Depois da consulta, o médico discretamente colocou um bilhete no meu bolso: «Fuja da sua família!». Naquela mesma noite percebi que ele acabara de me salvar a vida… Mas o que aconteceu a seguir deixou todos em choque… É inacreditável!

Diário de Amália Rodrigues, Lisboa

Hoje, escrevo com as mãos ainda a tremer, sem acreditar no que realmente vivi. Quem diria que uma visita banal ao médico mudaria todo o curso da minha vida? Tenho de organizar os pensamentos, porque ainda ecoa na minha mente aquela frase inesperada

Foi esta tarde, depois da consulta com o Dr. Manuel Figueiredo, o meu médico de família há mais de vinte anos. Sempre o considerei prudente e sensato. Despediu-se calorosamente, como de costume, mas, ao dar-me o casaco, reparei num pequeno papel, discretamente empurrado para o bolso. Ele olhou-me com preocupação e fez sinal para que ficasse em silêncio. No corredor do hospital de Santa Maria, abri o bilhete e fiquei gelada: Fuja da sua família.

Primeiro, tive vontade de rir. Que disparate seria este? Talvez uma piada sem graça provocada pelo cansaço dos anos. Mas, ao cair da noite, ao regressar ao meu apartamento em Campo de Ourique, percebi que aquela advertência poderia de facto ter-me salvo.

O meu mundo parecia sempre tão seguro. Desde a morte do meu Miguel, vivera para o meu filho, Joaquim. No ano passado, ele decidiu trazer a sua noiva, Benedita, para morar connosco. Aceitei-a sem reservas, via nela quase uma filha. Casaram-se e permaneceram comigo no apartamento de três assoalhadas. Mãe, nunca te vamos deixar sozinha. Tu és o nosso coração, dizia o Joaquim, envolvendo-me nos seus braços. Que mais poderia eu desejar?

Entrei em casa com o meu chaveiro de cortiça, já sentindo o cheiro delicioso de bolo de maçã. Só poderia ser obra da Benedita, sempre tão cuidadosa. Mãe, que bom que chegou! A consulta correu bem?. O seu sorriso era tão genuíno que esqueci o bilhete estranho. Tudo bem, Benedita. Só o colesterol a chatear um bocadinho. Receitou-me outros comprimidos, inventei no momento.

Veja só: fiz um chá de cidreira especial para si, para ajudar o coração!, disse ela, conduzindo-me até à sala. O Joaquim juntou-se e beijou-me a testa. Queremos mimar-te, mãe. A Benedita arranjou umas vitaminas recomendadas por um amigo farmacêutico. Vai tomar ao deitar com o chá, está bem?. E colocou-me na palma da mão um frasco bonito. Obrigada, meus filhos, respondi, sentindo os olhos molhados. Tenho mesmo sorte

Tudo aquilo era tão atencioso mas demasiado, quase sufocante. Tentava convencer-me de que era apenas excesso de amor filial, mesmo quando parecia demasiado intrusivo.

À noite, cansada, fui para o meu quarto. Antes de adormecer, Benedita entro pé ante pé, trazendo um pires com um comprimido branco, grande e sem marcas, e uma chávena de chá a fumegar. Mãezinha, aqui estão o chá e o seu vitamínico, para ter um sono descansado!, sussurrou, cheia de ternura.

Assenti, mas por dentro algo me causava desconforto. Para não ferir a Benedita, levei o comprimido à boca e fingi engolir. Escondi-o discretamente na mão, bebi um gole minúsculo de chá, e desejei boa noite. Quando ela saiu, abri a mão: lá estava, imaculada, a tal pastilha suspeita. Decidi deitá-la fora de manhã. Soltei-a no chão, onde rolou até debaixo do velho aparador.

Achei que nada de mal poderia acontecer mas foi esse acaso que me salvou.

No silêncio profundo da madrugada, acordei com um som estranho e agoniado. Um chilreio fraquinho, vindo de debaixo do aparador. Acendi o candeeiro e, de joelhos, olhei e vi o nosso pequeno hamstersinho Nicolau uma bolinha de pelo dourado que adorava fugir da gaiola. Estava deitado de lado, a respirar com dificuldade, os olhinhos semicerrados.

Senti o coração apertado. Peguei nele, quente e húmido, e segurei-o ao peito. Porquê, meu pequenino? Então reparei, ao lado, no comprimido branco. O Nicolau devia ter encontrado o que larguei e comido, curioso como sempre Tremeu mais uma vez e ficou imóvel na minha mão. As lágrimas caíram sem aviso.

De repente, tudo fez sentido: o bilhete do Dr. Figueiredo, a insistência dos meus vitamínicos, o comportamento invasivo. Não era amor. Era algo muito mais sombrio. Agarrei o comprimido e cheguei à certeza queriam fazer-me mal.

Enrolei o Nicolau num lenço de renda e, com discrição, escondi-o na prateleira. Precisava agir. Era a minha vida.

Peguei numa pequena mala a que guardava pronta para o caso de uma ida ao hospital e coloquei os documentos, algum dinheiro, pijama e roupa interior. Também levei o frasco das vitaminas e o chá. Provas. Abri a porta do quarto devagar. Silêncio. Só o tique-taque do relógio da sala. Deslizei pelo corredor, saí sem fazer barulho pelas escadas do prédio. Tudo parecia incrível. Lisboa a dormir, tão calma. Olhei para cima para ver se alguma luz se acendia em casa, nada.

Havia um só destino em mente: o Dr. Figueiredo. Ele era a única pessoa em quem podia confiar. Caminhei apressada até ao bairro de Alvalade, sempre a olhar para trás, temendo cruzar-me com sombras conhecidas.

Chegando ao prédio antigo dele, digitei ansiosa o número no intercomunicador. Quem é?, ouvi. Sou eu, Amália preciso da sua ajuda!, sussurrei o mais baixo que podia. Um clique na fechadura, e em segundos estava dentro.

O Dr. Figueiredo recebeu-me de robe, silencioso, e conduziu-me até à cozinha. Já esperava que viesse, murmurou. Mostrei-lhe o comprimido e as vitaminas. Ele retirou um estojo de análise rápida. O resultado não tardou: Isto é um neuroléptico fortíssimo! Em doses assim, pode ser fatal para uma pessoa da sua idade.

As lágrimas correram pelo rosto. Porquê os meus filhos?. O médico suspirou pesadamente: Muitas vezes a ganância cega. Amanhã tratar-se-ão das provas e das autoridades. Agora o importante é a sua segurança.”

Só conseguia chorar de raiva e tristeza. Sobrevivi. E agora tinha de saber toda a verdade. Nem que me custasse tudo.

Seis meses depois, ainda dói lembrar-me.

A investigação foi longa. Joaquim e Benedita negaram tudo. Diziam que as vitaminas eram só suplementos, o chá uma tisana relaxante, a morte do Nicolau, puro azar. Mas os exames eram claros: toxinas perigosíssimas nos comprimidos e sedativos no chá. Por fim, ficou claro que, nos últimos tempos, os meus resultados mostravam um aumento lentíssimo, mas contínuo, de substâncias que não faziam sentido para alguém com a minha saúde.

Não suportando a pressão, Joaquim acabou por confessar durante o segundo interrogatório. A Benedita é que arquitetara tudo, convencendo-o de que, com a minha idade, não me restava muito tempo, e que a casa fazia falta para a família jovem. Encontrou um farmacêutico que lhe vendeu os comprimidos, planeou as doses e tudo: só restava esperar. O Joaquim jurou, com lágrimas nos olhos, que nunca quis magoar-me só estava cego de amor por ela.

A Benedita tentou negar até ao fim. Disse que eu era senil, que inventava histórias por solidão mas as provas eram esmagadoras. Foi condenada por tentativa de homicídio. O Joaquim recebeu pena suspensa por cumplicidade e arrependimento.

Hoje, a minha vida é muito mais tranquila, mas cheia de ausências. O Dr. Figueiredo ajudou-me a mudar-me para Coimbra, encontrou-me um apartamento acolhedor, e o seu colega faz o meu acompanhamento. Todas as manhãs caminho no jardim e faço cachecóis para vender no mercado. Participo nas tardes de jogos do clube de idosos, onde até já aprendi a jogar sueca. Finalmente, durmo sem medo.

O meu coração ainda dói, mas não da mesma maneira. Lembro-me dos abraços do Joaquim, do seu Mãe, és o nosso tudo, do sorriso em criança. Percebo agora que esse filho se perdeu para sempre, consumido por uma fraqueza maior do que a bondade. Não tenho ódio, apenas resignação. A nossa família já se perdera muito antes daquela noite.

Ao Nicolau dedico um cantinho no móvel da sala, com uma fotografia e um hamster de peluche. Todos os dias deixo lá um pedacinho de fruta, como se ele ainda aqui estivesse. Sem saber, salvou-me a vida.

O Dr. Figueiredo visita-me todos os meses, trazendo livros e pão de mafra acabado de cozer. Uma vez disse-me: Sabe, D. Amália, às vezes, mais do que tratar doenças, o nosso papel é perceber quando o perigo não está no sangue, mas no coração das pessoas à volta. Sorri-lhe. E agora sei, com todas as certezas: a vida continua. Mesmo após a traição. Mesmo quando tudo parece perdido. Especialmente, quando finalmente estamos a salvo.

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