Encontrar o culpado foi uma tarefa das mais difíceis. Os miúdos, na pressa de irem ao rio nadar, esqueceram-se de fechar a gaiola do papagaio. A avó, ao regressar do mercado, abriu a janela de par em par para arejar a casa. O resultado não podia ser outro: ao cair da noite, demos pela falta do nosso querido papagaio amazónico, o Lourenço, que entretanto desaparecera sabe-se lá para onde.
Durante três dias e três noites, deixámos tudo para trás e andámos a correr pelo aldeamento de férias à procura do nosso perdido. Mas nada feito. Ninguém tinha visto o Lourenço. As crianças choravam de desalento, a avó suspirava entre lamentos e ais, e eu e a minha mulher descarregávamos a zanga ora nos mais velhos, ora nos mais novos.
No entanto, nem à nossa própria cadela, a Fidalga uma airdale terrier de espírito leal podíamos soltar a fúria nesses dias. Fidalga andava cabisbaixa, triste. Dava sinais de vida apenas quando alguém tocava à campainha. Corriam os seus passos pelo hall com um latido vibrante, mas logo parava, olhava em volta, percebia que faltava alguma coisa e voltava desanimada para o tapete do seu canto.
Havia já quatro anos que as visitas eram recebidas em nossa casa com um coro alegre de latidos. Lourenço imitava o barulho de Fidalga tanta vida e energia, que às vezes parecia que o papagaio ladrava melhor que a própria cadela.
Ladrar era, de resto, o primeiro papagaiar de Lourenço. Quando ainda era um pinto verde e tonto, apanhava a gata Mel às voltas e ia-lhe ladrar ao ouvido com toda a força do bico. A Mel saltava de susto com um miau dilacerante, o que fazia logo vir a Fidalga a correr, e era uma festa de confusão pela casa.
A Mel tolerava o Lourenço, embora me parecesse, por vezes, um exercício forçado. Mas Fidalga adorava aquele atrevido sinceramente. O Lourenço sentava-se, em sentido literal e figurado, na cabeça da cadela. Geralmente passava bons bocados a importuná-la, tal e qual como a avó fazia connosco: repetia, à sua maneira, aquelas perguntas típicas:
Quem acaba a sopa?
E, depois de uma pausa teatral, ainda completava, num tom carregado:
Não somos nenhuma pocilga!
A Fidalga ouvia os sermões do Lourenço da mesma forma que as crianças ouviam os da avó: sem ligar nenhuma. Quando o papagaio se tornava demasiado insistente, limitava-se a abaná-lo com o focinho ou empurrava-o com a língua áspera.
Por isso, o desaparecimento do Lourenço foi uma tragédia pessoal para todos cá em casa menos para a Mel, claro está. Duas semanas depois, quando já nos resignávamos à ideia de nunca mais ver o nosso tagarela, começaram a correr rumores de que, no meio do bando de gralhas que assaltava os pomares da zona, havia agora um novo membro. Uma ave vistosa, verde como a relva e com uma manchazinha vermelha, que não só grasnava alto, como imitava, sem vergonha, latidos e até disparatava palavrões com uma voz demasiado humana para ser gralha. Esse último detalhe quase matou as nossas esperanças: ali em casa féias palavras todos sabíamos mas nunca era da boca para fora…
Ainda assim, pensei: se calhar, na liberdade, o nosso Lourenço apanhou uns quantos palavrões, como a Mel apanha pulgas. Voltámos à carga nas buscas ao nosso aventureiro alado.
Passaram-se uns dez dias até que a sorte nos bateu à porta. Eu andava a tratar da horta quando ouvi, bem perto de mim:
Então, como é?
Num galho de cerejeira, rodeado de uma meia dúzia de gralhas negras a devorar fruta, estava o meu Lourenço.
Lourenço, vem cá, filho! Anda, a mãe tem saudades, tem aqui umas sementes boas…
O Lourenço, desconfiado, inclinou a cabeça de lado.
Anda, filho, estamos todos cheios de saudades tuas: eu, o pai, a Mariana e o Simão, e até a Fidalga. Anda cá, pequenino…
Aproximava-me devagar, com a mão esticada… Quase conseguia agarrar o galho quando, de repente:
Uns grandes traquinas disse o Lourenço com a voz irónica do presidente da associação de moradores, e arrancou a voar com as gralhas todas atrás.
O nosso papagaio viveu à solta até às primeiras chuvas. Apareceu por casa umas quantas vezes, mas não conseguimos convencê-lo a voltar para a família. Aos nossos apelos respondia sempre com filosofias e voava de novo a caminho da liberdade.
Com o Outono a aproximar-se e as manhãs a arrefecer, o Lourenço era mais visto sozinho. Cada vez mais vezes pousava no nosso quintal, triste, todo engruvinhado, pousado na vedação ou nas árvores mas não se deixava apanhar.
Nessa altura, recorremos ao trunfo: a Fidalga. Não faço ideia do que ela lhe disse, mas uns dias depois o Lourenço entrou pela porta de cabeça erguida, montado no lombo da nossa cadela ruiva.
No fim de tudo, aprendi que as saudades criam laços tão fortes que, por muito que se goste da liberdade, nada sabe tão bem como voltar a casa.







