“Deixa a sopa azeda de lado! Depois de um jantar em família com os meus pais, levei a minha esposa comigo.”

Olha, deixa-me contar o que se passou connosco no fim-de-semana passado. Eu e a minha mulher, Maria Inês, fomos jantar a casa dos pais dela, lá em Coimbra. Era para ser um jantar de família tranquilo, mas acabou por dar confusão.

Começámos como sempre, à volta da mesa, a conversar sobre mil coisas desde o Benfica até às novidades do bairro. Só que, do nada, a Maria Inês trouxe à baila o tema do meu emprego, dizendo que talvez fosse altura de mudar.

Até não era totalmente descabido, porque há pouco tempo começámos a falar lá em casa sobre construir uma piscina no jardim dos meus pais, ali em Cascais. Era um sonho antigo, mas este ano a Maria Inês decidiu que já não dava para adiar.

Para além disso, pensámos em trocar de carro antes do inverno chegar. E também queríamos ir de férias para o Algarve no verão, que já não vamos há três anos! Só que, lá em casa, somos só eu a trabalhar.

Eu até gosto do meu emprego não é perfeito, mas vou desenrascando. O problema é que a empresa está com dificuldades, houve muitos despedimentos e até nos cortaram o salário, sem saber quando volta ao normal.

Expliquei na mesa que temos poupanças, mas só dão para uma viagem modesta ao Algarve, e se não subirem os preços, para um carrinho básico que já andávamos a ver. Só que, para ela, a prioridade era sempre a piscina dos pais, nem se falava dos nossos planos.

Achei isso injusto e disse-lhe que não concordava, mas ela terminou a conversa a dizer que eu era preguiçoso e que não tinha vontade de procurar outro trabalho, que assim nunca íamos ter dinheiro para tudo.

E pronto, o mesmo debate voltou logo à mesa. Já nem consegui manter a calma e acabei por dizer ao sogro, assim meio bruscamente, que todos os meses estamos a ajudar bastante os pais da Maria Inês, que até o jantar se calhar foi quase pago com o meu dinheiro. Foi um desabafo parvo, mas saiu sem filtro e já não havia volta atrás.

Ali sentado, a comer a sopa de feijão, começou então o discurso da Maria Inês ficou mesmo magoada e disse-me imensas coisas que ainda não tinha ouvido, alguns termos bem portugueses. Eu nem ouvi muito, levantei-me, peguei nas minhas coisas e fui para casa em silêncio.

Quando cheguei, fui buscar as coisas dela e levei-as para casa dos pais, porque sinceramente, acho que estas conversas e atitudes não se fazem é um absurdo. Agora estou em casa, com cabeça feita em água, a pensar no que fazer a seguir não faço ideia.

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“Deixa a sopa azeda de lado! Depois de um jantar em família com os meus pais, levei a minha esposa comigo.”