DUAS IRMÃS
Havia duas irmãs. A mais velha, Beatriz, era uma verdadeira graça, bem-sucedida e rica. A mais nova, Mafalda, infelizmente havia-se perdido no álcool. Já não dava para falar em beleza: aos 32 anos, Mafalda mais parecia uma velhota desgastada pelo tempo. Magra, o rosto inchado e azulado, mal se viam os olhos entre as pálpebras pesadas; o cabelo, baço e sem vida, há muito que não sentia shampoo nem pente, espetava-se desgrenhado em todas as direções.
Beatriz não podia ser acusada de falta de empenho. Gastara tempo e dinheiro a tentar arrancar a irmã daquela prisão de álcool: pagou-lhe internamentos em clínicas caras de Lisboa, levou-a até a curandeiras conhecidas do interior tudo em vão. Comprou-lhe um pequeno apartamento simpático em Odivelas, mas pôs o imóvel em seu nome para evitar que Mafalda o trocasse por garrafas. Meio ano depois, já tudo o que restava na casa era um colchão sujo; lá se deitava Mafalda, à beira da morte, quando Beatriz lá foi despedir-se antes de ir viver para o estrangeiro. E Mafalda nem falar conseguia, só com esforço entreabria as pálpebras inchadas, vendo pela janela suja, mal lavada, o vulto indefinido da irmã.
Ao lado, espalhavam-se garrafas vazias, partilhadas com os outros alcoólicos do bairro. Beatriz não teve coragem de deixar a irmã ali entregue ao destino como iria viver com essa culpa? Por paz de consciência, decidiu levar Mafalda à única parente que lhes restava, a tia Olinda, numa aldeia que a mãe, em vida, costumava mencionar. Pouco convívio havia, era apenas memória distante: tia Olinda aparecia, em tempos, trazendo doces caseiros, maçãs perfumadas e cogumelos secos.
Beatriz lembrava-se mal do nome da terra, mas pensou que, se não tinham sido chamadas para o funeral, talvez a tia ainda vivesse. Pediu ajuda a um amigo, enrolaram Mafalda num cobertor, colocaram-na no banco traseiro do carro e seguiram para a aldeia de Azinhaga de Cima. Encontraram a aldeia e, claro, o casarão de tia Olinda depressa se deu conta dele: quatro casas só compunham o lugar.
Deitaram Mafalda na cama da tia, e Beatriz deixou-lhe em cima da mesa algumas notas de euros, dizendo: Tia Olinda, ela está muito mal, eu tenho de partir. Fica aqui dinheiro para o funeral se conseguir, espero poder voltar para ver-lhe a campa. Deu também a chave do apartamento. E recusou o chá que a tia lhe ofereceu, partindo apressada.
A tia Olinda, uma senhora de 68 anos ainda cheia de energia, verificou que Mafalda respirava e foi preparar a chaleira. Enquanto fervia a água, encheu o termo com ervas secas de sacos de linho, juntou bagas e deitou o preparado a infundir, tapando bem.
Durante três dias, deu a Mafalda infusões de ervas com mel, quase à força, de colher de chá em colher de chá, de meia em meia hora, inclusive à noite. Ao quarto dia, juntou ao cardápio leite fresco da sua cabra, Aurora, também à colher. Depois vieram os caldos de legumes e o caldo de galinha as galinhas eram dela; não teve pena de sacrificar duas para a sobrinha. Só ao fim de um mês Mafalda se sentou na cama sem ajuda.
Então tia Olinda começou a levá-la de trenó ao banho era inverno , bem aconchegada num xaile de lã e no cobertor. No banho, preparava mais infusões, lavava-lhe o corpo com elas, depois penteava-lhe o cabelo que ficava a cheirar a campo.
Sozinha há décadas, tia Olinda deu tudo o que tinha de amor e atenção à sobrinha, restituindo-lhe vida. Foi assim, de colher em colher, infundindo-lhe um pouco da sua alma generosa. Clínicas privadas e curandeiras não salvaram a rapariga; a tia, sim, salvou. Mafalda sobreviveu, fortaleceu-se com o leite perfumado da cabra Aurora, com omeletas quentes feitas com ovos frescos todas as manhãs. O cabelo ficou sedoso e brilhante, o rosto ganhou cor. E, afinal, era bonita, de olhos azuis vivos.
Aos poucos, foi ajudando a tia nos trabalhos da casa e no curral: aprendeu a mungir a Aurora, apanhava ovos frescos todos os dias. As refeições eram simples, quase tudo vinha da horta delas. Mafalda, renascida, não quis saber da vida anterior. Gostava daquela vida: simples, limpa, nova. Começou a reparar na beleza dos dias, no sol a nascer, nas nuvens que corriam no céu, nas flores que desabrochavam. Perto do riacho da aldeia, vinha uma pata com patinhos; Mafalda ia dar-lhes bocados de pão.
Descobriu também um talento: tia Olinda ensinou-lhe a fazer rendas de crochet. Primeiro fazia apenas naperons; depois, numa ida juntas à cidade, compraram novelos de lã e Mafalda começou a tricotar xailes grandes, fofos, com padrões maravilhosos. Logo surgiram encomendas dessas roupas únicas; Mafalda passou a ganhar bem.
Após três anos, Mafalda, já bela e recuperada, levou a tia Olinda da esquecida Azinhaga de Cima até uma vila sossegada junto ao Atlântico, onde, juntando as economias de Olinda e o que reuniu com a venda dos xailes, compraram uma pequena casa com jardim. De manhã, a cabra Aurora, trazida numa carrinha paga por Beatriz, mordisca as maçãs das árvores e espreita calma para o mar, enquanto, lá ao fundo, duas mulheres tão queridas para ela nadam no mar quente.
E sabem qual o maior encanto desta história? É verdadeira.







