Dona Ana Pereira sentou-se num banco do jardim do lar de idosos e chorou. Hoje fazia 70 anos, mas ne…

Maria Eduarda Lopes estava sentada num banco do jardim do hospital e chorava baixinho. Hoje completava 70 anos, mas nem o filho nem a filha vieram visitá-la ou dar-lhe os parabéns. Só a companheira de quarto, Benedita Figueiredo, lhe deu um mimo e até lhe ofereceu uma pequena lembrança. Também a auxiliar Olívia trouxe-lhe uma maçã para celebrar o aniversário. O lar era decente, mas a maioria dos funcionários era indiferente.

Todos sabiam que ali estavam idosos deixados pelos filhos, que já os achavam um peso. O próprio filho de Maria Eduarda foi quem a levou, dizendo que era para descansar um pouco e tratar da saúde, mas, na verdade, ela atrapalhava em casa, sobretudo a nora. Afinal, o apartamento era dela mais tarde, o filho convenceu-a a transferir a escritura para o nome dele. Quando pediu para ela assinar os papéis, prometeu que nada mudaria, que continuaria em casa. Mas, na prática, tudo ficou diferente; a família inteira mudou-se para seu apartamento e começou o conflito com a nora.

A nora estava sempre insatisfeita: que a comida não estava boa, que o banho deixava o chão sujo, e outras coisas mais. O filho, no início, ainda a defendia, mas depois começou a gritar também. Maria Eduarda notou que eles passaram a cochichar pelos cantos e, quando ela entrava, calavam-se de repente.

Certa manhã, o filho lhe disse que precisava descansar, tratar da saúde. Maria, olhando nos olhos dele, perguntou com tristeza:
Vais pôr-me num lar de idosos, filho?
Ele ficou vermelho, atrapalhado, e murmurou:
Que ideia, mãe, é só um centro de repouso. Ficas lá um mês e depois voltas para casa.
Levou-a, despachou rápido a papelada e saiu apressado, prometendo voltar em breve. Só apareceu uma vez: trouxe duas maçãs e duas laranjas, perguntou como estava, e nem esperou resposta, partiu logo.

Assim Maria Eduarda já ia no segundo ano ali. Quando passou um mês e o filho não voltou, decidiu telefonar para casa. Atendeu-lhe uma voz desconhecida; soube então que o filho vendera o apartamento e ninguém sabia do seu paradeiro. Chorou algumas noites, mas acabou por aceitar que não voltaria para casa, pois já o pressentia. O que mais doía era ter, em tempos, magoado a filha por causa do filho.

Nascida numa aldeia, Maria casou cedo com o colega de escola, António. Tinham uma casa grande, algum gado. Viviam modestamente, mas não passavam necessidades. Um vizinho, vindo da cidade, convenceu António a mudarem-se: dizia que lá a vida era melhor, o ordenado bom, e casa garantida. António animou-se e, juntos, venderam tudo e foram para Lisboa. Receberam logo uma casa e compraram uns móveis e um velho Renault. Foi nesse Renault que António teve um acidente e morreu dois dias depois no hospital.

Maria ficou sozinha, com dois filhos pequenos. Para lhes dar de comer, limpava escadas à noite. Pensava que, ao crescerem, os filhos a ajudariam. Não foi assim. O filho envolveu-se em problemas sérios; Maria teve de pedir dinheiro a toda a gente para evitar que fosse preso, passaram anos a pagar dívidas. A filha, Leonor, casou-se, teve um bebé. Durante o primeiro ano tudo correu bem, mas depois o menino ficou doente com frequência, obrigando a mãe a deixar o trabalho para acompanhar as idas ao hospital. Só mais tarde descobriram a doença rara do neto, tratada apenas num hospital especializado, com anos de espera. Durante esse tempo, o marido de Leonor saiu de casa, felizmente deixando-lhe o apartamento. Conheceu, então, outro viúvo no hospital cuja filha tinha o mesmo diagnóstico. Apaixonaram-se e foram viver juntos. Passados uns anos ele adoeceu e precisava de dinheiro para uma operação.

Nessa altura, Maria Eduarda tinha algum dinheiro guardado, que queria dar ao filho para entrada num apartamento. Quando a filha lhe pediu ajuda para o companheiro, Maria hesitou; achou que o filho precisava mais. Recusou-se, e Leonor ficou profundamente magoada. Na despedida disse-lhe que já não tinha mãe e que, se Maria um dia precisasse de ajuda, não a procurasse.

Já se passaram vinte anos sem se falarem. Leonor curou o marido e, juntos, mudaram-se com os filhos para o Algarve. Se pudesse voltar atrás, Maria faria tudo diferente, mas o passado não se muda.

Levantou-se, devagar, do banco e caminhou para o lar. De repente ouviu:
Mãe!

O coração disparou. Virou-se. Era Leonor. Sentiu as pernas fraquejarem, mas a filha correu e amparou-a.

Finalmente encontrei-te O meu irmão não quis dizer onde estavas. Só quando lhe disse que o levava a tribunal por vender a casa às escondidas é que acalmou

Entraram juntas no edifício e sentaram-se no sofá da entrada.

Desculpa, mãe, por tanto tempo afastada. No início estava magoada, depois fui adiando, tinha vergonha. Mas há uma semana sonhei contigo. Estavas num bosque, a chorar.

Acordei inquieta, contei tudo ao meu marido. Ele disse: Vai e faz as pazes com a tua mãe. Fui à antiga casa, mas já lá viviam outras pessoas. Andei dias a procurar o contacto do meu irmão, até que consegui. E cá estou. Prepara-te, vens comigo. Vais adorar a nossa casa, enorme, junto ao mar, no Algarve. E o meu marido avisa sempre: se a mãe não estiver bem, vem morar connosco.

Maria Eduarda abraçou a filha e chorou mas, desta vez, de alegria.

Honra teu pai e tua mãe, para que tenhas vida longa na terra que o Senhor teu Deus te dá. Aprendeu, tardiamente, que o perdão e o amor entre pais e filhos são o único caminho para a verdadeira felicidade.

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