o que é isto então?

Ela baixou a cabeça.

Um erro que cresceu mais do que devia.

Voltei-me para os miúdos.

A rapariga continuava a olhar para mim.

Sem medo.

Sem vergonha.

Só curiosidade.

Como te chamas? perguntou-me.

A garganta apertou-se-me.

Inês respondi.

Ela sorriu muito levemente.

Eu sou Beatriz. E ele é Francisco.

O menino acenou com a mão, tímido.

Alguma coisa em mim voltou a partir mas era diferente.

Não era raiva.

Era tristeza.

Daquela profunda e silenciosa.

Porque eles não tinham culpa de nada.

E a vossa mãe? perguntei, quase sem voz.

O Diogo respondeu.

Faleceu quando o Francisco tinha um ano.

Fechei os olhos por um momento.

O puzzle montava-se inteiro mas não magoava menos.

E decidiste escondê-los atirei eu.

Decidi protegê-los corrigiu ele.

Abri os olhos.

Não. Decidiste escondê-los.

Essa era a palavra.

A única certa.

A miúda franziu o sobrolho.

Pai, ela vai ficar zangada?

O Diogo ficou sem resposta.

Eu não.

Ajoelhei-me à frente dela.

Não disse baixinho . Não estou zangada contigo.

E era mesmo verdade.

Nunca estive.

Levantei-me devagar.

Olhei para o Diogo pela última vez.

Oito anos disse . Oito anos de mentiras.

Ele deu um passo na minha direção.

Podemos resolver isto.

Abanei a cabeça.

Não.

A minha voz foi firme.

Decidida.

Há coisas que não têm arranjo.

Mas amo-te insistiu.

Respirei fundo.

E, pela primeira vez não senti nada.

Talvez respondi . Mas não sabes amar sem mentir.

O silêncio ficou ainda mais pesado.

Dei meia volta.

Fui em direção à porta.

Inês a voz dele travou-me.

Não olhei para trás.

E agora? O que vai acontecer?

Pensei alguns segundos.

Olhei pela janela para as oliveiras no quintal, mexendo ao vento.

E soube.

Agora vais viver a vida que escolheste disse eu . Mas sem a esconderes.

Abri a porta.

E eu vou viver uma onde não tenha de duvidar de tudo.

Saí.

Sem olhar para trás.

Os meses seguintes foram duros.

Não pela solidão.

Mas pela reconstrução.

Descobrir o que era verdadeiro e o que nunca foi.

Mas algo em mim mudou.

Não parti aos bocados.

Recolhi-me.

Reconstruí-me.

Um dia, já passados uns meses, recebi uma carta.

Não era do Diogo.

Era da Beatriz.

Abri-a com as mãos tranquilas.

Olá, Inês.

O papá diz que não devia escrever-te, mas eu quis fazê-lo.

A avó explicou-me tudo.

Eu só queria agradecer-te.

Porque, embora te tenhas ido embora não gritaste.

Não nos fizeste sentir mal.

E isso foi importante.

Às vezes penso como seria se te tivéssemos conhecido antes.

Acho que gostaríamos uma da outra.

Um beijinho,
Beatriz.

Segurei a carta durante um bom bocado.

E sorri.

Não pelo passado.

Mas pelo que já não me doía da mesma maneira.

Porque, no fim

a verdade não destruiu a minha vida.

Só tirou o que nunca tinha sido real.

E isso por mais que custasse

era mesmo aquilo de que precisava.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa pequena aldeia portuguesa.