Difícil Liberdade

A Liberdade que Pesava

— Dona Joaquina, não viu uma pasta azul com documentos? Deixei-a na mesinha da sala! — A voz de Guilherme tremia de ansiedade. Tinha revirado a casa toda na pacata periferia de Coimbra, mas a pasta parecia ter desaparecido.

— Ah, havia uma pasta qualquer — respondeu Joaquina, indiferente. — Toda amassada, com manchas, então joguei fora.

Guilherme estacou, como se tivesse levado um golpe. Naquela pasta estava o relatório no qual trabalhara duas semanas. Amanhã era o último dia para entregá-lo ao chefe. Poderia refazê-lo, mas as assinaturas? Onde as conseguiria às dez da noite?

— Como pôde fazer isso?! — sibilou ele, contendo a fúria. — Era um documento importantíssimo! A pasta estava quase nova, só tinha uns riscos! Não percebe que posso perder o emprego?!

— Não deixes as tuas coisas espalhadas! — bufou a sogra, afastando a chávena de chá pela metade. — Grande negócio! Se era tão valiosa, devias tê-la guardado no teu quarto, não deixá-la à toa!

— Estava na mesinha, não no chão! — Guilherme sentia o sangue subir-lhe às têmporas.

Não era a primeira vez que Joaquina jogava algo dele fora. Uma camisa “velha demais”, um caderno antigo… Mas hoje ultrapassara todos os limites.

— Esta é a minha casa, eu mando aqui! — declarou a sogra, erguendo o queixo. — Se não gostas, ninguém te prende!

Guilherme cerrou os punhos, contando mentalmente até dez. A calma não vinha. Donos da casa… Sim, a casa era de Joaquina. Foi ela quem insistira para que a filha, Beatriz, e Guilherme morassem com ela. “Para quê gastar dinheiro com renda se aqui há espaço de sobra?”, dizia sempre.

No início, parecera uma ideia sensata. Guilherme subia rapidamente na carreira, trabalhando de manhã até à noite. Beatriz esperava um filho, e a gravidez fora difícil — mal conseguia levantar-se da cama. Cozinhar, limpar? Nem pensar. Joaquina oferecera ajuda, e eles aceitaram, gratos.

Mas, um ano depois, quando nasceu o pequeno Tomás, Guilherme falou em mudar-se. Até podia ser uma casa alugada, mas seria a deles, com as suas regras. Beatriz revoltou-se: “Para quê? A mãe trata de tudo, cuida do Tomás, e eu posso descansar!” Gostava da vida em que podia passear pelas lojas de manhã, ir ao cabeleireiro à tarde e brincar uma horinha com o filho ao fim do dia. Ser dona de casa não lhe interessava.

Guilherme cedeu, mas não planejava tolerar aquilo para sempre. Em segredo, investira numa casa nos arredores da cidade. Beatriz não sabia — previra os protestos, as desculpas para ficar sob a asa da mãe. A vida dela parecia um conto de fadas, e mudar-se significaria limpeza, cozinha e os cuidados com o filho.

Pensando nisso, Guilherme vestiu o casaco e desceu aos contentores do lixo. Sabia que ainda não tinham passado a recolha, e havia esperança de encontrar a pasta. Mesmo que tivesse de revirar sacos, valia a pena. O da sogra devia estar por cima — fora deitado fora há pouco.

A sorte sorriu-lhe: a pasta estava lá, os documentos intactos, nem amassados estavam. Guilherme respirou aliviado, voltou para casa e lançou um olhar glacial à sogra. Dirigiu-se a Beatriz. Hoje teriam uma conversa difícil.

— Até amanhã à noite, arruma as tuas coisas. Mudamo-nos — disse ele, cansado, deixando-se cair na poltrona. — Não aguento mais as artes da tua mãe! Por que tenho de ouvir as suas críticas, sendo um homem adulto? Ela sente-se poderosa à minha custa!

— Mudar? Para onde? — alarmou-se Beatriz. — O que tens contra aqui? Vivemos com tudo feito! E não insultes a minha mãe, ela faz tanto por nós!

— Só aceitei ficar porque precisavas de ajuda — cortou Guilherme. — Agora estás bem e podes ser dona da tua casa.

— A mãe ajuda com o Tomás! Ele é tão irrequieto, bem sabes!

— Ajuda? — Guilherme ergueu a sobrancelha com sarcasmo. — Ela é quem o está a criar! E ainda o põe contra mim. Já a ouvi a dizer-lhe que o pai é mau!

— O Tomás nem um ano tem, o que é que ele percebe? — revirou os olhos Beatriz. — Estás a exagerar.

— Estou é a ser brando! — explodiu Guilherme. — Achas que uma hora antes de dormir é ser mãe? Joaquina nem me deixa brincar com ele — leva-o para mudar a roupa, para dar comida!

— Como se tivesses tanto interesse em criá-lo! — rosnou Beatriz. — Quando sais, ele dorme; quando chegas, ele dorme.

— No próximo mês, tudo muda — afirmou ele, firme. — Tenho um novo cargo, com horário fixo, sem horas extras. Mas o escritório fica noutra zona, daqui é complicado.

— Isso não é motivo para mudar! Tens carro! — indignou-se Beatriz. — Para onde vais? Alugar um apartamento?

— Temos a nossa casa — respondeu Guilherme, calmo.

— Que casa?! — Beatriz quase engasgou de surpresa.

— Grande, espaçosa, num bairro tranquilo. Acabou há duas semanas, e os móveis chegaram ontem.

— Não quero uma casa! — guinchou Beatriz. — Não vou a lado nenhum!

— Ou isso, ou divórcio — cortou ele.

— Não aceito divórcio! O Tomás nem um ano tem, a lei está do meu lado! — Beatriz atirou o telemóvel para o sofá, gesto que lhe era inimaginável.

— Não aceites — acenou Guilherme. — Mas não fico nesta casa com a tua mãe. Mudo-me para a minha casa, serei dono do meu lar. Como o que quero, vejo o que quero, deixo as coisas onde quero, sem medo de irem parar ao lixo. E tu pensa em como viverás. A reforma da tua mãe é uma ninharia. Pagarei pensão, mas será menos do que gastas. Pensa, querida.

Beatriz acabou por ceder. Mudaram-se. Mas a nova vida tornou-se um pesadelo para ela. Limpeza, cozinha, cuidar do filho dia e noite. Onde estavam os salões e as amigas? Guilherme ajudava, mas o tempo nunca chegava.

Um mês depois, Beatriz fugiu para casa da mãe, levando Tomás. Ferida, decidiu vingar-se. Pediu divórcio e partilha de bens, certa de que ficaria com metade da casa. Já imaginava vendê-la por uma pechincha a uma família numerosa, sabendo que Guilherme teria de comprar a sua parte. Mas ele não tinha esse dinheiro — gastara tudo na construção.

O plano era simples: ele não suportaria viver com estranhos e voltaria para ela, para casa de Joaquina. E depois… bem, veriam se o deixariam entrar.

Mas os sonhos desfizeram-se. A casa estava em nome dos pais de Guilherme. Beatriz não tinha direito a nada. Tudo o que conseguiu foi a pensão, e, como ele avisara, o valor era modesto.

Joaquina também se enfureceu. O sustento sumira, e já não tinha ninguém para descontar. Beatriz chorava ao mínimo reparo, e Tomás era muito pequeno.

Meio ano depois, Guilherme propôs reconciliação, pelo bem do filho. Beatriz agarEla agarrou a oportunidade, descobrindo, com o tempo, que a liberdade verdadeira não estava nos salões ou nos caprichos da mãe, mas nas pequenas conquistas de uma vida que, afinal, era sua.

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