Depois de 4 meses de conversa online, aceitei encontrar-me com o meu pretendente de 52 anos — e ele começou o encontro com 5 críticas

Depois de quatro meses de mensagens, aceitei encontrar-me com um cavalheiro de 52 anos e ele começou a conversa com cinco reclamações

Costuma-se dizer que a antecipação de um momento especial pode ser ainda mais doce do que o próprio acontecimento. No caso da Filipa, a espera estendeu-se quase quatro meses e transformou-se num verdadeiro romance digital, com novos capítulos praticamente todos os dias.

Durante esse tempo, Filipa aprendeu ao pormenor todos os gostos de António, gravou mentalmente os nomes dos amigos de infância dele e até já não estranhava o hábito peculiar de ele terminar cada bom dia com três reticências.

Filipa tinha quarenta e cinco anos aquela idade em que se vai a um encontro já sem nervosismo miúdo, mas sim com a curiosidade irónica de uma exploradora: Vamos lá ver que espécime calha desta vez, pensava ela enquanto se preparava.

Pertencia àquele grupo de mulheres que sabem transformar um simples pulôver de caxemira numa verdadeira peça de gala e, com a sua autoironia, desfaziam qualquer situação embaraçosa.

António, que há pouco fizera 52, parecia ser, através das mensagens, alguém sério, sensato e até com uma ponta de graça mas, acima de tudo, transmitia confiança.

No nosso tempo, Filipa, lia-se nas mensagens tardias dele, as pessoas não procuram fogo de artifício, mas sim calor. Apetece-me estar com alguém que me compreenda sem grandes palavras.

Sem palavras, então, murmurava Filipa, enquanto retocava a máscara de pestanas, desde que as que se disserem não me deem vontade de sair a correr.

Marcaram o encontro num pequeno café acolhedor, com luz suave e cheiro a canela. Filipa chegou à hora, tranquila, confiante, pronta para uma boa noite. Estava impecável.

António apareceu uns cinco minutos depois. Na realidade, era um pouco mais baixo do que parecia nas fotografias e tinha aquele olhar de quem acabou de descobrir um erro grave nas contas do mês.

Sentou-se defronte dela, esboçou um sorriso fugaz e cumprimentou-a.

Nenhum elogio, nem um gosto de te ver.

António analisou Filipa atentamente, como quem faz uma vistoria. Depois sugeriu que pedissem um café com um docinho ficaram por aí.

Filipa começou ele, com o tom de um coordenador pedagógico no início de reunião , analisei a nossa conversa durante quase quatro meses. Agora que te vejo ao vivo, acho que é importante esclarecer já certos aspetos. Tenho cinco críticas a fazer.

Por dentro, algo tilintou em Filipa a sensação típica de quando o bom humor se estilhaça. Recostou o queixo na mão e fez que sim com a cabeça.

Cinco críticas? Que intrigante. Diz de tua justiça.

António parece não captar o sarcasmo e levanta o primeiro dedo.

Primeira crítica: as fotografias.

Numa das fotos, de vestido azul, tens a silhueta diferente. Agora vejo que estás mais cheia de formas. Isso pode induzir um homem em erro. À nossa idade, as mulheres deviam ser mais verdadeiras.

Filipa sorriu para si: Cheia de formas já é simpático, podia ter dito monumental.

Segunda crítica: lentidão nas respostas.

Às vezes demoras demasiado a responder. Por exemplo, há três semanas, mandei-te mensagem às 14h15 e só respondeste às 16h40. Os homens não gostam de esperar. É falta de respeito.

Deve ter sido por causa de uma reunião começou Filipa, mas António já levantava o próximo dedo.

Terceira crítica: escolha do local.

Porque viemos aqui? Este sítio é demasiadamente chique. Sugeri um café mais normal. Tal escolha revela gosto por ostentação.

Filipa olhou para o latte com vontade de o despejar sobre a cabeça dele, mas a curiosidade foi mais forte.

Quarta crítica: visual.

Para quê este vestido? Só vínhamos tomar café. É demasiado chamativo para o dia. Os acessórios são em excesso. Uma mulher deve cativar pela profundidade, não pelo brilho. Com a minha idade, procuro conteúdo, não montra.

Quinta crítica: independência.

Foste tu que escolheste o restaurante, dizes frequentemente eu faço, eu escolho. Não deixas o homem sentir-se homem. Quero alguém que peça opinião, não que me mostre independência a toda a hora. Se ficarmos juntos, vais ter que repensar esse comportamento.

Terminou e cruzou os braços, claramente à espera de um pedido de desculpas ou um agradecimento pela franqueza.

Filipa contemplou-o, e de repente tudo lhe fez sentido: quatro meses de conversa não passaram de um disfarce para um perfeccionista controlador. Ele não buscava carinho procurava apenas alguém que alimentasse o seu ego.

Sabes, António disse ela, suave e quase com ternura , também fiz a minha análise. E bastaram-me cinco minutos para chegar a uma conclusão.

Então? semicerrando os olhos, ele perguntou.

És mesmo um espécime raro. Atravessaste Lisboa só para apresentar a fatura a uma mulher que vês pela primeira vez, cobrando-lhe pelo gosto, pela aparência e pelo direito de ser autêntica. Um nível impressionante de confiança.

António franziu o sobrolho:

Só estou a ser honesto.

Não, abanou a cabeça Filipa tu não és honesto. Estás é descontente contigo próprio e tentas medir o mundo com a régua torta. Não gostas das minhas fotos? Vai ao museu lá as obras não mudam. A resposta demora? Arranja um tamagotchi. Não gostas do meu vestido? Não o pus para ti, mas para mim.

Ela levantou-se, endireitou a mala e olhou-o com serenidade:

E, antes de ir, digo-te: se o teu orgulho treme sempre que ouves eu própria faço, precisas de terapia, não de um namoro. Aos quarenta e cinco valorizo demasiado o meu tempo para desperdiçá-lo com alguém que começa um encontro apontando os meus defeitos.

Vais-te embora? E o café? murmurou António.

O café bebes tu. Sempre poupas uns euros. E aproveita o conselho: se queres que te olhem a boca, marca consulta no dentista.

Quando chegou a casa, Filipa bloqueou António em todas as redes. Aos quarenta e cinco anos, conforto não é só mantinha e silêncio também é um telemóvel livre de pessoas que nos tentam encaixar em moldes que nunca foram nossos.

E vocês, o que acham: foi um encontro falhado ou apenas uma peça interpretada ao pormenor? Vale a pena continuar a falar com quem, logo de início, nos passa o recibo por sermos apenas quem somos?

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