Depois que o meu novo marido veio morar connosco, o meu filho de 15 anos fechou-se em si mesmo, deixou até de se sentar connosco à mesa, até que um dia, de repente, disse:

Depois que o meu novo companheiro se mudou para cá, a minha filha de 15 anos, Beatriz, fechou-se num silêncio fundo. Já nem se sentava à mesa connosco, e num dia de chuva, enquanto a luz da manhã mal entrava pela janela, disse-me baixinho: Mãe, tenho medo dele. Não consigo viver com ele nesta casa, porque ele

A primeira vez que António, o meu namorado, passou a noite aqui foi numa sexta-feira. Acordei com o cheiro a café fresco. Na cozinha, ele estava tranquilo ao fogão, a fritar ovos como se sempre tivesse feito parte daquele lugar. Sorriu, beijou-me na face e murmurou que estava habituado a levantar-se cedo. Tudo parecia tão normal.

Pouco depois, ouvi o tilintar do sumo a ser servido. Beatriz entrou, viu António, assentiu com a cabeça e encostou-se à janela, a beber sumo de laranja sem se aproximar da mesa. Pensei tratar-se de uma birra habitual de adolescente aos quinze anos, poucos querem conversa ao pequeno-almoço.

Tenho quarenta e quatro anos. Já divorciada há muito, trabalho como contabilista para sustentar a casa. António tem quarenta e nove, é professor universitário e também carrega um divórcio nos ombros. Conhecemo-nos através de amigos em comum, trocámos mensagens, encontrámo-nos várias vezes. A sua calma, ausência de vícios e olhar sereno ajudaram-me, depois de oito anos sozinha, a voltar a sentir-me não só mãe, mas também mulher.

Nos primeiros meses, ele só vinha cá quando a Beatriz não estava. Depois resolvi que não havia nada a esconder a minha filha era já crescida, tinha de perceber que a mãe também tinha direito à sua felicidade. Apresentei-os. Tudo decorreu com educação, sem conflitos. Achei até que estava a correr bem.

Mas, com o tempo, começaram a aparecer pequenos sinais. Coisas mínimas, mas que eu, teimosa, não quis associar. Beatriz passou a evitar o pequeno-almoço sempre que António dormia cá. Dizia-me que não tinha fome. Começou a passar mais tempo nos treinos, a ir quase todos os fins-de-semana à casa da avó. Achei até bom pelo menos ocupava-se com o desporto e ajudava a família. Parecia-me tudo coincidência.

Quatro meses depois, António começou a ficar mais vezes. Ia-me habituando à ideia de que ele poderia vir a viver connosco de vez. Numa dessas manhãs de meio da semana, Beatriz abriu a porta da cozinha, viu António e gelou na soleira. Sem dizer palavra, voltou para o quarto.

Fui atrás dela. Sentada na cama, olhava para o vazio.

Perguntei-lhe o que se passava e ela respondeu com a voz quase sumida:

Mãe, eu tenho medo. Não consigo viver com ele nesta casa.

Senti o peito apertar-se. Insisti, queria compreender.

Ela levantou os olhos para mim e repetiu aquilo que já desconfiava, mas não queria aceitar.

Mãe, desde que ele chegou, eu já não tenho lugar aqui. Disse-me que vai mudar-se para sempre. Eu não posso dividir a casa com ele.

O que te disse ao certo? perguntei, tentando não tremer.

Que, quando se mudasse, tinha de haver ordem. Que era altura de pôr tudo nos eixos.

Demorei a perceber o que queria dizer.

Que ordem é essa?

Uma ordem onde eu já não faço falta respondeu, tentando sorrir, mas os olhos estavam mortos de tristeza. Disse que numa casa só pode haver um homem. Que tudo ia mudar. E hesitou.

E então?

Que se eu não gostasse, talvez fosse melhor ir viver com a avó.

Nesse dia, esperei António regressar.

Disseste à minha filha que ela tinha de se habituar? perguntei firmemente.

Suspirou.

Limitei-me a traçar limites. Percebe, se vou viver aqui, as coisas tornam-se sérias. Quero uma família, uma vida normal.

E a Beatriz, o que é para ti?

Já está quase adulta. Vai sair cedo ou tarde. Temos de pensar em nós e, quem sabe, no nosso próprio filho.

Olhei-o e percebi, espantada, que falava tranquilamente, sem rancor. Era assim mesmo que pensava.

Portanto, achas que eu devo escolher?

Deu de ombros:

Só quero que saibas o que desejas.

Nessa noite mal fechei os olhos. De manhã, sentei-me ao lado da Beatriz e tomei-lhe a mão.

Já fiz a minha escolha disse-lhe, a voz a tremer com a certeza. Nesta casa nunca serás um estorvo.

Nesse mesmo dia, António fez as malas e saiu. Foi então que compreendi: durante todo este tempo, olhei apenas para o meu próprio brilho, esquecendo a dor e o receio de quem mais amo.

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Depois que o meu novo marido veio morar connosco, o meu filho de 15 anos fechou-se em si mesmo, deixou até de se sentar connosco à mesa, até que um dia, de repente, disse: