Beatriz, professora de matemática, estava ansiosa para celebrar o aniversário da sua querida amiga e colega, com quem percorreu lado a lado o caminho até à escola durante quarenta anos. Logo cedo, Beatriz vestiu com esmero uma blusa e uma saia elegante. Mesmo com o tempo chuvoso e as poças de água espalhadas pelas ruas de Lisboa, decidiu ir à pastelaria comprar um bolo e, na florista ao lado, escolher um ramo para homenagear a amiga.
Ao caminhar pelo passeio, um carro conduzido por uma mulher loura passou a alta velocidade, salpicando Beatriz e os presentes com lama castanha. A condutora, sem qualquer delicadeza, gritou: Ó avó, para onde vais assim tão arranjada? Já passou da hora! Avós deviam estar em casa a essa hora!
Beatriz, irritada com a falta de educação e respeito, respondeu firme: Tenho motivos importantes para sair! Devia ter vergonha!. A troca de palavras começou a intensificar-se e a mulher loura passou a criticar Beatriz por andar tão perto das poças.
Foi então que, da casa ao lado, saiu um homem corpulento, bem posto e com ar abastado. Ao perceber a confusão, perguntou: Está tudo bem por aqui? A mulher loura apressou-se: Esta velha é a culpada de tudo e, ainda por cima, está a incomodar-me. Porém, quando o homem olhou para o rosto de Beatriz, o seu semblante iluminou-se imediatamente reconhecendo a antiga professora que tanto admirava. Beatriz, que alegria voltar a vê-la! exclamou, abraçando-a com carinho.
Assim que percebeu que a mulher loura era a sua própria secretária e que ela tinha ofendido Beatriz sem saber, o homem pediu desculpa em seu nome e insistiu para que ela também se desculpasse. A mulher lá murmurou um tímido Desculpe e, devido à forma como se comportou, o homem decidiu despedir a secretária naquele instante.
Em seguida, fez questão de acompanhar Beatriz até casa, esperou que ela trocasse de roupa e até comprou novas flores e um bolo maior, para que a celebração do aniversário pudesse ser repleta de alegria e respeito.
No final, Beatriz compreendeu que, por mais difícil que seja a vida ou ingratos os momentos, bondade e reconhecimento podem transformar até os dias mais cinzentos. E em Lisboa, como em toda a vida, respeito e generosidade nunca saem de moda.







